Como as empresas podem mudar a realidade de pessoas trans: 'Tinha medo de precisar me prostituir'

Legenda: Luna Genni, de 20 anos, conseguiu mudar a perspectiva de vida após participar de um programa de vagas de trabalho afirmativas
Foto: Divulgação

O mercado de trabalho formal ainda fecha as portas para profissionais transgênero. Atualmente, no entanto, também há forças empresariais contrárias a essa exclusão social agindo para levar diversidade aos espaços corporativos, sobretudo impulsionadas pela agenda ESG (sigla em inglês para boas práticas em meio ambiente, social e governança). 

Uma ação para aliviar as barreiras impostas a pessoas trans é a criação de programas de vagas afirmativas. Foi a partir desse tipo de iniciativa que a bailarina e estudante Luna Genni, de 20 anos, conseguiu mudar a perspectiva de vida. 

“O meu maior medo sempre foi o mercado de trabalho, de não conseguir ingressar e precisar me prostituir, porque muitas não conseguem um emprego formal devido ao preconceito e à transfobia”, relata. 

Os números explicam o temor da jovem: segundo levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% da população transexual e travesti só têm como alternativa de sobrevivência a prostituição.

Após muita busca e ter enfrentado a depressão, em novembro do ano passado, Luna conseguiu entrar para o Programa Journey, da Diageo, gigante mundial em bebidas alcoólicas e proprietária de marcas como Johnnie Walker e Ypióca.

Logo depois, começou o curso de Recursos Humanos em uma universidade privada. “Há um ano, eu já não tinha mais esperança, agora, sei que posso ter conquistas, evoluir e comemorar vitórias”, diz.

Ela é uma das 18 integrantes do projeto de inclusão de pessoas LGBTQIAPN+, o qual já recebeu 38 profissionais desde a criação, em 2022. Conforme Luna, a abordagem adotada desde o processo seletivo às práticas cotidianas de letramento de diversidade, equidade e inclusão foram cruciais.

“Quado ingressei na Ypióca, ainda me identificava publicamente como não-binária, mas dentro de mim já sabia da minha identidade trans. Fiz isso porque tinha medo de ser maltratada, como em outras empresas”, relata.

“Mas foi diferente. Tive diversas experiências que me ajudaram no meu desenvolvimento pessoal e profissional”, completa, dizendo ter recebido apoio e acolhimento para criar coragem de iniciar a transição de gênero. 

Para a jovem, o papel das companhias é fundamental para contribuir com a inserção do público trans no mercado de trabalho. Ela pondera, no entanto, não bastar apenas a criação de vagas afirmativas.

É preciso garantir um ambiente acolhedor, com trocas de banheiros, validação dos pronomes e nome social, apoio psicológico, incentivos educacionais e rodas de conversa com todos os trabalhadores.  

Outro ponto importante é comunicar, de maneira respeitosa, sobre o processo de transição de gênero do profissional para a equipe, com o consentimento. “Essas ações têm um grande impacto na vida das pessoas trans. Sou a prova disso”, frisa. 

Agora, Luna voltou a sonhar. Quer se formar, permanecer no mercado formal para se manter economicamente, mas continuar investindo na carreira artística de bailarina. Planos que, há um ano, não eram possíveis. Assim como ela, 100% dos jovens aprendizes na fábrica em Itaitinga se identificam como transgêneros e recebem acompanhamento de carreira, segundo a Diageo. 

Mirem-se nesse exemplo, empresários. Devolver a esperança por meio de políticas públicas e garantir a segurança das pessoas trans é papel do Estado, mas isso não descarta a responsabilidade do setor privado em relação à redução das desigualdades, principalmente em razão dos impactos negativos causados pelas empresas. 

Conforme o relatório “Desigualdade S.A. – Como o poder corporativo divide nosso mundo e a necessidade de uma nova era de ação pública”, da Oxfam Brasil, os super-ricos do mundo “criaram uma nova era de poder”, obtendo lucros exorbitantes e também controle sobre as economias dos países. 

Nesse contexto, indica o estudo, as corporações e os bilionários alimentam as desigualdades “pressionando trabalhadores, negando direitos, evitando o pagamento de impostos, privatizando o Estado e destruindo o planeta”. 

Na sexta-feira, 28 de junho, será comemorado o Dia Internacional do Orgulho. A data foi escolhida após os chamados Distúrbios de Stonewall (ou Revolta de Stonewall), em 1969, nos Estados Unidos. O movimento foi considerado um marco para a comunidade LGBTQ+ no mundo todo.

SERVIÇO

Interessados em vagas no programa de inclusão da Diageo devem enviar currículo para recrutamento@ypioca.com.br, colocando no título Programa Journey.

Entenda melhor a temática 4 pontos que você precisa saber