Tem algo esquisito no futebol cearense

Leia a Coluna deste sábado (17)

Escrito por
Tom Barros tom.barros@svm.com.br
Legenda: O Campeonato Cearense começou no último dia 6 e está na 4ª rodada da 1ª Fase
Foto: KID JUNIOR / SVM

Estou gostando do Manjadinho. É a nossa cara. Tem suas deficiências, sim. Tudo bem. Mas tem a sua graça também. Tem bicho doido que, pela televisão, assiste aos jogos dos certames europeus e, depois, vem comparar com o nosso feijão com arroz. É muita cara de pau. 

Vejam os salários dos jogadores dos clubes europeus. Vejam o faturamento dos clubes europeus. Bilhões de euros. Aqui é o realzinho corroído pela inflação. Vão querer que Fortaleza e Ceará produzam o que produz um Real Madrid ou um Barcelona? É hora de comprar óleo de peroba. 

Não por outro motivo está faltando ídolo no futebol cearense. Os garotos promissores são levados ainda nos cueiros.  Consolidam seus trabalhos fora daqui. Está difícil aparecer um novo Clodoaldo. Craque. Ídolo. Talvez o último ídolo genuinamente cearense. 

Quando digo que há algo esquisito no futebol cearense, explico: aqui é o único lugar onde o maior ídolo não é quem está em campo, mas quem está à beira do gramado. Os dois mais recentes foram Ceni e Vojvoda. 

 

Gentilândia 

 

Na década de 1950, o território da Gentilândia revelou dezenas de craques. Foram diplomados sob as sombras das mangueiras. Assim, nasceram para o futebol os irmãos Moésio Gomes e Mozart Gomes. O notável Haroldo Castelo Branco. Havia ídolos por toda parte. 

 

Treinadores 

 

Ora, jamais se imaginava um treinador-ídolo. Nem pensar. O treinador era respeitado, mas no seu cantinho. O lugar dos ídolos era privativo dos legítimos craques. Hoje, a importância do treinador, não raro, se sobrepõe à importância dos atletas. Donde já se viu isso? 

 

Mal súbito 

 

Na década de 1950, Mitotônio marcou sua passagem como ídolo e craque do Ceará. À frente dele, na veneração popular, apenas Gildo. Não o conheci pessoalmennte. Ele morreu no dia 1º de abril de 1951. Atuando pelo Ceará, sentiu-se mal no PV. Foi levado às pressas para a Assistência Municipal, atual IJF, onde morreu no dia seguinte. 

 

Hoje 

 

Quem é o craque do futebol cearense no momento? Ninguém. Há uma carência muito grande. O posto está vago. O último craque que vi pelas de cá foi o Baixinho bom de bola, Clodoaldo. Nasceu no Ipu. No seu tempo, treinador não era ídolo: só treinador. Ser ídolo era privilégio apenas da turma dentro de campo. 

 

Estranho 

 

Em qual estado brasileiro algum treinador foi ídolo maior que os jogadores? Não lembro. Vanderlei Luxemburgo chegou a ser incensado, mas nunca em um patamar superior ao dos atletas. Por isso repito: há algo estranho no futebol cearense. Somente onde falta ídolo em campo os treinadores passam a ser ungidos ídolos do clube. 

Assuntos Relacionados