Vender para a Europa ou produzir com os europeus?
Dois executivos, especialistas em Economia do Mar, expõem o que, na área da exploração dos pescados, está à espera do empresariado cearense
De autoria de dois especialistas em economia do mar, João Eduardo de Villemor Amaral Ayres, CEO, e Rebecca Alonso Nascimento, Head of Compliance, Legal and Governance da Sustainable Ventures Brasil/Portugal, o texto abaixo desvenda, digamos assim, os objetivos da recente viagem que fez à Península Ibérica (Portugal e Espanha), o presidente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), Ricardo Cavalcante.
Os dois autores têm, por dever profissional e por profundo conhecimento do assunto, estreita e direta relação com o líder da indústria cearense, que, há algum tempo, tem dedicado esforço pessoal no sentido de não apenas abrir novos mercados para os produtos marinhos cearenses, mas para oferecer aos seus industriais o conhecimento das novas tecnologias, incluindo as ligadas à chamada Economia Azul, ou Economia do Mar.
O que abaixo está escrito, pela sua oportunidade e circunstância, é leitura obrigatória para o empresariado da indústria e do agro do Ceará. Eis o texto:
“Nos quatro primeiros meses deste ano, o Ceará embarcou US$ 28,73 milhões em lagosta, camarão e peixes – número que mantém o estado na liderança nacional das exportações de pescado. Então, surge a curiosidade: o que a indústria cearense, por meio da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), na pessoa de seu presidente, sr. Ricardo Cavalcante, foi fazer nem Portugal e na Espanha neste mês de julho? Vender mais? São duas perguntas fora de contexto. A pergunta correta é a seguinte e bem mais interessante: o que acontece com esse pescado depois que ele desembarca do outro lado do Atlântico – e por que tanto do valor que ele gera fica lá?
“O calendário ajuda a explicar a urgência. Enquanto barreiras tarifárias voltam a erguer-se em outras rotas, a aproximação entre o Mercosul e a União Europeia abre um corredor comercial de mais de 700 milhões de consumidores, e um corredor exigente, que cobra produto rastreável, certificado e com credenciais ambientais em ordem. Foi para dentro desse mercado, e das instituições que o organizam, que a indústria cearense levou sua agenda neste julho, passando por Lisboa, Porto e Vigo.
“A indústria cearense do pescado não é jovem nem improvisada: tem plantas de beneficiamento, tradição exportadora e mercado conquistado. Mas há uma diferença entre crescer e subir. Crescer é embarcar mais. Subir é embarcar melhor – diversificar para além da lagosta, ampliar o processamento, fazer com que o valor seja agregado antes do embarque, e não depois. É a fronteira que o próprio setor vem apontando há anos, e ela exige menos rede e mais engenharia.
“A escolha dos destinos, aliás, não é casual. Portugal transformou o mar em política de Estado. A economia do mar já é a terceira maior área econômica do país – atrás apenas de saúde e educação –, responde por cerca de 5% do PIB e das exportações e por volta de 4% do emprego, segundo o próprio governo português, que mira 7% do PIB até 2030. Não por acaso, o país detém uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo, com cerca de 1,7 milhão de quilômetros quadrados de mar sob sua jurisdição, muitas vezes maior do que seu território em terra firme.
“Essa ambição, porém, não se sustenta em retórica: ela está montada sobre uma arquitetura institucional, e é essa arquitetura que interessa ao Ceará. Ela tem, grosso modo, três andares.
“O primeiro é o da ciência, no IPMA, que produz a oceanografia e a modelagem sem as quais ninguém planeja safra nem investe em aquicultura.
“O segundo é o da regulação e da organização de mercado, com a DGRM à frente das políticas de pesca e segurança marítima e a Docapesca estruturando a lota, isto é, o leilão em que o pescado é vendido pela primeira vez, com formação transparente de preço e origem rastreada.
“O terceiro é o da indústria, onde empresas como a ETSA fecham o ciclo transformando o que sobra em novos insumos. Ciência, regulação e indústria conversando entre si: é isso, e não a sorte geográfica, que faz do mar um setor econômico.
Há um quarto andar, e é o que explica por que uma federação de indústrias atravessa o Atlântico para promover essa rede de conversas: o do dinheiro.
“Portugal criou em 2016 o Fundo Azul, mecanismo estatal desenhado para bancar o arranque de atividades ligadas ao mar – justamente aquelas que exigem investimento inicial pesado e demoram a dar retorno –, articulando recurso público, capital de risco e fundos estrangeiros. Foi por esse canal que o país direcionou dezenas de milhões de euros do seu Plano de Recuperação e Resiliência à construção da Rede Hub Azul: polos de inovação instalados em zonas portuárias, com laboratórios, áreas de teste e espaço para prototipagem e escalonamento industrial. O primeiro deles foi inaugurado neste ano em Oeiras, dentro das instalações do próprio IPMA. É dinheiro público usado não para subsidiar a pesca, mas para transformar conhecimento científico em empresa.
“Do outro lado da fronteira, Vigo é um dos principais polos pesqueiros da Europa, sede de gigantes globais do setor. Colocar o Ceará em contato com esse ecossistema abre uma porta que vai muito além da venda: atrai investimento, tecnologia de beneficiamento e parcerias capazes de fazer no Ceará o que a ETSA faz em Lisboa – transformar resíduo em receita e commodity em produto. Esse é o verdadeiro prêmio de uma agenda como essa: não exportar apenas o que se pesca, mas trazer para casa o modelo que transforma o que se pesca.
“Nada disso, porém, se constrói em uma única viagem. Capital estrangeiro não atravessa o oceano atrás de boas intenções: ele responde a projetos formatados, segurança jurídica, contrapartes conhecidas e veículos capazes de receber investimento dos dois lados. Conexões assim exigem relacionamento contínuo e tradução institucional – saber quem decide o quê, sob quais regras, em qual prazo. É esse o trabalho que temos desenvolvido, na Sustainable Ventures, para aproximar o Brasil e a Europa em torno da economia azul, de imersões executivas em Portugal a articulações no Ceará. E é nesse ponto que a intenção da FIEC nos parece certeira: mais do que compradores para o pescado cearense, o que se busca na Península Ibérica são instituições dispostas a co-investir, transferir tecnologia e desenhar, com o Ceará, projetos que nenhum dos dois lados faria sozinho.
“O mar sempre foi, para o cearense, sinônimo de sustento. O que está mudando é a escala da ambição. Se a viagem do presidente da Feic for lida apenas como uma rodada de negócios de pescado, terá cumprido metade do seu papel. Se for o início de uma ponte permanente entre a economia do mar cearense e a europeia – de investimentos, ciência e indústria nas duas direções – terá aberto um ciclo novo. O Ceará já provou que sabe pescar e exportar. A tarefa, agora, é transformar cada peixe, cada casca e cada dado do seu mar em riqueza que fique.”