Seu filho não aceita seu novo relacionamento? O que fazer?

Confira dicas práticas para mães, pais e novos parceiros

Escrito por
Ana Grasieli Lustosa verso@svm.com.br

A separação conjugal nunca é um processo simples. Envolve ter que lidar com o processo de luto da antiga configuração familiar, o que inevitavelmente requer uma grande reorganização. Quando envolve filhos, cada etapa dessa reconstrução da vida adulta, toca diretamente o universo emocional deles.

Muitos pais me perguntam: “Por que meu filho não aceita meu novo relacionamento, mesmo após tanto tempo da separação?”

Segundo Murray Bowen, um dos principais nomes da terapia familiar, as famílias são sistemas emocionais interconectados. Isso significa que qualquer mudança em uma parte do sistema, como a entrada de um novo parceiro, gera movimentos e resistências em todas as outras partes.

Não é apenas sobre “não gostar da pessoa nova”, mas sobre como o filho elabora a separação, o vínculo com o pai, por exemplo, e a segurança do lugar que ocupa na vida da mãe.

Do ponto de vista psicológico e neuropsicológico, é importante compreender que a percepção de tempo da criança e do adolescente não é a mesma do adulto.

Para os pais, dois ou três anos podem parecer um período suficiente de elaboração. Para o filho, esse processo pode ser vivido de forma muito mais lenta, porque ainda está imerso no amadurecimento emocional e cognitivo.

Outro fator relevante é a lealdade invisível. Mesmo que o vínculo com o pai/mãe não seja próximo ou saudável, a criança ou adolescente pode sentir que aceitar um novo parceiro é como “trair” a relação parental. Essa sensação inconsciente de “deslealdade” gera resistência, raiva e até hostilidade.

Veja também

Além disso, há um fator essencial: medo de perder o lugar. Os filhos podem fantasiar que, ao investir em um novo relacionamento, os pais terão menos tempo e afeto para eles.

Essa insegurança costuma vir mascarada de rejeição aos novos parceiros, quando na verdade revela um pedido: “mãe ou pai, eu ainda preciso sentir que sou prioridade na vida de vocês”.

O desafio, portanto, é equilibrar duas necessidades legítimas: a do adulto de reconstruir sua vida afetiva e a dos filhos de sentirem-se seguros e incluídos. Não se trata de impor aceitação, mas de criar um espaço de escuta e validação. Os filhos precisam saber que seu incômodo é compreendido, mas também que os pais ocupam o lugar de adultos e têm direito de refazerem sua história.

Dicas práticas para mães, pais e parceiros:

Quando os filhos são crianças

  • Quando apresentar? Somente quando a relação estiver mais consolidada, para não expor a criança a vínculos instáveis.
  • Como apresentar? De forma leve e natural, em situações de convivência cotidiana (um passeio curto, um lanche), sem grandes expectativas de aproximação imediata.
  • Evite que a criança sinta que precise escolher entre o pai ou mãe e os novos parceiros;
  •  Reforce que o novo relacionamento não substitui os pais;
  • Mantenha rituais de exclusividade mãe-filho, pai-filho (ler uma história juntos, brincar, passear).

Quando os filhos são adolescentes

  • Quando apresentar? Mais cedo do que com crianças, mas sempre com clareza e respeito. Adolescentes percebem incongruências, por isso é melhor falar do relacionamento antes que descubram sozinhos;
  • Como apresentar? Não imponha convivência. Convide o adolescente para situações pontuais, respeitando seu ritmo;
  •  Dê espaço para críticas e até para certa ironia, sem se sentir desautorizada (o);
  • Mostre firmeza no seu lugar de adulto: você pode acolher os sentimentos do adolescente, mas não precisa abrir mão da sua vida afetiva;
  • Combine com o parceiro para que ele entre com respeito, sem tentar assumir o papel de pai ou mãe.

Para o novo parceiro (a)

  • Entender que conquistar o filho não é uma corrida, mas um processo de construção lenta;
  • Evitar comparações com o pai/mãe ou tentativas de assumir autoridade imediata;
  • Posicionar-se como aliado, alguém que deseja somar, e não substituir.

É importante pontuar que se a resistência da criança ou do adolescente gerar conflitos intensos, queda no desempenho escolar, sintomas de ansiedade ou isolamento, é necessário a procura de apoio psicológico.

Separar-se de um parceiro é decisão de adultos. Mas reconstruir a vida depois da separação é sempre um processo que envolve também os filhos. Entretanto, com paciência, equilíbrio, sensibilidade, firmeza e afeto, é possível ajudá-los a lidar com o novo, sem que percam a segurança de serem amados.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.