Nos Bastidores com Ana Mizutori: a 1ª mulher a usar a tribuna em uma sessão de julgamento do TJDF-CE

Todas os sábados, às 9 horas da manhã, nova entrevista com personagem dos bastidores do futebol

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Legenda: Ana Mizutori é coordenadora jurídica do Ceará
Foto: Mauro Jefferson/CearaSC.com

Ela entrou para a história da Justiça Desportiva do Estado do Ceará sem sequer imaginar. Quando esteve na sede da Federação Cearense de Futebol, no dia 25 de junho, a advogada Ana Cristina Mizutori Romero não sabia que era a primeira mulher da história a usar a tribuna em uma sessão de julgamento do Tribunal de Justiça Desportiva do Estado do Ceará (TJDCE). Mas era.

Tecnicamente, Ana não fez nada de extraordinário. Somente o trabalho que lhe era cabível e que já está acostumada. Mas em um universo ainda predominantemente povoado por homens, ficou marcada por romper uma barreira que já não deveria nem existir há muito tempo.

Formada em Direito pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas, em São Paulo, a paulistana que mora no Estado do Ceará há três anos e desde janeiro de 2019 trabalha no Ceará Sporting Club é a atual coordenadora do Departamento Jurídico do Alvinegro, setor fundamental no clube.

Especialista em Direito do Trabalho Empresarial e mestranda em Direito Desportivo, revela que ficou feliz em saber do marco histórico. Mas preocupa-se mais em desconstruir o machismo do mundo do futebol para abrir espaço para que outras mulheres possam trabalhar na área.

A advogada Ana Mizutori é a personagem do quadro Nos Bastidores desta semana.

- Como você foi parar no Ceará?

Eu sou paulista e estou no Estado do Ceará há três anos e meio, vim por mudança de emprego da empresa do meu marido. Deixei o escritório que estava, mas vim continuando na área do direito do trabalho empresarial, que era o que eu fazia em São Paulo. Acabei conhecendo em uma audiência o Dr. Jamilson Veras (ex-diretor jurídico do Ceará), e ficou o contato. E precisava agregar ao departamento e me contrataram pra ficar com essa parte mais de compliance, organização, direito cívil, do trabalho. Era uma parte mais interna. E assim fui dando entrada no departamento jurídico como um todo. O outro advogado, o Gabriel Bedê, acabou saindo um tempo depois, e eu fui cobrindo outras demandas, e me apaixonei mais ainda pelo futebol e pelo direito desportivo.

- Você sabia que era a primeira mulher da história a usar a tribuna em uma sessão de julgamento do TJDF-CE?

Na hora, a secretária da sessão do tribunal comentou que era a primeira mulher que cobre a tribuna. Eu falei "não é possível, né". Pra mim, em pleno 2019...quando ela falou, eu nem considerei. E ela disse que era, realmente. E registraram isso em ata. Eu fiquei muito feliz particularmente, por poder representar o Ceará nisso. Mas foi algo que eu não imaginava. Porque pra mim é uma coisa muito óbvia. A gente sabe que existe, sim, diferença de gênero. Mas a gente já viu tanta mudança acontecer, que ainda que exista, eu prefiro olhar pelo lado do que a gente já conquistou. Eu vejo muitas mulheres incríveis no meio do futebol, no STJD. Então, pra mim, era uma coisa muito óbvia.

- Qual sentimento teve ao saber disso?

Na hora, a ficha não caiu. Eu tava totalmente focada na defesa em si. Até porque era a primeira defesa que eu ia fazer no direito desportivo. Então eu não tava pensando nisso, foi um mero detalhe. Não imaginei a grandeza disso. E depois eu me dei conta da dimensão que era. Fazer algo histórico é saber que nada vai mudar esse status. E foi também uma questão de sorte, de tempo. Porque as mulheres estão aí. Eu conheço diversas mulheres extremamente competentes, e era uma questão de tempo. Me senti muito honrada de representar o Ceará e ter tido a sorte de estar ali naquele momento. Fiquei muito feliz.

- O machismo ainda é muito presente nesse meio? Ainda há muito preconceito?

Sinceramente, sim. Não dá pra negar. Eu não vejo tanto preconceito no sentido de restrição, de participação. "Ah, essa pessoa não vai participar por ser mulher". Isso não. Mas vejo muito preconceito, sim, na forma de tratar. Brincadeiras "inofensivas", piadinhas, alguém fala "ah, uma mulher advogando? O que é um pênalti?". Piadinhas que há o machismo ali. Comentários muito sutis, mas que é machismo. Mas eu prefiro olhar o outro lado, que estou aqui e abrindo caminho para outras pessoas. Mulheres na história abriram caminho pra mim, e eu estou abrindo caminho para outras na área do esporte, que é predominantemente masculino, isso não tem como negar. Mas tento muito focar no que a gente já está evoluindo. E a gente deve mostrar que devem se acostumar com isso, porque é assim que está sendo.

- Como é a sua rotina como coordenadora jurídica do clube?

Eu passo dia lá no clube. O departamento cuida não só da parte judicial, de processos em andamento, mas principalmente da parte de procedimentos que a gente tem. Operação de jogo, um trato com a Sejuv, todos os procedimentos de eventos, ofícios. Mais que a parte judicial, que ocupa muito tempo nosso, com certeza, tem todo um procedimento interno de todos os departamentos. Sem contar análise de contratos de todos os departamentos, contratações de serviços internos, tudo passa por contratos. De futebol, tem feminino, categoria de base, escolhinha, o profissional. Contratos de imagem, patrocínio, pré-contrato, tudo isso. É bem completo. Todos os departamentos acabam passando por nós, é uma atuação sistemática, pro clube funcionar. Mais que a parte judicial, é uma parte de organização, procedimentos, gestão do dia a dia de tudo que envolve futebol em campo e extra-campo.

- No passado, o Ceará sofreu muito com vários problemas jurídicos, ações trabalhistas e etc. Isso redobra os cuidados para que não aconteça mais?

Sim, porque isso afeta muito em campo e em todos os aspectos. A diretoria, em geral, prioriza muito uma gestão sólida, concreta, sustentável. E temos que elaborar processos, mesmo que segurando um pouco os gastos em outras coisas, para investir no interno, em estruturação que depois vai gerar, a médio/longo prazo, um retorno de uma estrutura melhor. Os cuidados vêm do compliance, sempre seguir as regras. A gente trabalha tudo de forma muito cautelosa. Isso acaba sendo um pouco invisível pro torcedor, mas fazemos questão de ter todos os cuidados para evitar qualquer tipo de problema. Antes de uma pauta passar pro departamento de comunicação a gente revisa pra ver se não vai haver algum erro jurídico, todos os contratos de patrocínios são revisados, totalmente analisados, então trabalhamos para sempre estarmos respaldados juridicamente. Fazemos tudo para que o clube esteja totalmente seguro. Não tem margem pra gente negociar fora de qualquer regra.

- O que o Ceará representa na sua vida?

Sempre fui muito apegada à minha família e vim pra cá meio perdida, meio deslocada. Lutei muito pra conseguir me adaptar. Depois que entrei no Ceará, foi onde encontrei um propósito. É muito mais que só um trabalho. Pra mim, é algo que traz motivação, que supera o cansaço. É um propósito.



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