Cena de música eletrônica de Fortaleza volta a ocupar espaços públicos e chega ao debate político

Desde a pandemia, cada vez mais eventos do gênero ocupam as ruas da capital cearense; força do movimento motivou a entrada da pista na pauta da política.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
(Atualizado às 17:02)
Legenda: Apresentação no FCME.
Foto: Gabriel Neves/Divulgação.

No último fim de semana, entre o anoitecer do sábado e o amanhecer do domingo, cerca de 2.500 pessoas ocuparam o Túnel Pintor Antônio Bandeira, no bairro Edson Queiroz, em Fortaleza, para a primeira edição do Festival Cearense de Música Eletrônica (FCME). Ao todo, o evento contou com mais de 30 DJs e teve dez horas de música, tornando-se uma boa amostra da excelente fase que vive o gênero musical no Ceará.

Retomada com força total no pós-pandemia, com novas casas, eventos e coletivos, a cena de música eletrônica da Capital se fortaleceu sobretudo nos últimos dois anos, num movimento que ficou conhecido como “Primavera Clubber” e que permanece intensamente vivo mesmo após o fim do frivião da retomada de eventos.

Iniciadas nas décadas de 80 e 90, as festas de música eletrônica ganharam força em Fortaleza apenas nos anos 2000, junto ao boom mundial que consagrou diversos estilos do gênero. Na época, boates e raves dividiam a atenção do público, mas os anos 2010 trouxeram uma baixa na cena que só seria superada com a “terceira onda” da cultura eletrônica na Capital, a partir de 2022, no pós-pandemia.

Exemplo dessa nova onda da música eletrônica em Fortaleza – que inclui uma nova valorização de coletivos e produções underground e ao mesmo tempo novos estilos de discotecagem, ligados à ritmos mainstream –, o FCME foi idealizado pela ticketeira Stratus Sounds e demonstra que, em Fortaleza, a cultura da pista vai além de boates e casas de shows.

Foto da silhueta de um DJ de costas, mexendo na mesa de mixagem. Ao redor dele, luzes vermelhas iluminam a imagem.
Legenda: FMCE.
Foto: Gabriel Neves/Divulgação.

O cientista da computação e idealizador da Stratus Sounds, Lucas Dias, de 32 anos, destaca que o evento teve como base a diversidade e o espírito colaborativo que norteiam a cena atual. A programação foi pensada para valorizar talentos locais e contou com produtoras e coletivos parceiros da plataforma.

No line-up, DJs jovens e pioneiros, de diferentes estilos, integraram a curadoria e fizeram sets B2B, tocando para um público igualmente diverso, de todas as idades. 

Apesar de ter um calendário intenso de festas de música eletrônica de pequeno e médio porte, Fortaleza há muito não reunia um público tão grande para um festival do gênero.

Um dos pioneiros da cena na Capital, o DJ Rodrigo Lobbão relembra, por exemplo, o festival FW Eletronic, que acontecia no Ceará Music, e as raves em barracas de praia como a Biruta, que chegavam a reunir centenas de pessoas. 

“A gente fala muito de cultura clubber, de clubes e tal, mas Fortaleza nos anos 2000 teve mais um vivenciamento raver, open air”, relembra Lobbão, que também foi um dos DJs convidados para tocar no FCME, em set com a DJ Monic.

No entanto, a trajetória foi longa para que um festival desta dimensão pudesse ocorrer em um espaço público: além de um evento similar realizado no Túnel no ano passado, em parceria com a produtora Fábrika, mas sem a dimensão de um festival, a produção teve mais de um ano de planejamento e muito diálogo para ocorrer.

Para que tudo corresse como esperado, mais de 60 pessoas fizeram parte da produção e R$ 100 mil foram investidos. 

O investimento, feito sem grandes patrocinadores, com recursos próprios, parecia impensável há anos atrás, quando Lucas morava em uma região humilde do bairro Ellery, na Capital, e começou a se interessar pela música eletrônica. Ali, ele decidiu que teria como objetivo democratizar essa cultura, colaborando com outros entusiastas para torná-la acessível para artistas e público. 

Em 2022, Dias criou a Stratus Sounds e, além de viabilizar um formato financeiramente mais sustentável para artistas locais, decidiu que também teria como intuito a ocupação cultural de espaços públicos. Desde então, ajudou a produzir festas em locais que vão de casarões à praia, das ruas ao Túnel Pintor Antônio Bandeira.

Terceira onda da cena da música eletrônica é ‘periférica e queer’

Foto da silhueta de um homem em posição de dança. Atrás dele, freixos de luzes azuis iluminam o local.
Legenda: FCME.
Foto: Gabriel Neves/Divulgação.

