Com alma de nômade, meu lugar é estar sempre em movimento

carrinho em miniatura com malas em cima e fundo de praia
Legenda: A vocação estradeira acabou-me por suplantar o espírito de asceta de pés fincados na terra
Foto: Nubia Navarro/Pexels

Há cerca de vinte anos, acalentava um único projeto de vida: adquirir um pequeno pedaço de chão em um cume qualquer e perdido da serra de Guaramiranga. Enfunar-me para sempre no meio do verde — e do nada.

Virar eremita, esquecer o mundo, para que o mundo se esquecesse de mim. Como cantava o velho Gonzaga, dormir ao som do chocalho e acordar com a passarada. Viver sem rádio e sem notícia das terras civilizadas.

Como na outra canção, aquela de Zé Rodrix eternizada na voz de Elis, queria carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim. Colher, com a mão, a pimenta e o sal. Queria uma casa no campo, do tamanho ideal, pau a pique e sapê. Onde pudesse plantar meus discos e livros — e nada mais.

O anseio de converter-me em ermitão, bicho-humano do mato, tinha sido inspirado pela leitura juvenil de “Walden”. Assim como ocorria a Henry David Thoreau, parecia soprar-me nos ouvidos o chamado irresistível e selvagem, que lançava o convite a escapar de tudo: “Eu preferia me sentar ao ar livre, pois a relva não junta pó, a não ser onde o homem desmatou o chão”.

Aquele anacoreta em potencial, que me habitava as entranhas e me embalava os devaneios de juventude, convivia a um só tempo com o aspirante a andarilho, um suburbano mochileiro das galáxias, alguém tal qual um Jack Kerouac da caatinga que sempre amou estradas compridas e léguas tiranas.

Isso, quem sabe, por herança genética recebida de meu pai, homem em permanente deriva, caixeiro-viajante que preferia se apresentar aos clientes dos cafundós do sertão — a quem vendia de frigideira a cibalena, de creme dental a camisa de poliéster — com o título mais pomposo de “representante comercial”.

A vocação estradeira acabou-me por suplantar o espírito de asceta de pés fincados na terra.

Dia desses, sublinhei na edição portuguesa de “Viagens”, de Olga Tokarczuk, um trecho que eu poderia ter escrito e assinado embaixo, possuísse a mesma competência de síntese e exatidão: “Não sou capaz de germinar, fui desprovido dessa capacidade vegetal. Não absorvo as seivas da terra, sou o oposto de Anteu. A minha energia provém do movimento”.

Fortaleza, Salvador, São Paulo, Porto. Não se trata apenas de nomadismo físico, mas também existencial. Penso nisso diante da montanha de livros encaixotados para mais uma mudança de apartamento — o terceiro desde que estou em Portugal, o décimo primeiro em vinte anos de casamento —, justamente no momento em que esboço os preparativos para a escrita de um próximo livro.

A alma cigana e peregrina, o atavismo cristão-novo e retirante, parece ecoar a voz de outro Gonzaga, o Gonzaguinha, filho do Gonzagão. Vontade de chegar, e olha eu chegando. E vem essa cigarra no meu peito já querendo ir cantar noutro lugar.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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