Aeris começa a reativar linhas de produção no Ceará, mas situação financeira segue preocupante
Com dívida superior a R$ 1 bilhão, fabricante de pás eólicas conseguiu adiar execução de créditos.
Com prejuízo milionário diante da crise no setor de energia eólica, a fabricante de pás eólicas cearense Aeris vislumbra o início de uma recuperação. A empresa está reativando quatro linhas de produção em sua fábrica em Caucaia.
A Aeris encerrou o primeiro semestre de 2026 com apenas duas linhas de produção ativas, ambas maduras (instaladas há mais de doze meses). A partir de julho, começou a reativação de outras quatro linhas.
A empresa não informou quantos empregos devem ser criados com a recomposição. A retomada das linhas e a preparação da companhia para atender contratos já firmados exigiram investimento de R$ 23,9 milhões — o maior montante desde o fim de 2024
O incremento da produção na fábrica, localizada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), ainda é tímido diante da capacidade da empresa.
A título de comparação, a empresa encerrou 2022 com 17 linhas de produção ativas, sendo 10 maduras e sete não maduras. A redução começou em 2023 e, no fim de 2025, a operação abrangia duas linhas.
Nos seis primeiros meses deste ano, a indústria cearense entregou apenas 147 megawatts em pás eólicas. Caso o desempenho permaneça o mesmo, será o terceiro ano consecutivo de recorde negativo nas entregas da empresa.
Segundo a Aeris, a reativação gradual está alinhada à demanda contratada. A cearense mantém aproximadamente 2,0 GW de pipeline comercial para o período de 2026 e 2027, além de contar com cerca de 0,5 GW em negociações em andamento.
A reativação gradual das operações é um sinal encorajador, pois indica capacidade produtiva real e não apenas uma reorganização no papel, avalia o presidente do Sindienergia, Luiz Carlos Queiroz.
"A retomada da Aeris interessa não só à empresa, mas a toda a cadeia produtiva de energia eólica do Ceará, construída ao longo de anos não apenas pelas fabricantes de pás, mas por um ecossistema amplo de fornecedores, prestadores de serviço e mão de obra especializada", aponta.
O setor da indústria renovável, que abrange principalmente fabricantes de pás e turbinas eólicas, enfrenta um declínio severo desde meados de 2023. Os cortes de geração e a instabilidade no setor elétrico praticamente eliminaram os investimentos em novas usinas, reduzindo a produção das indústrias.
SITUAÇÃO FINANCEIRA SEGUE PREOCUPANTE
A tentativa de recuperação da Aeris também perpassa pela renegociação de dívidas. A empresa conseguiu, na última semana, medida cautelar para suspender a execução de dívidas por 60 dias. Segundo fato relevante, a medida preserva as condições para continuidade das negociações com credores.
A empresa fechou o primeiro semestre com dívida de R$ 1,93 bilhão. Cerca de 90% do endividamento da empresa foi reestruturado em 2025, com alongamento dos prazos de vencimento e redução da pressão de curto prazo.
A necessidade de recorrer pela segunda vez a uma cautelar para adiar a execução de dívidas mostra que a situação financeira da companhia segue preocupante, segundo o advogado tributário e contador, Jessé Fonteles.
"Quando uma empresa recém-saída de uma renegociação de 90% do passivo precisa voltar à mesa em menos de um ano e meio, isso costuma indicar que o problema não era apenas de prazo ou de taxa, mas de capacidade estrutural de geração de caixa frente ao volume de dívida contraída", avalia.
O especialista aponta que a cautelar é um instrumento prévio à recuperação judicial. Caso os credores aceitem as condições propostas, como repactuação de prazos e conversão de débitos em participação societária, a empresa pode formalizar um acordo extrajudicial.
Se as tratativas não avançarem dentro da janela de 60 dias, porém, o pedido de recuperação judicial passa a ser o caminho natural seguinte, por garantir proteção patrimonial mais ampla e por prazo mais longo.
O prejuízo líquido da empresa totalizou R$ 290 milhões no primeiro semestre. O rombo no segundo trimestre foi de R$ 152 milhões, com alta de 10,2% em relação ao primeiro trimestre e redução de 4,8% frente ao mesmo período do ano passado.
O último balanço aos investidores destaca, entretanto, avanços operacionais, que se refletem no crescimento da receita, recuperação da margem bruta e manutenção da gestão de custos.
AERIS TEM PAPEL RELEVANTE NO ARRANJO INDUSTRIAL DO PECÉM
Além da retomada de contratos e da confiança do mercado, a recuperação da Aeris demanda a preservação dos empregos e da força técnica qualificada, destaca Queiroz.
O presidente do Sindienergia afirma que a transparência e a comunicação de cada etapa do processo de reestruturação são fundamentais para sustentar os novos contratos.
A Aeris não é apenas mais uma empresa em dificuldade, mas sim uma peça relevante no arranjo industrial construído no Pecém em torno das energias renováveis, avalia Fonteles.
"Uma eventual escalada da crise financeira, caso a mediação atual não avance, tende a repetir e aprofundar esse efeito cascata sobre o emprego e a renda na Região Metropolitana de Fortaleza. Há também uma dimensão de reputação para o ambiente de negócios cearense", comenta.
A Aeris demitiu mais de 5 mil funcionários ao longo da crise no setor, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do Ceará (Sindmetal-CE). Um grande layoff, de mais de 1.500 funcionários, ocorreu em maio de 2024, após rompimento de contrato com a companhia europeia Siemens Gamesa.
A preservação da operação é uma tentativa, segundo o especialista, de conter o efeito e sinalizar ao mercado que a crise não está em estágio de descontinuidade. O desfecho dos próximos dias deve ser acompanhado de perto pelo setor.