A fotografia que nunca terei

Legenda: Eu nunca terei a foto que reúne Maria, Manuel e Socorro. Faltará sempre. Mas sobra em mim o desejo de que minha vida honre a deles
Foto: Sarah_Leanne/ Shutterstock

O escritor Marcelino Freire dedica grande parte do seu tempo a dar aulas sobre literatura e escrita. Seus métodos são muito práticos, baseados na vivência de leitor, desde criança. Nascido em Sertânia, no interior de Pernambuco, sempre foi tratado como um menino diferente na família. Pela saúde frágil, pela vontade de ler no quarto, em silêncio, o oposto dos outros da sua idade, fortes e resistentes ao sol quente e ao trabalho pesado.

A estranheza virou qualidade quando ele passou a ser o leitor e escritor das cartas da família. Sentado à mesa com sua mãe, ela ditava o que deveria ser relatado aos parentes que moravam longe. Quem ficou doente, quem ficou curado, os casamentos, nascimentos, mortes e toda sorte de acontecimentos que mereciam destaque na crônica familiar.

Ela dizia do seu jeito, ele transformava o texto. Imprimia beleza nas palavras, no ritmo dos versos. Transformava a prosa da vida em literatura, essa que ele já conhecia dos livros e dos espelhos dentro da alma.

Na sua aula da semana passada ele indicou um poema de Carlos Drummond de Andrade, “Retratos de família”, a análise bela e comovente de uma imagem e de tudo que não está lá. São assim todas as fotos que guardam o passado. Os mortos, os lugares, as coisas perdidas, o que não está dito:

“Este retrato de família /está um tanto empoeirado. / Já não se vê no rosto do pai/ quanto dinheiro ele ganhou./ Nas mãos dos tios não se percebem/ as viagens que ambos fizeram./ A avó ficou lisa e amarela,/ sem memórias da monarquia.”

Marcelino nos pediu que lêssemos o poema inteiro, com atenção. E que escolhêssemos uma fotografia de nossas famílias para fazer o mesmo exercício, na mesma estrutura. Para escrever o que não está ali, o que a imagem não conseguiu captar.

A única coisa que consegui pensar foi na foto que não tenho e que nunca poderei ter. Eu, meu pai e minha mãe. Não só porque os dois estão mortos, mas porque suas vidas foram ceifadas pela tristeza. Ele morreu quando eu tinha três anos de idade. Era alegre, generoso, charmoso, engraçado, queria ser jornalista, mas decidiu vestir um paletó e abreviar sua passagem pela terra em um gesto definitivo. Não lembro dele, mas guardo uma foto sua sorrindo, um homem bonito, de quem herdei o desenho da boca e o gosto pela escrita.

Ela foi paciente psiquiátrica grave e o médico me explicou, perto de sua morte, que um dos sintomas de sua doença era a incapacidade de sentir amor. Eu já sabia disso, pois ela dizia que eu não deveria ter nascido, que tentou interromper, mas eu não morri. Minha primeira desobediência foi sobreviver. Um dia ela disse adeus, morreu dormindo. Uma vez, enquanto eu chorava por isso, meu amigo Alexandre Vidal Porto me disse a frase que me salvou: você é a parte viva dos dois. É a humanidade deles.

Eu nunca terei a foto que reúne Maria, Manuel e Socorro. Faltará sempre. Mas sobra em mim o desejo de que minha vida honre a deles. E que todas as fotografias que tenho, os sorrisos das minhas filhas, meus itinerários pelo mundo, sejam a prova de que fiz um pacto indestrutível com a alegria de estar viva, minha primeira desobediência. Minha insistência. Eu insisto em ser feliz, teimo, transgrido, não abro mão.

Não é fácil ser feliz guardando no cofre do peito uma dor grande, mas é possível nos passos da Verdade e do Amor. “Da magia da verdade inteira, todo poderoso amor”. Um dia eu reescreverei o poema de Drummond. Para o Marcelino Freire ler em voz alta, para virar música, porque toda dor precisa virar uma coisa bela. E voar.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.