Nunca aconteceu tragédia como essa na história do Brasil?

Ruínas de campo de concentração de retirantes da seca no Ceará
Legenda: Ruínas de campo de concentração de retirantes da seca no Ceará
Foto: Fabiane de Paula

Desde que atingimos a marca de 500 mil mortos, vitimados pelo novo coronavírus, é comum lermos ou ouvirmos que nunca se registrou uma tragédia como essa na história brasileira. Essa afirmação demonstra o quanto somos uma sociedade sem memória, o quanto, mesmo os meios de comunicação de massa, são ignorantes em relação a nossa história.

Essa falta de memória é ainda mais acentuada quando as tragédias e genocídios que pontuaram e constituíram nosso passado atingiram as camadas populares, os mais pobres, os homens e mulheres das classes trabalhadoras, os grupos étnicos e sociais tidos como inferiores, os personagens e pessoas tidas como marginais ou anormais. Essa frase, dita por jornais e meios de comunicação da área do Brasil que hoje se nomeia de Nordeste, se torna ainda mais lamentável.

A chamada grande seca, que ocorreu entre 1877-1879, que atingiu as chamadas províncias do Norte (de Alagoas ao Piauí), calcula-se ter ceifado cerca de 500 mil vidas. Embora as estatísticas para o século XIX não sejam muito precisas e confiáveis e, até mesmo por razões de interesses econômicos e políticos, essas cifras possam ter sido superestimadas, não há dúvida que essa estiagem promoveu uma das maiores catástrofes humanas de nossa história. 

Embora, proporcionalmente, secas anteriores possam ter dizimado um percentual maior (estima-se que a seca de 1777-1779 matou cerca de 25% da população dessa área, enquanto a seca de um século posterior teria dizimado em torno de 18% da população), em números absolutos ela foi a maior tragédia causada pelas estiagens. 

Cerca de um terço da população do Ceará morreu ou emigrou para a Amazônia ou para o Sul do país, muitas delas de forma compulsória ou estimuladas pelo financiamento do governo provincial.

Além da fome e da sede, da intoxicação pela ingestão de alimentos estragados e venenosos, uma série de epidemias e doenças (tifo, escarlatina, escorbuto, beribéri) dizimaram uma boa parte da população mais desamparada. A epidemia de varíola, no entanto, foi a responsável por dizimar cerca de um terço dos mortos. A precariedade dos abarracamentos, construídos de forma improvisada, nos arredores da capital, a cidade de Fortaleza, que viu sua população quase triplicar de tamanho, tornou fácil a disseminação do vírus da varíola e de outras doenças contagiosas. 

A medicina da época, que ainda não conhecia os micro-organismos, que se apoiava na teoria dos miasmas, julgou por bem simplesmente deslocar, com a ajuda da repressão policial, esses abarracamentos do leste da cidade, para o oeste, evitando assim, que o vento, que os ares, trouxessem para a cidade as doenças. Só nesse deslocamento forçado, que se fez num dia inteiro de sol causticante, com as pessoas doentes, debilitadas e depauperadas tendo que ser transportadas em redes ou transportar os seus poucos pertences nas costas e cabeças, cerca de duas centenas de pessoas pereceram.

A seca de 1877-1879 ficou famosa e foi particularmente catastrófica por alguns motivos históricos específicos. Mesmo tendo feito parte de uma série de catástrofes climáticas que se abateu sobre todo o hemisfério sul provocadas pelo fenômeno do El Niño (desconhecido a época), ela se deu após um período de cerca de trinta anos sem que o fenômeno ocorresse. Como a expectativa de vida média de um brasileiro nessa época era de cerca de 33 anos, muitas das vítimas da estiagem de 1877-79 não tinham experiência de lidar com uma seca, pois poucos haviam vivido a estiagem de 1845. 

Durante a década de 1860, devido à guerra civil nos Estados Unidos, a produção de algodão feita na área do semiárido das províncias do Norte do Brasil ganhou espaço no mercado internacional, levando a um crescimento significativo da população dessa área. A seca coincidiu com o retorno do algodão norte-americano ao mercado, com o fim da guerra, gerando uma acentuada baixa de preços e a ruína econômica de uma parte da elite agrária do sertão, que também perde seus rebanhos bovinos com a estiagem.

Flagelados de 1877, em Iguatu, à espera de trem para Fortaleza Foto: Livro
Legenda: Flagelados de 1877, em Iguatu, à espera de trem para Fortaleza Foto: Livro "Isolamento e Poder: Fortaleza e os Campos de Concentração na Seca de 1932"
Foto: Reprodução

A seca de 1877-1879 vai ser nomeada de a grande seca justamente por ser a primeira que não matou apenas escravos e homens livres pobres. Basta consultar os textos literários que a ela se referem, para ver que o grande trauma foi ver respeitáveis famílias do interior misturadas com “a ralé” dos retirantes. A epidemia de varíola, por seu turno, não escolheu classes sociais, tendo ceifado a vida da própria primeira-dama da província, a esposa do Barão de Sobral, Marieta Raja Gabaglia. 

Mesmo já se conhecendo o processo de vacinação, tanto as autoridades como a população se negavam a promovê-la e a se vacinar (qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência, pois ignorância e desleixo parecem não obedecer a temporalidades).

Essa seca, a primeira a ter uma ampla cobertura da imprensa nacional, tornando-se, por isso mesmo, a grande seca, a primeira em que há registro fotográfico dos corpos cadavéricos dos retirantes, imagens que têm grande repercussão ao ser publicadas em periódicos do Rio de Janeiro, deixou cenas muito semelhantes ao que se viveu, na atual pandemia, na cidade de Manaus. 

Só no dia 10 de dezembro de 1878, morreram na cidade de Fortaleza, 1004 pessoas, o chamado dia dos mil mortos

Com o esgotamento da capacidade de enterramento do cemitério da cidade, abriu-se uma grande vala comum na região praiana de Jacareacanga. Cerca de sessenta presidiários e coveiros foram mobilizados para fazer o enterramento dos corpos que, por falta de caixões, eram transportados em redes e, com a falta delas, amarrados em pedaços de madeira. Muitos corpos, dado o estado de decomposição, iam deixando pedaços pelo caminho. 

Os coveiros trabalharam durante todo dia, devidamente protegidos pela ingestão de cachaça (a cloroquina da época, já que ela evitaria a contaminação), já entrada a noite, mais de duzentos cadáveres ainda se encontravam insepultos. Ao chegarem no dia seguinte, para continuarem o serviço, viram urubus e cachorros disputando o repasto dos mortos. Essa vala comum foi descoberta em janeiro de 1994 por profissionais da companhia de esgoto do Estado.

A corrupção, tal como agora, fez da desgraça da população motivo de enriquecimento e fortuna de alguns. Desvio dos recursos enviados pelo governo central para os socorros públicos, venda a preço escorchante dos produtos enviados para socorrer as vítimas, o uso do trabalho semiescravo dos depauperados retirantes na extração de pedras que deram origem a um comércio clandestino, a negociata com os poucos cargos públicos que se podia oferecer, até mesmo a exploração da prostituição das retirantes foram motivo de lucro: as elites do Norte descobriam a indústria da seca. 

Por causa da falta de socorros, dos mal tratos, cerca de três grandes revoltas ocorreram em Fortaleza, a maior delas, no dia 20 de agosto de 1878 e reuniu quase dez mil retirantes, que atacaram os armazéns que forneciam carne e farinha. Infelizmente, a história do Brasil é feita de genocídios e catástrofes, difícil é discernir qual foi a maior ou a pior delas.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.