As perguntas que constroem a convivência

Legenda: As lembranças dessas horas do dia sem aparente relevância não são iguais umas das outras
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- Qual é o canal?

Perguintei pra mamãe. Eu tava no banheiro dela, aqui em Fortaleza, faltando dois dias pra ir embora. Ela tava vendo TV no quarto, zapeando um monte de canal e comentando sobre eles coisas aleatórias. “Tu conhece essa apresentadora?” Foi aí que eu perguntei: “Não. Passa onde? Qual é o canal?”.

Eu sempre sinto saudade dessas coisas que eu vivia aqui. Eu confesso que é muito difícil, às vezes, ficar sozinha em Recife, com uma bebê é mais desafiador ainda, já que passei tantos anos morando com minha mãe. Tem coisas, pequenas coisas do ordinário, do trivial, do comum, do dia a dia que sinto uma falta que me aperta o coração. 

Sinceramente lembro vagamente dos presentes de Natal, das grandes festas, mas me lembro muito de perguntar se ela não vem comer comigo na mesa, se tem sal, se tem 2 reais trocado, se viu uma blusa minha, se tem acetona, qual é o canal. 

Cada dia me convenço mais que é isso que fica. Não sei como, é estranho. Vivemos tantas coisas que pra mim foram tão incríveis, mas é isso que me aperta o peito. 

Me peguei questionando porque algo tão pequeno mexeu tanto comigo. Deve ser porque é do que é feito o dia, do que é formado o ano, do que é construído a convivência. E deve ser por isso que há 3 anos me mudei e há 3 anos choro quando vou embora como se fosse a primeira vez. 

Com ela e nem com ninguém, as lembranças dessas horas do dia sem aparente relevância, são iguais umas das outras. 

E, embora construindo de outra maneira outras perguntas, com outras pessoas, tenho saudade de viver com ela esses diálogos sobre coisas aleatórias e ouvir ela responder, afinal, qual era o canal. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.