"Brasil quebrado"? A opinião de economistas cearenses sobre a situação e os rumos da economia

Para economistas, situação fiscal é desafiadora e exige maestria na condução por parte do Governo Federal

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Uma fala do presidente Jair Bolsonaro, segundo quem "o Brasil está quebrado" e ele, mandatário da República, "não consegue fazer nada a respeito" repercutiu no mundo econômico, nesta terça-feira (5). A Coluna acionou economistas cearenses para avaliarem o quadro atual e listarem os pontos-chave a serem abordados pelo Governo Federal no intuito de aplacar o panorama das contas públicas e acelerar a recuperação econômica.

Confira análise dos economistas

Alisson Martins - Economista e Coordenador do Curso de Economia da Unifor

  • O equilíbrio das contas públicas, sem dúvidas, é um grande desafio, e em particular no cenário de grave crise econômica e sanitária. As medidas que foram tomadas, como o auxílio emergencial e o suporte às empresas com complementação de salários e crédito, foram estratégicas para atenuar os efeitos da crise.
     
  • Essas ações foram de grande impacto no orçamento. Para mitigar esses impactos, como premissa básica, está a recuperação da economia. Portanto, as reformas tributária e administrativa, por exemplo, são pontos importantes, sobretudo para melhorar o ambiente de negócios e a eficiência do estado, que respectivamente poderão aumentar a arrecadação, via retomada econômica, e redução de gastos, por meio da eficiência da máquina pública.
     
  • Para recuperação fiscal, além da retomada da atividade econômica, o governo também deve avançar em reformas microeconômicas, como na melhora da eficiência da Execução Fiscal das dívidas com a União. É mais de R$ 1 trilhão que pode ser recuperado.
     
  • Quando da retomada mais consistente da economia, uma reavaliação das renúncias fiscais às empresas, também pode ser importante para a geração de caixa para o governo.
     
  • Outro ponto que pode ser abordado é a tributação sobre dividendos aos acionistas. O Brasil é um dos poucos países que não tem essa tributação. Nos EUA, a pessoa física, que é acionista, paga 30% de IR retida na fonte.

Ricardo Eleutério - Economista, professor de economia da Unifor e Conselheiro do Corecon-CE

  • A situação da economia brasileira realmente é muito delicada. Depois de uma profunda recessão em 2015 e 2016 com a queda do PIB da ordem de 7%, o País vinha com uma recuperação lenta e gradual. Em 2020 veio a pandemia. O tombo no PIB de 2020 deve ser da ordem de 4,5%. Esta queda da atividade econômica só não foi maior porque o Brasil adotou uma política monetária expansionista, anticíclica, anticrise, que foi aumentar oferta de crédito, reduzir taxa básica de juros e outros estímulos.
     
  • Do lado da política fiscal, o problema se revela mais delicado, o que traduz a frase infeliz do presidente, a qual termina por aumentar o grau de incertezas e afugentar os investidores estrangeiros. No bom economês, o país quebrado significa um país com uma dívida e um déficit público bastante elevados.  Como manda o receituário, fizemos uma política fiscal expansionista para elevar a renda dos agentes econômicos ou evitar quedas até o fundo do poço. Todavia o que acontece com uma política expansionista? Ela produz aumento do déficit e da dívida pública.
     
  • O que se espera para 2021? A retirada gradativa destes estímulos. A Selic deve voltar a subir um pouco, porque tivemos uma aceleração inflacionária, mesmo em meio à recessão. Para combater a inflação, precisa aumentar os juros.
     
  • Enfrentar o déficit significa cortar gastos públicos, aumentar receita tributária. Mas o cenário de 2021 se apresenta difícil porque tivemos um recrudescimento da pandemia. Então temos um dilema clássico de política econômica, o chamado trade-off. Temos que enfrentar o déficit da dívida pública fazendo política fiscal contracionista, reduzindo gastos e aumentando tributos, mas fazendo isso gera-se mais recessão. É difícil. Precisa de muita destreza, maestria para trabalhar esta política fiscal, que também passa pelo Congresso. Há que se ter condição política favorável para passar os programas no Congresso.
     
  • É fundamental salientar: quanto mais se assumir uma posição negacionista quanto à pandemia, quanto mais se for negligente ou incompetente na condução da crise sanitária, o que acontece? A crise se agrava e você tem reflexos na atividade econômica. É fundamental rever esta postura do Governo Federal e Ministério da Saúde, porque ela produz impactos negativos na área econômica.

Ricardo Coimbra - Economista e presidente do Corecon-CE

  • Esse conceito de país quebrado, falado pelo presidente da República, está muito relacionado com a falta de capacidade do país de honrar com seus compromissos, ou seja, da impossibilidade de captar recursos e dinheiro no mercado. Isso é uma inverdade. Você teve, sim, em função da pandemia, que aumentar esse endividamento público, mas é necessário o governo trabalhar neste ano principalmente a reforma administrativa e tributária, para que se direcione melhor a relação entre receita e despesa pública para o médio e longo prazos, para gerar mais certeza ao investidor internacional, aquele que espera a capacidade de recuperação da nossa economia.
     
  • Se observarmos a situação de dívida, com as nossas reservas internacionais no patamar de algo em torno de 360 bilhões de dólares, mostra que nós temos uma forte proteção ao financiamento e garantias para novas captações. O nosso endividamento externo é muito baixo, pois o endividamento maior do Brasil é interno, ou seja, é dívida com as empresas, com as pessoas físicas. Por que eu falo isso? Porque é quando as empresas, pessoas jurídicas ou físicas, captam recursos, emprestam ou aplicam recursos no mercado financeiro, quando você vai em uma instituição financeira e faz uma aplicação em  renda fixa, parte significativa daquele recurso vai para o financiamento da máquina pública, seja pessoa física ou jurídica. Ou seja, você teve e está tendo um crescimento em função da própria incompetência do Governo atual de rolar e ter um bom controle da relação da dívida pública e o controle daquilo que se recebe e se gasta.

Vitor Borges - Professor do curso de Finanças da UFC

  • Interpreto a fala do presidente como uma tentativa de buscar holofotes para alertar seus apoiadores sobre a importância da eleição das presidências da Câmara e do Senado, no contexto da proximidade do pleito e o desalinhamento do executivo e legislativo. O termo “quebrado” no contexto da fala do presidente refere-se a esse desalinhamento. Não faz sentido interpretar que “o Brasil está quebrado” do ponto de visto econômico, pois, mesmo com dívida bruta do governo encerrando 2020 em 96% do Produto Interno Bruno (PIB), 20,2 pontos acima do patamar de encerramento de 2019, a economia apresenta sinais vitais de recuperação.
     
  • O Programa de Benefício Emergencial (BEM) preservou 17 milhões de empregos e, mesmo considerando aqueles que perderam empregos na pandemia, o acumulado de empregos de janeiro a novembro apresentou superavit, devendo fechar 2020 positivo com a divulgação do CAGED de dezembro.
     
  • Em relação ao endividamento, vale ressaltar que os juros mais baixos geram menores encargos e isso possibilitará um melhor gerenciamento da dívida. A preocupação do governo seria a demanda pelos títulos com juros mais baixos, mas todos os leilões feitos pelo Tesouro apresentaram demanda superior, o que mostra confiança dos investidores e, consequentemente, a curva de juros de longo prazo vem reduzindo.