Lula e Trump querem um final feliz para a reunião de hoje
Ambos têm interesses econômicos comuns; ambos são bons negociadores; ambos têm baixa popularidade e estão de olho nas eleições
Tudo no mercado financeiro move-se, exclusivamente, por meio da especulação. Se o presidente dos Estados Unidos promete erradicar da face da terra “uma civilização inteira nesta noite”, o preço do petróleo sobe e faz subir as ações de todas as empresas petrolíferas do mundo; se pela mesma boca mercurial sai a informação de que as negociações para a paz no Oriente Médio prosseguem no modo otimista, tudo acontece de maneira inversa. É assim, foi assim e será assim. Nesse fluxo e refluxo, muita gente ganha e perde dinheiro, é da regra do jogo.
O nariz de cera acima é para justificar a grande expectativa que está a cercar o terceiro encontro pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com seu homólogo norte-americano Donald Trump. Não só na Bolsa de Valores brasileira B3, mas também nos gabinetes da CNI, da Fiesp, da Firjan, da Fiec, da CNA e da Faec e dos grandes conglomerados empresariais dos dois países há a natural ansiedade em torno do que os dois chefes de Estado decidirão a respeito da agenda de temas que os aguarda nesta quinta-feira, 7, na Casa Branca, em Washington.
A saber: 1) as facções do crime organizado devem ser tratadas como organizações terroristas, desejo de Donald Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio, ou como grupos de narcotraficantes contra os quais o aparato estatal precisa de ser melhorado, principalmente no seu núcleo de inteligência, tese defendida por Lula e pelo seu time de assessores; 2) as reservas brasileiras de terras raras, que são a segunda do mundo e nas quais se encontram minerais cruciais para ímãs permanentes, turbinas eólicas, veículos elétricos e naves espaciais, podem ser exploradas por empresas norte-americanas, desde que todo esse esforço, principalmente o do seu beneficiamento industrial, agregando valor aos produtos, seja desenvolvido aqui, na geografia do Brasil, como defendem não apenas o presidente Lula, mas toda a liderança da indústria nacional; 3) o governo brasileiro seguirá retaliando o dos Estados Unidos, se persistirem as tarifas impostas por Trump a vários produtos exportados daqui para o mercado norte-americano.
Pelo que chega de Washington por meio das mídias jornalísticas e pelo que se comenta em Brasília, o encontro de hoje, do ponto de vista do Palácio do Planalto, deverá, para ter a repercussão política, econômica e eleitoral pretendida, render uma foto de Lula e Trump de mãos dadas, sorridentes, com uma legenda mais ou menos assim: “Brasil e EUA reajustam posições, deixam de lado as divergências semânticas e concordam em combater, juntos, o crime organizado. Os norte-americanos explorarão e industrializarão no Brasil as terras raras do país”.
Se for este o conteúdo do comunicado conjunto – se comunicado houver – a ser distribuído pelas duas chancelarias, a máquina de comunicação do PT será imediatamente ativada para produzir, não só o discurso da soberania nacional, já reiterado, mas a reconhecida capacidade do presidente Lula de, na mesa da negociação, convencer o presidente da maior potência econômica e bélica do planeta a concordar com seus fortes argumentos. E a baixa popularidade de hoje será revertida num estalar de dedos, basta aguardar as novas pesquisas.
Há um só temor que pode tisnar a reunião de hoje: possivelmente irritado pelas declarações de Lula nos fóruns de defesa da democracia realizados no mês passado em Madri e Barcelona, durante os quais o líder brasileiro disse que “o mundo não pode tolerar um presidente que faz ameaças diárias pelas redes sociais”, Trump poderá reproduzir o que fez com o presidente da Ucrânia, Volodomyr Zelensky, que, no salão oval da Casa Branca, foi humilhado ao vivo e em cores, em rede mundial de tevê. Em Brasília e em Washington, esta hipótese é 100% descartada. Se ela acontecer, Lula tem, bem decorada e na ponta da língua, a devida resposta. Lula e Trump são octogenários, ou seja, têm experiência e maturidade suficientes para tornar a reunião desta quinta-feira um acontecimento importante da geopolítica mundial.
Os dois governos têm interesses econômicos comuns – interesses políticos, nem tanto. Seus líderes são hábeis negociadores, e é por esta razão que todas as apostas são no sentido de que ambos encontrarão uma boa saída para as questões a serem tratadas hoje.
Trump terá uma difícil eleição parlamentar em novembro; sua popularidade está em baixa e seu partido, o Republicano, sofre as consequências. Lula, que tentará, em outubro, a reeleição que poderá dar-lhe seu quarto mandato, encara, igualmente, o problema de popularidade em queda.
Um final feliz hoje lhes fará bem
DÍVIDA DOS BRASILEIROS CRESCE POR FATA DE EDUCAÇÃO FINANCEIRA
O avanço do endividamento das famílias brasileiras continua em ritmo acelerado e expõe um problema estrutural: a falta de educação financeira. Dados recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo mostram que 80,4% das famílias estavam endividadas em março, uma alta de 0,2% em relação ao mês anterior e de 3,3% acima do registrado no mesmo período do ano passado.
Levantamento da Serasa Experian reforça esse cenário ao indicar que o país já soma mais de 82 milhões de inadimplentes. A pesquisa, feita junto a 1.904 pessoas, revela que 38% apontam o desemprego ou a perda de renda como principal motivo para não conseguir pagar as dívidas. No entanto, fatores ligados à gestão financeira — como desorganização (13%), gastos emergenciais (16%), apoio a terceiros (10%) e atraso em contas básicas (7%) — já representam, juntos, 46% dos motivos.
Outro dado que chama atenção é o aumento do valor das dívidas. Em média, cada brasileiro inadimplente deve R$ 6.728,51, distribuídos em cerca de quatro dívidas diferentes. O volume total já chega a R$ 557 bilhões, com crescimento de 3,35% em relação ao levantamento anterior.