Escolas públicas do CE inspiram jovens e transformam o futuro pela ciência
Educação e ciência devem ser estimuladas e melhor financiadas.
Pensar em ciência significa pensar em construção. Não de muros, mas de pontes. É por meio desses elos que pode-se conectar a academia, que elabora saberes científicos, à comunidade, que produz saberes populares: ambos válidos em suas singularidades. No entanto, a maioria da população ainda acredita que o conhecimento científico só pode ser produzido em universidades e grandes centros de pesquisa, o que não condiz totalmente com a realidade.
A ciência se constrói com indagações, perguntas e curiosidade, sendo lapidada por um método que lhe confere rigor e busca respostas para as incertezas do mundo à nossa volta. Essas soluções, com a orientação adequada, podem ser encontradas ainda na educação básica, no “solo” das escolas públicas.
O Ceará tem se mostrado pioneiro nessas iniciativas por intermédio da Secretaria Estadual da Educação (Seduc), com programas como o Ceará Científico, o Ceará Faz Ciência e a Feira do Conhecimento.
No Ceará Científico, por exemplo, alunos do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio são incentivados a desenvolver pesquisas nas mais diversas áreas do conhecimento. O programa divide-se em três fases: escolar, regional e estadual. Nestas etapas, os estudantes apresentam os trabalhos idealizados e criados no chão da escola, sempre acompanhados por um professor-orientador.
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Os jovens são treinados a observar problemas do seu cotidiano e a criar soluções por meio do pensamento científico. Assim, ao longo do ano letivo, os educandos desenvolvem seus estudos e adquirem competências essenciais para a vida acadêmica e social, como raciocínio lógico, metodologia de pesquisa e oratória.
O aspecto mais bonito dessa abordagem é que ela vai além dos muros da sala de aula, viabilizando o que Paulo Freire chamava de educação como prática de liberdade. É um modelo que estimula o pensamento crítico para além dos livros didáticos, permitindo que educador e educando teçam, juntos, novos horizontes para o processo de ensino-aprendizagem.
Exemplo disso é o PRODUTEC, da Escola de Ensino Médio Abraão Baquit, em Cipó dos Anjos, em Quixadá. Desde 2023, o grupo promove investigações utilizando a carnaúba como objeto central. Nos últimos anos, criaram uma linha de pesquisa que já abordou as relações étnico-raciais no extrativismo, a autonomia feminina nesse setor e, no ano de 2025, a carnaúba como fonte de sustentabilidade frente às mudanças climáticas.
Coordenada pelo professor Daniel Coelho e desenvolvida pelos alunos John Vitor e Karla Sabrina, a iniciativa demonstra como a ciência aplicada desde a educação básica pode impactar positivamente a comunidade. O trabalho foi destaque na fase estadual do Ceará Científico, reforçando o compromisso com a luta ambiental.
Falar da ciência produzida na educação básica, no solo da escola pública cearense e no âmbito do Ceará Científico é algo muito especial para mim. Como pesquisador e como indivíduo, foi nesse cenário que iniciei minha jornada na pesquisa e onde as primeiras portas se abriram para mim.
Defendo e apoio tais iniciativas, pois elas permitem que os educandos, desde cedo, envolvam-se com a produção do conhecimento e desenvolvam habilidades essenciais tanto para a vida acadêmica quanto para o convívio em comunidade.
Acima de tudo, fazer ciência na escola pública permite descobrir novos horizontes e idealizar sonhos que antes pareciam inalcançáveis.
Entretanto, para que essa transformação ocorra, são necessárias oportunidades. É imperativo que cobremos, daqueles que ocupam espaços de decisão, uma maior valorização da educação pública e da ciência, traduzida em incentivos e financiamento adequado. Elas são ferramentas que transformam vidas, constroem pontes e realizam os sonhos de gerações inteiras.
A educação, quando liberta e estimula o pensamento crítico, faz brotar o verde onde antes havia apenas o chão rachado da seca: as oportunidades são a chuva que permite a esse solo florescer.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.