Pouco açúcar, sem afeto: o politicamente correto e a MPB

Após declaração do compositor Chico Buarque para série, o teor machista no eu lírico das canções voltou a ser centro de muitas questões e críticas

Chico Buarque Capa de álbum
Legenda: Depoimento de Chico Buarque gerou polémica na mídia e chegou a ser até interpretado erroneamente
Foto: Reprodução

Para a série “O Canto Livre de Nara Leão” produzida pela Globoplay, o compositor Chico Buarque, um dos mais importantes nomes da Música Popular Brasileira, afirmou que não cabe mais cantar em show a canção “Com Açúcar, com afeto”, já que a letra reproduz uma ideia da mulher no lugar de submissão ao marido.

Claro, ela foi escrita em 1967 a pedido da “Musa da Bossa Nova” e a temática também foi pensada pela cantora. Porém, mesmo sabendo que uma obra carrega o peso de um determinado tempo e a sociedade no qual pertence, certas letras devem ser revistas e analisadas com cautela.

A verdade é que nossa tão amada MPB, mesmo sendo vista como um conteúdo sofisticado e de formação intelectual, caminhou em uma linha tênue e muitas vezes foi contra o que chamamos hoje de "politicamente correto” e consequentemente colecionou polêmicas.

O papel da mulher, por exemplo, desde os primórdios da canção popular, é visto com o ar de dependência ao mundo masculino. O que hoje é inaceitável, nos anos 1950 ou até antes, era algo comum como um reflexo de um país ainda mais segregador, misógino e machista. Mesmo que involuntário, é importante quebrar essa corrente e pedir a redenção que Chico Buarque fez questão de assumir.

Amélia que era mulher?

Folclores a parte, uma das músicas que mais resistem na memória do povo brasileiro é o samba “Ai, que saudade da Amélia” de Mário Lago e Ataulfo Alves. A composição de 1942 traduz o imperialismo autoritário diante da imagem do que seria o ideal feminino: a mulher sem vaidade e que achava bonito passar fome desde que  tivesse com marido do lado.

No decorrer dos anos, a letra recebeu uma série de respostas, dentre elas “Amélia de você” de Elena e Eliane de Grammont, “Desconstruindo Amélia” lançado pela Pitty e até a forte “Não Precisa ser Amélia” de Bia Ferreira. A consciência do sexismo felizmente veio a tempo, mas outras precisam ser analisadas.

Mesmo fã de carteirinha do grande Dorival Caymmi, é impossível não escrever sobre sua “Marina” que insistiu em usar maquiagem e fez o amado se irritar. “Eu já desculpei tanta coisa, você não arranjava outro igual. Desculpe, Marina morena, mas eu estou de mal” e assim encerra a música com uma chantagem prepotente do eu-lírico machista. 

Ainda nesse período, aliás, antes de tais músicas, o poeta da Vila Isabel, Noel Rosa, escreveu o seguinte verso: mas que mulher indigesta, merece um tijolo na testa! O que hoje seria um escândalo, no ano de 1932 foi sambinha cair na boca do povo, o que muito nos faz ver o quão as produções artísticas espelham uma determinada cultura.

Os anos passaram mas certas coisas nunca mudam. Na década de 1970 o querido Sidney Magal, mesclando uma identidade brega com cigana, lança o hit “Se te agarro com outro, te mato”. A letra de ritmo quente nada mais se tratava de uma explícita ameaça de um ciumento de plantão que prometia ir às vias de fato se encontrasse a amada com outro.

Politicamente Correto

“Capitu traiu ou não Bentinho?” Essa pergunta reina dentro dos leitores da clássica obra do escritor Machado de Assis. Do mesmo jeito que julgamos a personagem da obra enlouquecido pela insegurança e ciúmes, não podemos condenar Chico Buarque de Hollanda por sua delicada “Com açúcar, com afeto”.

É importante diferenciar o autor do eu lírico da canção, e o irmão de Miúcha por muitas vezes adentrou em mais variados personagens para compor, a maioria deles, muito longe de sua realidade. A prova disso é o próprio “Com açúcar, com afeto” que surgiu de uma ideia da própria Nara Leão que assim como Chico, sempre esteve à frente do seu tempo e exigiu ter voz ativa.

Provavelmente, com o advento da internet, nomes que vão de Vinícius de Moraes à Seu Jorge teriam seus sucessos colocados em cheque pelo público militante. Isso também deve ser visto com ponderações quanto a licença poética no qual a música foi idealizada, passível de excessos.  

Agora não podemos esquecer que a arte como um produto cultural não pode ser vista alheia a ideologia, e não como uma fonte meramente de entretenimento. Música é manifestação e identidade! Reproduzir sons que perpetuem como natural e até como engraçado o machismo, é ser conivente não com o politicamente correto, mas por um mundo segregador e torturante.

Marchinhas de carnaval, bregas prepotentes, sertanejos ostentação, funks audaciosos…O autoritarismo, das suas mais diversas formas, apesar de ainda ser presente não pode mais ter aceitação como algo banal, inclusive quando este vem implícito em ritmos agradáveis e hits da moda. Se colocar como público crítico e consciente é necessário para exigirmos uma arte de qualidade. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.