Tenho me saído muito bem

Mulher em campo de girassois
Legenda: Sempre é hora de viver
Foto: Pexels

Acredito que tenho me saído bem. Não sei se tenho me saído bem mesmo, mas estou me convencendo de que sim, tenho repetido isso muitas vezes, sem esforço (já que estou no processo de entender que isso é uma realidade).

Tudo começa quando nós, humanos, precisamos fazer tudo antes dos 30. “Rapaz passa em 10 faculdades com 18 anos”. “Uauu! 18 anos. Super novo e já passou”. Que bom sair dessa fase de achar que não sou uma derrotada por ter estado ainda no primeiro ano da primeira faculdade que fiz quando tinha 18 anos (que depois eu desisti porque não era o que eu queria).

E para as mulheres a coisa se torna ainda mais puxada: trinta anos e não casou? Está abrindo um novo negócio agora? Sem filhos? Sem namorado? Sem ninguém? 

Você que está “sozinha” nesse mar depois dos trinta: doeria tanto estar assim se não houvesse essa pressa da vida “feita” depois dos 30?

Tanta cobrança, tanta pressa. E eu, que vim do futuro, pois tenho 34, tenho uma notícia para dar: nunca será suficiente. Nos formaremos, talvez sonharemos com a família, talvez realizemos o mais rápido possível e sempre olharemos para nossa realidade em um dia mais difícil e pensaremos “hoje fiz o que deu”, “hoje fiz o que pude”. 

E essa será nossa alegra mais genuína. O sonho da eterna felicidade do curso aos 18 e do casamento de margarina vem carregado de dias incríveis, mas de outros que você vai dormir e pensar: fiz o que deu em mais um dia, tenho me saído bem diante do que escolhi, do que chegou para mim.

Entende como tudo que era tão grande e tão apressado vira um montante de coisas pequenas diárias que às vezes passam mais lentas e outras mais rápidas? 

E é por isso que as pessoas, mesmo aos 50, 60 ou 70, entendem que sempre é hora de viver e estão por muitas vezes, recomeçando algo. Usando um vestido de noiva mesmo que ele pareça pertencer aos vinte e poucos, entrando na sala da faculdade mais uma vez. Parece terem entendido que realização, de fato, tem a ver com um “tenho me saído muito bem”, dia após outro, diante do que nos aparece nessa vida.

“Viver é um descuido prosseguido. Mas quem é que sabe como? Viver... O senhor já sabe: viver é etcétera...”
Guimarães Rosa

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.