Por que congelamos em momentos de transição e o que isso tem a ver com dívidas pessoais?

Escrito por
Ana Alves animaconsultoria@yahoo.com.br
Legenda: Esse congelamento se manifesta como evitação psicológica: deixamos de tomar decisões importantes, adiamos ações, evitamos olhar a realidade de frente.
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Diversos psicólogos já estudaram e demonstraram em inúmeras pesquisas sobre comportamento humano, como, em momentos de transição profunda — sejam trazidos por crises externas ou por mudanças internas — nosso cérebro “congela”.

O que significa esse congelamento? Significa que, diante de incertezas, o cérebro perde as referências que antes davam suporte para o funcionamento cotidiano: rotinas previstas, expectativas relativamente seguras, crenças de que “as coisas vão dar certo” com base em padrões anteriores.

Quando esses mapas mentais desaparecem — seja por mudança de emprego, instabilidade econômica, problemas de saúde, crise política, ou mesmo por mudanças pessoais — somos frequentemente dominados por ansiedade, pelo medo do que virá, ou pelo sentimento de que não há lugar seguro para nos apoiarmos.

Esse congelamento se manifesta como evitação psicológica: deixamos de tomar decisões importantes, adiamos ações, evitamos olhar a realidade de frente. Alguns exemplos: protelamos conversas difíceis, não revisamos contas, não buscamos ajuda, ignoramos sinais de que o endividamento está crescendo.

E isso tem conexão direta com finanças pessoais: quando ignoramos as dívidas, quando evitamos ver os extratos, ou pensar em planejamento financeiro, estamos deixando que o congelamento continue. Esse momento de latência, ou de paralisia, costuma agravar o problema, porque juros vão se acumulando, cobranças se intensificando, e o ciclo de estresse financeiro piora.

O mecanismo psicológico

Para entender melhor, vale destacar alguns elementos:

1. Mapas internos e previsibilidade – nosso cérebro funciona antecipando padrões: quando esses padrões se rompem, ficamos sem base. Financeiramente, somos acostumados a orçamentos mensais, à constância de renda, de despesas fixas, de custos previsíveis. Quando há instabilidade (diminuição de renda, inflação, imprevistos), esse mapa é rasgado.

2. Alarme interno – diante da insegurança, ativam-se mecanismos de alerta. Não é fraqueza, é resposta natural do organismo à incerteza. Nos negócios financeiros, isso deveria acionar atitudes protetivas: rever orçamento, cortar gastos desnecessários, renegociar dívidas. Mas muitas vezes, o alarme desencadeia o bloqueio, o medo de “errar”, ou de “decidir errado”.

3. Evitação como alívio momentâneo – evitar olhar de perto as finanças ou não agir parece aliviar a ansiedade no curto prazo. 

Porém, é um alívio ilusório, porque o problema continua debaixo do tapete — e tende a crescer.

4. Reconhecimento do desconforto – reconhecer que se sente perdido, ansioso, inseguro, confuso — esse reconhecimento é fundamental. Sem isso, a paralisia tende a persistir. 

Relação com educação financeira e endividamento

A educação financeira muitas vezes foca em ensinar ferramentas: orçamento, controle de gastos, poupança, investimento, renegociação, etc. Mas sem lidar com o psicológico — com medo, vergonha, procrastinação — essas ferramentas ficam no papel. O congelamento psicológico pode impedir que alguém coloque em prática o que sabe.

Imagine alguém que perdeu parte da renda ou teve aumento súbito de despesas inesperadas. Ele sabe que precisa agir: cortar gastos, renegociar, talvez buscar fonte extra de renda. Mas o desconforto, o medo de errar, o sentimento de não saber por onde começar, tudo isso paralisa.

Enquanto isso, juros de cartão ou cheque especial se acumulam, parcelas atrasadas geram multa ou protesto, credores entram em contato — a ansiedade aumenta, e o ciclo se retroalimenta: mais medo → mais paralisia → mais dívida → mais medo.

Portanto, é essencial confrontar esse ciclo psicológico para que a pessoa possa agir, minimizando os danos e retomando controle das finanças.

Atitude: o caminho para enfrentar as dívidas e organizar a vida financeira

Romper o congelamento exige atitude – parte coragem, parte método. Aqui estão algumas ideias práticas, combinadas com o entendimento psicológico, que podem ajudar:

  • Aceite a realidade emocional: perceber que você está desconfortável, que não sabe o que fazer, e que tem medo. Isso não é fraqueza, é parte do processo.
  • Mapear a situação financeira atual: fazer um levantamento claro de todas as dívidas (valores, juros, prazos), das receitas, das despesas fixas e variáveis.
  • Estabelecer prioridades: quais dívidas mais urgentes? Quais juros mais altos? O que está consumindo mais da renda?
  • Planejar pequenas ações: em vez de querer resolver tudo de uma vez — o que pode paralisar — fazer passos menores e sucessivos. Por exemplo: renegociar uma dívida, cortar uma despesa variável, acordar data fixa para pagar, destinar uma porcentagem da renda para amortização.
  • Buscar ajuda externa quando necessário: orientação de especialistas, cursos de educação financeira, grupos de apoio ou mesmo terapia para lidar com o medo ou vergonha.

Transições de vida — externas ou internas — tendem a desorganizar não apenas nossa rotina, mas nosso senso de controle psicológico. Congelamos porque perdemos as referências que usávamos para nos orientar, e evitamos agir porque estamos com medo de errar ou de enfrentar algo doloroso.

Esse congelamento facilita o surgimento ou o aprofundamento do endividamento, pois a evitação adia decisões cruciais e deixa problemas sem solução.

Mas há uma boa notícia: a educação financeira pessoal se torna ainda mais efetiva quando aliada à consciência emocional.

A habilidade de reconhecer o desconforto, de agir apesar dele, de fazer escolhas pequenas mas consistentes — tudo isso pode romper o ciclo. Organizar finanças não é só sobre números; é também sobre coragem, sobre enfrentar o que incomoda e decidir um passo de cada vez.

Se você está vivendo uma fase de transição e sente que está congelado, lembre: não está sozinho, nem sem saída. Com atitudes pequenas e firmes, é possível retomar controle, pagar dívidas e reconstruir um mapa financeiro com segurança — mesmo que o futuro ainda pareça incerto.

Pensem nisso e até a próxima !

Ana Alves

@anima.consult

Economista, Consultora, Professora e Palestrante

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