O caso Lázaro mostrou ao Brasil que a fofoca pode ter caráter social

Fala da vida alheia é prática antiga e cheia de malefícios, com raríssimas exceções

Desde que o mundo é mundo que a fofoca existe. Vem do tempo das cavernas! Teve um papel fundamental na organização e proteção dos grupos humanos, sabia?

Nos tempos pré-históricos, os homens buscavam saber informações da vida de outros grupos para se agregarem ou protegerem-se.  

Yuval Harari, professor israelense de História e autor do best-seller internacional “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, considera que a linguagem evoluiu como uma forma de fofoca e que ela teria feito toda a diferença nos sistemas de cooperação social de grupos humanos primitivos, algo fundamental na sobrevivência e reprodução da nossa espécie.  

A fofoca, substantivo feminino que consiste em descobrir uma informação e, imediatamente, repassar para várias pessoas, especialmente, quando os alvos não estão presentes, gera uma emoção tão forte no informante que a notícia fica entalada, saindo em ritmo 2 do WhatsApp, sem filtros!

O pior é que, muitas vezes, a pessoa que está nesse nível de ansiedade para contar a fofoca coloca o ouvinte em situação delicada e, para não se comprometer, pede sigilo quase sempre acompanhado de um “pelo amor de Deus” para que a “notícia” não corra os quatro cantos do mundo.

A boa fofoca

Render história alheia, algumas vezes, mentirosa, não leva ninguém a lugar algum e nem acrescenta em nada na vida. Porém, se o ouvinte da fofoca for perspicaz, vai saber mesmo é quem não merece dar credibilidade como amigo na conversa. Além disso, não dar garfes por aí, é um lado positivo da fofoca.

Tenho que confessar, aqui, que já fui seduzida por uma boa fofoca. Tinha um professor no cursinho chamado Galileu que só dava aulas de literatura contando as fofocas de cada livro ou da vida do autor. As aulas ficavam mais interessantes, divertidas e eu viajava nos contos! Ora, adoro uma boa história! Essa fofoca, não esquecia.

Uma delas foi sobre "Dom Casmurro", de Machado de Assis, que rende assunto até hoje sobre a conduta de Capitu - sempre narrada pelos olhos de Bentinho. Tudo é uma questão de ponto de vista e do ponto que se vê.

"Entregona"

Se, por um lado, a fofoca é detestável, ela, também, pode ser necessária. Tem um caráter social, quer ver? Vou trazer um exemplo superatual: lembra da Dona Pichula, vizinha da sogra do Lázaro, que aterrorizou Goiás?

Dona Pichula foi considerada uma fofoqueira raiz, após dar uma entrevista para TV, tão ofegante e ansiosa que falava como se estivesse acelerada, denunciou onde o assassino estava escondido e sua rotina há quase um mês. Bastou a corajosa “entregona” soltar a língua para resgatar a manutenção da ordem social tão difundida pelos jornais de todo País.

Porém, como uma boa mexeriqueira, soltou essa pérola sobre a sua atitude em dar conta da vida alheia: “Depende, viu...Se eu fosse falar tudo que sei, minha irmã, dava uma história, uma série”.

Mesmo sabendo do caráter social da fofoca, que tem a sua importância, o que não sai mesmo da minha cabeça são os filtros de Sócrates que nos deixou um pensamento superválido e que deve prevalecer a cada história ouvida: a verdade, a bondade e a utilidade.

Ou seja, antes de dizer alguma coisa, faça essas perguntas para você mesma:

Tenho certeza de que o que vou dizer é verdade?

O que eu vou dizer trará algum bem?

É necessário dizer isso?

Vale aqui o alerta para não acreditar nas fofocas mais atuais, que são as mensagens que recebemos por mídia e aquelas que olhamos nas redes sociais. Não compartilhe sem antes adotar os filtros de Sócrates, como, também, conferir sua veracidade!

Filtrando, questionando, avaliando os lados da situação é que conseguimos criar uma melhor construção de uma realidade para vivermos nesse mundo tão cheio de novidades.

Por fim, dedico esse “Dominguemos” à minha amiga Manu Feitosa, que foi com ela com quem troquei esse assunto sobre a fofoca, mas sem falar da vida alheia e sem saber que, no começo da semana, apareceria a Dona Pichula e mostraria ao Brasil que os filtros de Sócrates eram verdadeiros, seriam bons para a sociedade e eram necessários, quando trouxe a fofoca em caráter social.

Dominguemos, amém!  



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