Se no boom do eletrônico nos anos 2000 a cena de Fortaleza se destacou pelos DJs residentes de casas como Degraus, Joy e Kiss e pela cultura das raves, a “terceira onda”, mais de 20 anos depois, tem os DJs e o público como protagonistas

Para Lucas Dias, hoje os coletivos, festas e fãs estão cada vez mais diversos e, por representarem cada vez mais a pluralidade da população e incluírem novos gêneros na conversa – como o funk, cada vez mais incorporado na cultura eletrônica –, acabam atraindo novos entusiastas.

“Esse terceiro momento veio de uma outra camada de pioneirismo, que é o da população periférica e do público queer”, destaca o produtor. Segundo Lucas, outros fatores que colaboraram para uma nova popularização do eletrônico na cidade foram a democratização da informação e a melhoria do poder aquisitivo da população, que permitiu maior acesso à cultura clubber e a eventos musicais em geral.

Quando a gente fala de música periférica, a gente tá falando da própria população: filhos de trabalhadores, trabalhadores, brasileiros reais que, mesmo em meio às dificuldades, produzem arte (...) Cada vez mais a gente vive uma necessidade de pertencimento. As pessoas querem ser ouvidas e querem se sentir pertencentes a algo.”
Lucas Dias
Idealizador da Stratus Sounds e do FCME

A ocupação de espaços públicos por DJs e coletivos faz parte desse novo momento, explica, porque estar nas ruas é, também, parte de se sentir cidadão. “Acho que a arte e a cultura potencializam o que é a política, o que é pertencer a uma determinada localidade. E a música eletrônica consegue juntar tudo isso”, completa.

Rodrigo Lobbão atua como DJ em Fortaleza há mais de 30 anos.
Legenda: Rodrigo Lobbão atua como DJ em Fortaleza há mais de 30 anos.
Foto: @marinhojr/Divulgação.

Atuando como DJ na Capital desde 1995, Rodrigo Lobbão relembra que, ainda que a cena clubber fosse por essência inclusiva e muitos eventos ocorressem em espaços LGBTQIAPN+, só recentemente eventos voltados para o gênero se tornaram mais democráticos de fato.

“Era um desafio muito grande, porque na época era completamente diferente do que a gente tem hoje. A comunidade LGBT, na época, se escondia, porque tinha muita homofobia – ainda tem, claro, mas hoje a coisa melhorou muito, porque hoje tem leis. Na época não tinha isso”, relembra, destacando que mesmo os line-ups eram quase inteiramente masculinos.

Entre 2012 e 2018, as festas se tornaram mais raras. Havia quem fizesse música eletrônica, mas poucas casas e eventos dedicados ao gênero, que tinha se tornado o queridinho de uma elite que cobrava caríssimo para festas exclusivas. Para Lobbão, parte do público acabou se afastando por isso ou pelo interesse por outros estilos musicais dominantes à época, como o indie rock e o reggaeton. 

Hoje com nova cara, o gênero musical ganhou novos adeptos, sobretudo entre a juventude. “O que a gente está vendo atualmente é exatamente esse boom pós-pandemia, em que há um interesse muito maior dos jovens em procurar a música eletrônica”, aponta Lobbão.

Fórum e projetos de lei fortalecem a cena, mas políticas ainda são insuficientes

Foto de DJ de costas, com a mão levantada, olhando para o público. Na frente dele, o público aparece em meio a freixos de luzes coloridas.
Legenda: Apresentação no FCME.
Foto: Gabriel Neves/Divulgação.

O bom momento da música eletrônica na Capital e no Ceará tem sido demonstrado em quantidade e qualidade, mas não deve ser considerado uma luta ganha, tampouco romantizado, já que ainda há poucas políticas que garantam a continuidade da cena local. É o que pensa Lucas Dias, idealizador do FCME.

Para ele, iniciativas como os projetos de lei que tramitam na Assembleia Legislativa do Ceará e buscam destacar a relevância da música eletrônica – um deles busca instituir o Dia Estadual da Música Eletrônica no Ceará e outro reconhece o gênero como de Destacada Relevância Cultural do Estado – são boas ideias, mas ainda não garantem os direitos necessários depois de “décadas de ausência do Estado”.

“É muito bom ver que políticos estão começando a ver esse segmento e dar uma voz, mas a gente ainda precisa ser mais pragmático. Não é só um projeto de lei, a gente precisa ter uma lei efetiva, porque ideia por ideia todo mundo tem”, comenta.

