O futebol que me fez sonhar

Fiori Gigliotti, o locutor da torcida brasileira, fazia de suas narrações verdadeiros poemas

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Redação producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 12:51)
Legenda: O estilo de narração do Fiori Gigliotti inspirou centenas de profissionais pelo Brasil. Aqui, no Ceará, o narrador Gomes Farias seguiu as pegadas do “Locutor da Torcida Brasileira”, no ritmo e em alguns bordões
Foto: Arquivo/Jovem Pan

Não gosto das pausas no Campeonato Brasileiro. As paralisações me causam tédio, máxime aos domingos, dia consagrado ao futebol. Assim, sem perceber, fui mais uma vez puxado pelo saudosismo que me acompanha. Aí me peguei pensando em dois ídolos: Garrincha, do futebol, e Fiori Gigliotti, da narração esportiva.  

Fiori Gigliotti, o locutor da torcida brasileira, fazia de suas narrações verdadeiros poemas. Fiori transformava a magia dos atletas em algo semelhante a sonetos, versos e rimas. Nas narrações históricas das proezas de Garrincha, Fiori imortalizou momentos que me fizeram sonhar com a perfeição.  

Dois craques extraordinários. No microfone, Fiori Gigliotti; nos gramados do mundo, Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha. Na Copa de 1998, na França, tive a felicidade de conhecer pessoalmente Fiori Gigliotti, um gentleman. Garrincha eu conheci no PV. Foram momentos especiais na minha vida.  

Hoje, tantos anos depois, pouco escuto falar a respeito de Garrincha e de Fiori, dois gênios nos seus campos de trabalho. Lamentavelmente, a memória nacional é fraca. Que ingratidão! Já caiu no esquecimento o futebol que me fez sonhar.  

Inspiração   

O estilo de narração do Fiori Gigliotti inspirou centenas de profissionais pelo Brasil. Aqui, no Ceará, o narrador Gomes Farias seguiu as pegadas do “Locutor da Torcida Brasileira”, no ritmo e em alguns bordões. Em Teresina, no Piauí, o narrador Dídimo de Castro também se inspirou no notável Fiori.  

Influência  

É claro que Gomes Farias e Dídimo de Castro, posteriormente, criaram as suas próprias maneiras de narrar futebol. Cada um passou a usar bordões exclusivos. Farias e Dídimo diversificaram. Entretanto, ficou patente a influência de Fiori Gigliotti no trabalho de ambos.  

Apelidos   

O craque Garrincha também inspirou muitos jogadores. Se o atleta era driblador e tinha as pernas tortas, logo era apelidado de Garrincha. Aqui, no Ferroviário, houve um bom ponta-esquerda apelidado de Garrinchinha. Em Araçatuba, São Paulo, o jogador Amauri Alves dos Santos também foi apelidado de Garrincha.  

Na crônica  

Em Teresina, no Piauí, o notável cronista esportivo e escritor, Deusdeth Nunes, cambota e parecido com o Mané, recebeu o apelido de Garrincha. Deusdeth escreveu vários livros sobre o futebol piauiense. Suas crônicas no jornal O Dia alcançaram grande repercussão. Seu bom humor rendeu livros e contos. Notável profissional.  

Felicidade  

Na época de Garrincha e de Fiori Gigliotti, o mundo vivia melhor. Não havia a violência, o ódio e o medo, que hoje estão em toda parte. O vitorioso futebol-arte ganhava títulos pelo mundo. E Fiori, que em italiano significa flores, ornamentava a sua narração com a beleza das conquistas. Foi a época do futebol que me fez sonhar.