Quais as profissões têm os maiores salários e fortunas do Ceará? Veja lista
Quem ganha mais no Ceará? Quanto o cearense típico declara de renda e de patrimônio? E quantos estão fazendo as malas para deixar o país? A Receita Federal acaba de responder, em painéis públicos.
Nas últimas semanas, os novos painéis de dados abertos da Receita ganharam repercussão nacional ao publicar, com detalhe inédito, o perfil dos declarantes do IRPF (Imposto de Renda da Pessoa Física). Apliquei o filtro "Ceará" e o retrato que emerge merece a sua atenção.
O declarante cearense típico
No exercício de 2026 (declarações referentes aos rendimentos de 2025), o Ceará teve 963.650 declarantes. O perfil médio do cearense que declara imposto de renda é de 46,8 anos de idade, 48% são mulheres e 38,1% declaram cônjuge.
Os rendimentos totais médios somam R$ 139,3 mil por ano (cerca de R$ 11,6 mil mensais) e o patrimônio médio declarado é de R$ 238,1 mil.
Mas cuidado com as médias, pois elas são puxadas pelo topo. A grande maioria dos declarantes cearenses tem rendimentos anuais de até R$ 200 mil. O declarante mediano está bem mais perto do trabalhador comum do que dos números acima sugerem.
Ceará, Nordeste e Brasil
E como o declarante cearense se compara ao brasileiro? A tabela abaixo resume o paralelo para o Nordeste e para a média nacional:
Três achados chamam atenção. O primeiro é que a renda média do declarante cearense equivale a 85% da nacional, mas seus rendimentos tributáveis (salários, aposentadorias, aluguéis) superam a média do Brasil.
A diferença está nos rendimentos isentos e na renda de capital, mais concentrados no Sul e Sudeste.
Segundo, é a informação sobre o patrimônio, na medida em que o cearense declara, em média, R$ 238 mil, pouco mais da metade dos R$ 409 mil do brasileiro médio. Nossa defasagem está menos no contracheque e mais no estoque de riqueza acumulada ao longo de gerações.
E terceiro, as mulheres são 48% dos declarantes no Ceará, acima dos 44,8% nacionais.
Qual a maior renda no Nordeste?
No recorte regional, o Ceará ocupa a quarta posição entre os nove estados do Nordeste em rendimentos médios:
- Sergipe — R$ 147,33 mil/ano
- Pernambuco — R$ 146,33 mil/ano
- Rio Grande do Norte — R$ 140,00 mil/ano
- Ceará — R$ 139,33 mil/ano
- Paraíba — R$ 136,50 mil/ano
- Bahia — R$ 133,37 mil/ano
- Alagoas — R$ 132,95 mil/ano
- Piauí — R$ 121,70 mil/ano
- Maranhão — R$ 109,10 mil/ano
Fonte: Receita Federal, Painel Perfil do Declarante IRPF (exercício 2026)
Quem mais ganha no Ceará?
O ranking das ocupações com maior média de rendimentos totais no estado é revelador:
- Titular de Cartório — R$ 1,585 milhão/ano
- Membro do Poder Judiciário (juiz e desembargador) — R$ 1,191 milhão/ano
- Membro do Ministério Público (procurador e promotor) — R$ 1,056 milhão/ano
- Advogado do setor público e procurador da Fazenda — R$ 633,8 mil/ano
- Servidor das carreiras do Banco Central, CVM e Susep — R$ 567,1 mil/ano
- Piloto de aeronaves e comandante de embarcações — R$ 556,2 mil/ano
- Médico — R$ 490,4 mil/ano
- Atleta, desportista e afins — R$ 486,5 mil/ano
- Servidor das carreiras de auditoria fiscal e de fiscalização — R$ 484,5 mil/ano
- Diplomata e afins — R$ 459,0 mil/ano
Fonte: Receita Federal, Painel Perfil do Declarante IRPF (exercício 2026)
Entre as dez primeiras posições, sete são carreiras públicas ou delegadas pelo Estado. O primeiro "empresário" da lista, dirigente de empresa industrial ou comercial, aparece bem abaixo, com média de R$ 281,7 mil anuais. No Ceará, como no Brasil, o topo da pirâmide de renda declarada está no setor público.
Quem tem o maior patrimônio no Ceará?
E quem acumulou mais riqueza? O ranking do patrimônio médio no Ceará por ocupação confirma a tendência da renda:
- Membro do Poder Judiciário (juiz e desembargador) — R$ 1,8 milhão
- Membro do Ministério Público (procurador e promotor) — R$ 1,6 milhão
- Titular de Cartório — R$ 1,4 milhão
- Servidor das carreiras do Banco Central, CVM e Susep — R$ 1,1 milhão
- Dirigente, presidente e diretor de empresa industrial ou comercial — R$ 1,0 milhão
- Médico — R$ 900,0 mil
- Diplomata e afins — R$ 900,0 mil
- Produtor na exploração agropecuária — R$ 900,0 mil
- Piloto de aeronaves e comandante de embarcações — R$ 800,0 mil
- Advogado do setor público e procurador da Fazenda — R$ 800,0 mil
Fonte: Receita Federal, Painel Perfil do Declarante IRPF (exercício 2026)
No patrimônio, a história se repete, uma vez que magistrados, promotores e titulares de cartório estão no pódio. Aqui, porém, o setor privado respira um pouco melhor, em razão de dirigentes de empresas e produtores rurais aparecem no meio da lista, sinal de que a riqueza empresarial se constrói também pelo acúmulo de ativos.
Os cearenses que vão embora
Outro painel chama atenção é o de saída definitiva do país, pois é a declaração de quem deixa o Brasil de vez e encerra sua vida fiscal por aqui. No exercício de 2026, 738 cearenses formalizaram a saída.
O perfil de pessoas que deixam o Brasil pelo nosso Ceará, tem média de 39,9 anos e maioria feminina (53,5%). Os destinos preferidos são Portugal (269), Estados Unidos (119) e Canadá (55), seguidos de Alemanha (32) e Irlanda (32).
São poucos em número absoluto, mas o simbolismo é grande, pois perdemos para o exterior gente jovem, qualificada e em idade produtiva, sendo exatamente o capital humano que mais custa formar.
O raio-X da saúde privada
Há ainda o painel do Receita Saúde, aplicativo que registra os recibos emitidos por profissionais de saúde pessoas físicas.
No Ceará, já são cerca de 1 milhão de recibos, somando R$ 554,6 milhões. Os psicólogos lideram em quantidade (517,5 mil recibos, valor médio de R$ 303,00), enquanto os odontólogos lideram em valor total (R$ 214,5 milhões, com o maior tíquete médio: R$ 965,00). Um retrato involuntário e valioso do mercado de saúde privada cearense, incluindo o boom da terapia.
Por fim, fica o convite ao leitor. Os painéis são públicos e qualquer pessoa pode explorá-los aqui, no tópico “Estatísticas da Declaração 2026” e nas opções disponíveis em “painéis”.
Transparência dessa qualidade ainda é rara no Brasil, e ela nos permite discutir com dados, e não com o teorema de “chutágoras”, quem recebe mais, paga a conta, quem prospera e para onde caminha a nossa economia.
Grande abraço,
Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.