Para ler na noite de Natal

Mãos tocando uma caixa de presente vermelha, com luzes de Natal ao fundo
Legenda: O que chamamos de vida é uma caixa vermelha com uma coleção de dias que recebemos ao nascer
Foto: Shutterstock

Chegamos vivos ao fim do ano e poder respirar fundo já é motivo de agradecimento, quase como se fôssemos sobreviventes de uma guerra. Por força e por sorte, estamos aqui, podemos abrir os olhos e ver as pessoas, as coisas, o céu e o mar, seguir com nossas horas de luta e mistério, trabalho e recompensa, prazer e alívio.

Não tem como entoar uma cantiga de vitória e otimismo ainda, não é isso que pretendo fazer nesta crônica. Quero falar do que é viver, do jeito que tenho entendido até aqui. Algumas coisas só os anos ensinam e talvez, para mim, a mais importante tenha sido a compreensão de que viver é dividir o destino em partes.

O que chamamos de vida é uma caixa vermelha com uma coleção de dias que recebemos ao nascer. A gente acorda, segura um dos dias nas mãos e executa o melhor plano possível, até o próximo sol. Nem sempre dá certo, alguns dias são péssimos. Ninguém disse que era pra ser perfeito.

Aprendi com um autor que eu adoro, Gabriel García Márquez, que todos os dias de manhã é preciso olhar para si mesmo nos olhos do espelho, lavar o rosto e repetir seu nome, a data, mês e ano, dia da semana. Estar ali, presente, diante do desafio e oportunidade de fazer acontecer a existência.

Também aprendi que as grandes coisas são feitas aos poucos, pequenas partes por vez. Escrever um livro, construir uma casa, criar um filho, viver um grande amor, nada disso acontece de um estrondo. As melhores coisas são lentas, silenciosas, espalhadas pelo tempo.

Os filhos se criam a cada ida à escola, lanche na mesa, cada música que se canta junto, o beijo de boa noite, o corte de cabelo, a briga, a paz, o dente que cai, assim a vida se fortalece naquela pessoa que é nossa, tão nossa de um jeito que ninguém mais será.

Um grande amor também cresce assim, no cuidado das pequenas coisas, nos gestos inesperados de carinho, o beijo, o corpo no corpo, o bilhetinho surpresa, na conversa sobre coisas tolas ou sobre planos importantes.

Um grande amor existe quando se divide a vida querendo fazer o tempo do outro melhor. Poder olhar o rosto do outro e dizer: esse sorriso foi por minha causa e é só meu. Um sorriso por dia, no mínimo, como se fosse prescrição médica, deveria ser a lei de todos os casais.

Nessa toada de dormir e acordar, amanhecer e anoitecer, os anos passam e a gente celebra nas festas de lembrar. O Natal é o gesto de confirmar que seguimos, continuamos, estamos imersos na vida. E dessa vez, depois de dar a adeus a tantas pessoas que ficaram no caminho, depois de sofrer e sangrar o coração por dois anos insanos e desesperadores, parece que nada ficou no mesmo lugar, para o bem e para o mal, mas nós estamos aqui.

Não vamos cantar a cantiga ingênua da salvação, pois já entendemos que a vida não é brincadeira, mas nela também cabe o tempo de brincar. Na noite de Natal cada um vai fazer do seu jeito, mas seria bonito pensar, também, no jeito do outro. Estamos todos sofrendo, camaradas, sejamos humanos. Cada um tem sua forma de sentir e acreditar nas coisas, a vida fica mais fácil quando se respeita e se cala a palavra que vai ferir. Riscar o fósforo da intriga, faça não. Vale mais contar uma piada, camarada, todo mundo está cansado demais.

É Natal e estamos vivos, pois vamos amanhecer dizendo o nosso nome, o dia, o mês, o ano e em seguida, olhando nos olhos do espelho, vamos selar uma promessa, jurar, garantir, que será um dia feliz. E que vamos fazer alguém feliz também. Se isso se cumprir, vai ser bonito.

Há muita luta à nossa espera no ano que vem. Pequenas e grandes batalhas para enfrentar. Por hoje, só por hoje, vamos inventar uma ideia qualquer de beleza de presente para alguém. Você faz daí, eu faço daqui.

As pessoas que foram embora, se pudessem falar, nos pediriam um abraço a mais, um beijo, uma risada. A última música. Quem está aqui, todos nós, só queremos a mesma coisa. A gente só quer amar e ser amado, vamos firme nessa ideia porque é a única garantia da vida. O resto é só um sopro.

Por força e por sorte, estamos vivos. Vamos traçar o melhor plano, fazer valer essa chance, arrumar as coisas que precisam mudar. Ninguém disse que a vida é perfeita, mas pode ser bonita. Amor e coragem. Feliz Natal, mais uma vez, para que o ano que vem seja melhor.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.