Carnaval, Prefeituras, bandas de forró, emendas e corrupção
Três prefeituras cearenses dão bom exemplo: recusam-se a pagar milionários cachês e cancelam festas de carnaval.
Esta coluna imaginou que já havia visto de tudo neste mundo, o Brasil no meio, e o Ceará, também. Jamais imaginara, por exemplo, que as emendas parlamentares – uma excrecência que os maus políticos (será que eles já são a maioria, ou ainda perdura uma dúvida a respeito?) incluíram no Orçamento Geral da República – seria utilizada para o pagamento de cachês de bandas de música, outra lamentável novidade inserida na crônica da corrupção país afora.
Sabe-se, agora, que as prefeituras cearenses de Tauá, Jaguaretama e Caucaia, dando o bom exemplo, se recusaram a celebrar milionários contratos com os empresários dessas bandas que tocam forró de sofrível qualidade. Resultado: o governo desses três municípios, em vez de gastar com festa de carnaval, passará a aplicar essas verbas em projetos para a educação, a saúde e a infraestrutura de transporte – pelo menos, é o que se conclui.
Sabe-se, também, por apuração junto a fontes policiais e políticas com assento na Assembleia Legislativa, que – nos festejos de São João, ou seja, no período junino – a mesma coisa acontece, até em dose superlativa.
Mas nem todo mundo é farinha do mesmo saco. Um dos mais requisitados artistas do Nordeste, o poeta, cantor, sanfoneiro, aviador e piloto acrobata, o cearense Waldonys, respondeu assim à pergunta que este colunista lhe fez há seis meses, numa fazenda agropecuária da Região Metropolitana de Fortaleza:
Você paga propina a autoridades das prefeituras que contratam os seus shows?
Sua resposta veio de bate-pronto, na pontinha da língua:
“Nunca paguei e não pago e recuso qualquer contrato cujo intermediário chegue a mim com essa proposta indecente. Foi assim que meu pai me ensinou e é assim que eu ensino os meus filhos, o mais velho dos quais, aliás, é sanfoneiro como eu”.
Waldonys tem berço. Ele foi criado em um tempo no qual existia a chamada “lei do Chico de Brito”, aquela em que, ao menor deslize – mentir, por exemplo – tinha castigo apropriado. Ele, como a maioria do povo cearense e nordestino, foi ensinado a ser honesto, a falar a verdade, a recusar qualquer proposta indecente.
Por causa e como consequência desse bom tempo, a relação dos pais com os filhos é hoje mais do que amistosa, é a prova do amor que deve existir nas famílias. Esse tipo de criação, infelizmente, desapareceu graças aos novos costumes, aos novos regramentos que encimam a liberalidade, na qual emerge o “tudo é permitido”, uma passarela asfaltada para o desfile do crime organizado, para o crescimento da violência urbana e rural, para o surgimento de banqueiros de “araque”, para, ainda, a prosperidade de autoridades que, vivendo apenas do salário que lhes paga o serviço público, enfrentam dificuldades para provar a origem lícita do seu patrimônio.
Estamos no Século XXI! Tudo, no Brasil, já deveria ter mudado, a começar por suas lideranças políticas, as quais, além de incompetentes, são corruptas, como provam e comprovam as dezenas e dezenas de operações especiais da Polícia Federal, cujos alvos passaram a incluir, também, altas personalidades dos três poderes da República, algo inacreditável até o ano passado.
O escândalo do Banco Master está, finalmente, mostrando a cara do Brasil, e incentivando o brasileiro comum a dizer que “político é tudo igual”. Não, não é! Há políticos diferentes, corretos, que rejeitam a propina do poderoso da Faria Lima ou dos que operam em Brasília. Mas essa fração da política é minoritária, lamentavelmente. E o pior é que, pela ação e penetração das facções criminosas na estrutura da administração pública do país, nos níveis federal, estadual e municipal, esse cenário só tende a piorar, uma vez que o estamento da segurança pública tem se mostrado tímido, medroso, no enfrentamento desse desafio. Esta, lastimavelmente, é a verdade. É a vida real.
Vai começar o carnaval, o longo período de ócio do Brasil e dos brasileiros. Nas ruas das grandes e médias cidades do país, haverá desfiles de tudo, incluindo o da vaidade dos políticos. Mas haverá, também, a divulgação diária das trágicas estatísticas, resultado da violência que sempre trazem as festas carnavalescas.
CIALNE AMPLIA INVESTIMENTO NO PIAUÍ
Uma das grandes empresas da avicultura cearense, a Cialne deverá ampliar seus investimentos no vizinho estado do Piauí, onde tem granja e onde atua com sucesso no mercado local.
Na semana passada, o governo piauiense enviou uma delegação para visitar a sede da Cialne em Fortaleza, reunindo-se com seus sócios, diretores e executivos e tratando do tema.
Esta coluna apurou que a Cialne pretende mesmo investir mais no Piauí, cujo mercado consumidor de ovos e carne de frango segue aumentando. A avicultura cearense, vale ser lembrado, é uma das melhores do Nordeste.
POSICIONAMENTO DA COGERH
Esta coluna recebeu da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh) o seguinte posicionamento a respeito do que aqui foi divulgado no último dia 4 deste mês em curso:
“Em relação à coluna publicada no Diário do Nordeste em 4 de fevereiro de 2026, a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh) esclarece que as vazões dos açudes Castanhão, Orós e Banabuiú para o primeiro semestre de 2026 foram deliberadas e definidas pelos Comitês de Bacia Hidrográfica do Baixo, Médio e Alto Jaguaribe, Banabuiú, Salgado e da Região Metropolitana de Fortaleza, em reunião realizada nesta quarta-feira (4), no município de Quixadá.
“A definição ocorreu após amplo processo de diálogo, com apresentação de cenários técnicos pela Cogerh e deliberação conjunta entre os diversos segmentos que compõem os Comitês de Bacia Hidrográfica, incluindo usuários de água, poder público e sociedade civil.
“Dessa forma, a operação atualmente adotada nos reservatórios não representa corte arbitrário de vazão para nenhum setor, uma vez que decorre de decisão coletiva tomada no âmbito dos Comitês. Ressalta-se, ainda, que as vazões definidas para o primeiro semestre de 2026 são semelhantes às praticadas no mesmo período de 2025, o que assegura a manutenção de parâmetros operacionais já conhecidos, pactuados e previsíveis para os usuários.
“A operação dos três maiores açudes do Ceará tem caráter provisório neste primeiro semestre e ocorre durante a quadra chuvosa (fevereiro a junho), com o objetivo de garantir a segurança hídrica em regiões e para complementar a produção agrícola em caso de necessidade.
“Essa operação provisória não substitui a Reunião de Alocação Negociada de Água, instância formal prevista na Política Estadual de Recursos Hídricos. A reunião será realizada após o encerramento da quadra chuvosa, quando haverá maior segurança quanto aos volumes acumulados nos reservatórios, sendo este o momento adequado para pactuar, de forma participativa, as regras de uso da água para o segundo semestre do ano.”