Entre as políticas necessárias, tanto Dias quanto Lobbão demandam que haja editais específicos para o gênero nos âmbitos municipal e estadual. Rodrigo ainda destaca a ausência de cursos formativos para possibilitar o acesso de mais pessoas à profissão de DJ.

Para dar conta das demandas do segmento, um grupo de DJs criou, em maio, o Fórum Cearense de Música Eletrônica, que já conta com dezenas de artistas e alguns encontros realizados.

“A música eletrônica já faz parte da cultura do Ceará. Ela movimenta milhares de pessoas, gera emprego, renda, fortalece a economia criativa e ocupa diversos espaços da cidade. Mas ainda não existia uma articulação institucional que representasse essa diversidade”, explica Kélvin Cavalcante, um dos idealizadores do Fórum.

A ideia, segundo ele, é criar um vínculo mais próximo entre produtores e o poder público, expandindo os line-ups e projetando novos nomes.

“Hoje alguns coletivos conseguem dialogar com o poder público porque já possuem uma relação construída, mas nossa ideia é que essas oportunidades possam alcançar toda a cena, independentemente do tamanho do coletivo ou da trajetória de cada artista”, completa.

Além dos projetos de lei, outra aproximação recente do poder público com a cena cearense ocorreu em maio deste ano, no Dia Internacional do DJ, quando a Câmara Municipal de Fortaleza realizou uma sessão solene para homenagear 35 nomes que contribuíram para a cultura da música eletrônica na Capital.

“A necessidade de a pista estar na rua sempre foi presente”

Mulher de cabelo curto, óculos de sol e camisa com estampa rosa e vermelha olhando para a câmera.
Legenda: Babita é DJ residente e produtora cultural da BATEU, Pode Comemorar.
Foto: Felipe Mota/Divulgação.

Integrante do Fórum e um dos nomes de destaque da cena eletrônica contemporânea do Ceará, a DJ Babita, produtora cultural e residente no selo “Bateu, Pode Comemorar”, destacou a importância de a pista ir a todos os lugares, de espaços públicos à pauta da política cearense.

“A rua é sinônimo de música e liberdade. Então, a necessidade de a pista estar na rua sempre foi presente e de vontade dos produtores do meio, e dificilmente éramos notados pelo poder público para realizar e trazer o entretenimento da música eletrônica de graça, para que todos pudessem consumir”, destaca a produtora.

Para Babita, o reconhecimento de DJs cresceu, mas quem faz o gênero acontecer – majoritariamente, em Fortaleza, pessoas LGBTQIAPN+ – ainda não é contemplado devidamente pelas políticas públicas, ainda que a situação seja melhor em relação ao passado.

Há dez anos, mesmo antes da pandemia e do boom da terceira onda da cena de música eletrônica, a BATEU inovou ao levar uma festa voltada para o gênero à Praça dos Leões, no Centro de Fortaleza. Recentemente, o selo reviveu o momento em um novo evento no mesmo local.

“Os DJs que iniciaram o movimento da música eletrônica no Ceará não tiveram nem um pouco de apoio para fazer o que fizeram. Eles plantaram pra gente colher maduro”, aponta. Segundo ela, a situação vem melhorando desde 2024, principalmente, mas ainda há muito o que caminhar.

“Por sermos considerados um público mais marginalizado, sempre foi muito difícil ter notoriedade e entenderem o quanto nosso movimento é importante pros corpos se sentirem livres e se conectarem com a pista de dança, livre de preconceitos e com segurança. É uma dificuldade constante, por mais que hoje tenhamos mais reconhecimento”, completa.

Foto de mulher de cabelo castanho olhando para a câmera e apontando a mão em direção a câmera com expressão séria.
Legenda: DJ Metalluna.
Foto: Vitor Guilherme/Divulgação.

Também integrante do Fórum e DJ atuante na cena de Fortaleza, a pernambucana Luna Oliveira, conhecida nas pistas pelo nome artístico Metalluna e pelo trabalho como residente da festa Tubulosa, relembra que os movimentos mais recentes têm demonstrado que “a pista é todo lugar”.

Ainda assim, ela também destaca a falta de acesso a alguns equipamentos e editais públicos. “As políticas públicas ainda não são muito acessíveis para a cena eletrônica, mas a movimentação já está acontecendo”, pontua. 

Nos últimos anos, mesmo em meio aos desafios, ela lembra que vários novos selos foram criados e reconhecidos no Estado, tornando-se ponte para a consolidação da boa fase para a música eletrônica.

“A valorização da música eletrônica no Ceará já está ocorrendo, mas a caminhada é longa. E não vamos parar de correr atrás”, conclui.

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