Sobral chora a perda do ídolo

Leia a Coluna desta quinta-feira (22)

Escrito por
Tom Barros tom.barros@svm.com.br
Legenda: Cabeção, o primeiro agachado, a partir da esquerda, foi um grande ídolo do Guarany de Sobral

Felizes os que viram em ação o notável atacante do Guarany, Raimundo Silva Ferreira, o Cabeção. Ele e o Cacique do Vale formam uma só história. Inseparável fusão de imagens, construída não apenas pelos mais de 200 gols que marcou, mas também pelo sentimento de amor que ele tinha pelo rubro-negro. 

Fui feliz: vi o Cabeção jogar. Mais feliz ainda por ter narrado alguns jogos em que ele atuou pelo Bugre sobralense. Cabeção fez parte de uma geração inesquecível. Em anos diferentes, atuou ao lado de nomes famosos como Nagibe, Pinto, Dajuana, Cabo Dulce, Aracati, Zé Maria e Teco-Teco. 

No dia 08 de junho de 1969, Sobral vivia a festa de inauguração do Estádio do Junco. O Guarany enfrentava o América, pelo Campeonato Cearense. Ainda no primeiro tempo, a bola foi alçada na área americana. Cabeção saltou soberano. De cabeça, marcou o primeiro gol da história do Junco. Guarany, 1 a 0. 

Terça-feira passada, dia 20, ao cair da tarde, Sobral recebeu a triste notícia da morte do ídolo, Cabeção, aos 84 anos de idade. Silêncio e dor. Saudade e gratidão. O adeus. Ao ídolo, o obrigado pelos gols, pelas emoções, pelo exemplo. Uma bela lição de vida. 

 

Papo descontraído 

 

O ilustre advogado, Paulo Quezado, é um dos maiores admiradores do atacante Cabeção. Há quatro anos, em Sobral, Paulo encontrou Cabeção. Fluiu um papo descontraído. Paulo perguntou como Cabeção estava. Cabeção respondeu: “Estou melhor do que o Pelé, pois o Rei está bem adoentado”. 

 

O Rei 

 

Ao Paulo Quezado, Cabeção disse que era fã incondicional do “Rei Pelé”. Guardadas as devidas proporções, Cabeção tinha uma qualidade que lembrava a do “Rei”: a grande impulsão. Por isso mesmo, apesar de não ser tão alto, Cabeção ganhava as bolas aéreas, mesmo diante de zagueiros de maior estatura.  

 

Voar, nunca 

 

Há muitos episódios interessantes sobre o medo que o atacante Cabeção tinha, quando levantavam a hipótese de que teria de fazer uma viagem aérea. Cabeção sofria mórbido temor de viajar de avião. Qual não foi sua apreensão, quando o seu colega Nagibe comunicou que o Náutico, de Recife, estava enviando um avião para buscá-lo. 

 

Reação 

 

Dizem que o Cabeção, após ouvir o relato de Nagibe sobre o interesse do Náutico, simplesmente sumiu. Passou 60 dias escondido. Alguns dizem que ele se escondeu em Massapê. Folclore ou não, a verdade é que o Cabeção reapareceu. E ficou no Guarany mesmo.  

 

Saudade 

 

Cabeção deixou significativo legado, não apenas pelo talento na feitura de memoráveis gols, mas também pelo precioso exemplo de humildade, selo dos homens dignos e bons. Cabeção está para o Guarany como Gildo está para o Ceará, Croinha para o Fortaleza e Pacoti para o Ferroviário. O reinado dos artilheiros inigualáveis.  

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