Projeto S. Francisco: sonho do cearense pode ser frustrado

Há dinheiro neste ano eleitoral, mas em 2027 o desarranjo das contas públicas levará ao corte de despesas

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 06:13)
Legenda: O Projeto S. Francisco de Integração de Bacias avança com o Ramal do Salgado. Mas em 2027, poderá faltar dinheiro para ele.
Foto: Carlos Marlon
Um oferecimento de:

Acaba hoje o primeiro semestre de um ano que, tumultuado na política, promete ser a véspera de outro, o de 2027, muito mais tumultuado na economia. Vamos por partes.

Daqui a pouco mais de 48 horas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará no Sertão Central do Ceará, mais precisamente em Quixeramobim, para inaugurar mais dois lotes da Ferrovia Transnordestina, cujos trilhos, se for cumprido o cronograma da obra, chegarão ao Porto do Pecém no fim do próximo ano (a etapa de construção do trecho desse caminho de ferro que corta o acidentado relevo do Maciço de Baturité é o mais difícil e o que exige maior atenção da engenharia). 

Trata-se do mais importante empreendimento ferroviário privado em execução no país. Não totalmente privado, posto que houve nele substancial injeção de fundos públicos de investimento, como o Finor, o FNE e o FDNE. O importante é que esse projeto ganhou celeridade e os serviços de sua implantação alcançaram a velocidade do frevo, principalmente nos trechos executados e em execução pela cearense Marquise Infraestrutura, que responde por 85% de toda a obra. 

Este é o olhar otimista para um dos sonhos do setor produtivo cearense, que há muitos anos mantém a crescente expectativa de ver unidos o Porto do Pecém, com seu complexo industrial em expansão, aos polos agrícolas e pecuário do Sudeste do Maranhão e do Piauí e do Oeste de Pernambuco, de onde já estão vindo, nos trens da Transnordestina, a soja, o milho e até o calcáreo de que precisam os agropecuaristas do Ceará para o crescimento de sua produção. 

Há outro sonho de quem trabalha e produz aqui, mas este depende 100% do dinheiro público: o Projeto São Francisco de Integração de Bacias, cujo Ramal Norte, que vem para o Ceará, está inoperante há mais de um ano porque não ficou pronto, e nem ficará nos próximos seis meses, o serviço de duplicação da Estação Elevatória de Salgueiro, em Pernambuco, que joga para a barragem do Jati e daí para o açude Castanhão – por canais, rios e riachos – as águas do rio São Francisco.  

Esse bombeamento e essa transferência só devem e só podem ser feitos na época das chuvas, ou seja, quando o leito dos rios está cheio. Será total desperdício fazê-lo nesta época de estio, pois a água se perderá pela infiltração e pela evaporação.   

As novas seis bombas da Estação Elevatória de Salgueiro estão sendo fabricadas na China (olhem os chineses aí, também) e demorarão a chegar ao seu destino, e este é um detalhe técnico. Há, todavia, o detalhe financeiro: neste ano de eleição (ou reeleição) presidencial, há dinheiro para tudo. Mas em 2027, quando será apresentada a conta da irresponsabilidade fiscal de 2025 e 2026, o caixa do governo será fechado para uma necessária e urgente correção de rumos.  

Será quando as contas públicas terão de ser revistas e, obrigatoriamente, substituída a atual política fiscal, que marcha na direção do abismo, ao mesmo tempo em que a monetária tenta evitar esse precipício.  

Outro projeto importantíssimo para o Ceará e os cearenses, máxime para os que labutam nos vários ramos da agricultura e da pecuária, é o Ramal do Salgado, uma obra de engenharia que prossegue em execução para encurtar em 150 quilômetros a viagem das águas do rio São Francisco para o Castanhão. É a derradeira obra do Projeto São Francisco, que prossegue em boa velocidade graças à liberação em dia das verbas pelo ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. O que acontecerá com o Ramal do Salgado em 2027 é a pergunta que se fazem os cearenses, todos de olhos fixados na questão fiscal do próximo ano.  

O Palácio do Planalto e todo o governo estão inteiramente voltados para a reeleição do presidente Lula, e o esforço neste sentido já ultrapassou a marca dos R$ 120 bilhões, dos quais R$ 30 bilhões para o financiamento de carros elétricos ou híbridos, de valor até R$ 150 mil, para motoristas de táxi e de aplicativos (com juros diferenciados por gênero: 12,60% para homens, 11,60% para mulheres, podem acreditar).

Aliados de Lula apostam em que os beneficiados saberão ser gratos ao presidente no primeiro e no segundo turnos da eleição de outubro, e as pesquisas já o antecipam. 

Paira no ar a desconfiança de que – diante do deteriorado quadro fiscal de 2027 -- grandes projetos públicos hoje em execução sejam suspensos, paralisados ou tenham seu ritmo muito reduzido por um único motivo: a falta de dinheiro.  

Os nordestinos esperamos que a contenção de gastos não atinja os projetos de interesse do Ceará.  

CRESCE O COOPERATIVISMO NO CEARÁ 

Eu conversei ontem com o presidente do capítulo cearense da Organização das Cooperativas do Brasil, a OCB-Ceará, Nicédio Nogueira. Ele me transmitiu a notícia de que o cooperativismo aqui está crescendo em bom ritmo. 

Hoje, há, instaladas e em operação no estado do Ceará 153 cooperativas, sendo 63 ligadas à atividade agropecuária, 35 que atuam na área de saúde, 24 no ramo do transporte, 25 na área do trabalho, duas no setor da infraestrutura, três no de crédito e uma dedicada ao consumo.  

Nicédio Nogueira fez questão de acrescentar que o movimento cooperativista se incrementa no Ceará impulsionado, também, por jovens empreendedores, que buscam nas cooperativas o apoio de que precisam para seus empreendimentos.

Ele lembrou que, na semana passada, dentro da PecBrasil, foi realizado o II Encontro da Juventude Cooperatvista, reunindo mais de 600 jovens, que ouviram palestras a respeito do que são, do que fazem e que poderão fazer as cooperativas.  

O presidente da OCB-Ceará fez uma crítica às faculdades existentes no interior do Estado, principalmente na região do Cariri, as quais não dispõem de cursos sobre o cooperativismo, uma atividade que está intimamente ligada à agropecuária.

Ele tem razão.