Ford abre temporada de desinvestimentos privados em 2021

Setor mais beneficiado pelo governo brasileiro, que lhe deu dezenas de bilhões de dólares de incentivos fiscais ao longo dos últimos 30 anos, a indústria automobilística mostra agora a sua face.

Ao decidir pelo fechamento de suas fábricas no Brasil, encerrando aqui a produção de seus veículos que já durava 50 anos, a Ford – que tem um século de convivência com os brasileiros – abriu a temporada de desinvestimento privado neste 2021, que promete ser emocionante como o seu antecessor.

Estamos falando do setor industrial que mais incentivos fiscais recebeu do governo nos últimos 30 anos. Para compensar tamanha renúncia, o governo mandou para a estratosfera os impostos e taxas incidentes sobre o preço dos automóveis brasileiros, que são os mais caros do mundo. 

As montadoras beneficiadas pelo governo, todas estrangeiras, mostram agora a sua face.

Um consultor de empresas, com oficina de trabalho no Rio de Janeiro, com o qual esta coluna mantém contato frequente, disse que o comunicado da Ford, anunciando o fim de suas atividades no Brasil – o Ceará no meio – “deve ser encarado como uma tragédia, pois eles estão, por incrível que pareça, transferindo o grosso dos seus negócios para a Argentina, onde a economia está dolarizada, e onde o governo e o consumidor entendem de dolarização”.

A mesma fonte explicou que “é mesmo uma tragédia para o Brasil, porque o fato transmite, de certa maneira, uma insegurança jurídica”. 

O consultor completou sua opinião desta maneira: “Tratando-se de uma gigante multinacional, estamos diante do primeiro grande desinvestimento do setor privado no Brasil neste ano. Espero que seja o último, mas temo que não”.

Consultores na área da indústria automobilística admitem que outras montadoras poderão repetir a decisão da Ford.

Agora, atenção para um detalhe: no mesmo dia em que a Ford comunicou o fechamento de suas fábricas brasileiras, o Banco do Brasil anunciou um plano de demissão voluntária na boleia da notícia de que fechará mais de 100 agências. Ou seja, mais gente será desempregada.

São duas notícias péssimas para a economia nacional, que começava a solavancar na estrada esburacada da política fiscal, que poderia ser otimizada se o Congresso Nacional aprovasse logo as propostas de reforma tributária e administrativa e, também, os projetos-de-lei que pretendem contribuir para o ajuste das contas públicas. 

FIEC

Assinada pelo seu presidente, Ricardo Cavalcante, a Federação das Indústrias do Ceará (Fiec) distribuiu ontem nota ao público, na qual se posiciona diante do anúncio de fechamento das fábricas da Ford no Brasil, incluindo a dos jipe Troller, em Horzionte, no Ceará. 

A nota afirma: 

“É com preocupação que a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) acompanha a divulgação, por parte da Ford Motor Company, do encerramento das operações de manufatura no Brasil. Tal medida afetará o Estado do Ceará, visto que foi anunciado que a FORD Brasil encerrará a produção na planta da fábrica da Troller em Horizonte, região metropolitana de Fortaleza, ficando em operação até o quarto trimestre de 2021.
 
"Hoje, 470 colaboradores trabalham diretamente na fábrica na produção do veículo off road, promovendo o desenvolvimento da região. Assim como o investimento em tecnologia, a geração de emprego e renda é absolutamente relevante para o Ceará, para a indústria, para os cearenses. A FIEC tomará conhecimento de todos os detalhes da operação e irá acompanhar o caso, trabalhando para o melhor desfecho possível."

PROJETO S. FRANCISCO

Tudo está a indicar que a operação e a manutenção (O&M) do Projeto São Francisco de Integração de Bacias – que custará R$ 300 milhões anuais, segundo estimativas já divulgadas – só serão viabilizadas se a iniciativa privada for chamada a assumir sua gestão por meio de um Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) que permita uma Parceria Público Privada (PPP) via licitação ampla e transparente.
 
O empreendimento já consumiu 14 anos de trabalho e R$ 12 bilhões de investimento público, mas ainda faltam pelo menos mais dois anos de obras e mais R$ 2 bilhões para a sua conclusão. 

Neste momento, a situação do Eixo Norte do projeto, que beneficia o Ceará,  é a seguinte: foi suspenso o fornecimento de água da barragem do Jati para o Cinturão das Águas, projeto do governo cearense que foi testado com sucesso, sem qualquer perda por infiltração ou defeito de construção nos seus 53 quilômetros de extensão. 

Toda a água do Canal Norte está, agora, seguindo para a Paraíba, onde há vários açudes de contenção, cujo volume é calculado em 500 milhões de m³.
 
Esses reservatórios terão de ser obrigatoriamente enchidos antes que as águas cheguem aos rios que demandam o Rio Grande do Norte, seu destino final.
 
O Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) tenta, até agora sem sucesso, um acordo com o Governo do Ceará em relação aos custos de O&M do projeto. 

Enquanto esse acordo não sair, operará com apenas uma bomba – das três necessárias – a Estação de Bombeamento do Canal Norte que em Salgueiro (PE) eleva a quase 100 metros de altura as águas do projeto, que, daí em diante, por gravidade, ganham a direção da barragem de Jati.
 
Como o governo da União enfrenta uma grave crise fiscal, cuja solução está ainda muito distante, pois depende do Congresso de maioria oposicionista, teme-se que, ao longo deste ano, a crise de oferta hídrica no Ceará atravessará mais uma quadra de suspense.

SIDERÚRGICA

Marcelo Botelho, presidente da Companhia Siderúrgica do Pecém, visitou ontem o empresário Beto Studart, ex-presidente da Fiec, que o recebeu em seu escritório no edifício BS Design.
 
Os dois conversaram sobre tudo, da economia à política. 

INFLAÇÃO

Será divulgada hoje a inflação medida pelo IPCA (Índice Geral de Preços ao Consumidor Ampliado) do IBGE, relativo a 2020. Economistas apontam que ele ficará entre 4,35% e 4,38%. 

O centro da meta era 4%. Culpa dos alimentos e bebidas.

PESCADOR

Até novembro do eleitoral 2022, a Sudene, por meio do Instituto Nacional do Semiárido, investirá R$ 830 mil na qualificação de 220 pequenos criadores de peixe associados à Colônia de Pescadores de Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza.
 
Quando seus açudes estão cheios, o que não é o caso de agora, Maranguape transforma-se num grande produtor de tilápia.

TEMPO REAL

Informa o Sindicato da Indústria e da Construção Pesada do Ceará (Sinconpe) que está mobilizando o projeto piloto Rede Obras Digitais, selecionado para o programa Digital BR, da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
 
O projeto é uma tentativa de otimizar os processos nos canteiros de obras através de um software que, instalado nas máquinas, transmite em tempo real informações para os diretores ou gerentes da obra sobre o seu rendimento (tempo, carga, rota) para permitir a tomada de estratégicas instantâneas com vistas à otimização do processo.
 
O Senai, o IFCE e a empresa Certific Net também são instituições que fazem parte do projeto, juntamente com o Sinconpe.

ABRE E FECHA

A Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec), autarquia vinculada à Secretaria do Desenvolvimento Econômico e Trabalho (Sedet), registrou no ano de 2020 a abertura de 89.088 empresas, com acréscimo de 4.136 novas empresas em relação ao ano anterior, 2019. 

As cidades com maior número de registros desse período foram Fortaleza, em primeiro lugar com 44.087, Caucaia, 3.862 e Juazeiro do Norte, 2.931. 

 



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