Seu 13º já tem dono? Decida antes que o cartão decida por você
Imagine a Dona Francisca, auxiliar de serviços gerais numa escola de Maracanaú. Todo fim de ano, a história se repete: o 13º cai na conta, uma parte vai para os presentes, outra para a ceia, um pouco para "umas coisinhas".
Quando janeiro chega, com material escolar, contas e fatura do cartão, o dinheiro já sumiu. E ela nunca sabe exatamente para onde foi. Se você se reconhece nessa cena, tenho uma boa notícia: ainda dá tempo de fazer diferente este ano.
O segredo é simples. Decidir o destino do 13º antes de ele chegar. O calendário ajuda. A primeira parcela pode ser antecipada pelo empregador ao longo do ano. Se isso não acontecer, ela deve ser paga até 30 de novembro, sem descontos.
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A segunda vem até 20 de dezembro, já com os descontos de INSS e, quando for o caso, Imposto de Renda. Por isso, a segunda parcela costuma ser menor que a primeira, e muita gente só descobre isso na hora.
Não é pouco dinheiro. No ano passado, o Dieese estimou que o 13º colocaria R$ 369,4 bilhões na economia brasileira, cerca de R$ 60,5 bilhões no Nordeste e R$ 9,2 bilhões aqui no Ceará, para cerca de 3,3 milhões de cearenses, com valor médio de R$ 2.543,97 por pessoa.
É o maior reforço de renda do ano para muitas famílias. E, por isso mesmo, é o dinheiro mais disputado: pelo comércio, pelos bancos e pela nossa própria vontade de gastar. Minha sugestão é dividir o 13º em potes, nesta ordem.
Primeiro, as dívidas caras. Rotativo do cartão e cheque especial cobram os juros mais altos do mercado, e nenhum investimento rende tanto quanto parar de pagar esses juros. Vale ligar para o banco e pedir desconto para quitar à vista.
Mas, antes de mandar tudo para a dívida, separe um valor pequeno para imprevistos, o suficiente para um remédio ou um conserto. Sem esse colchão, a primeira emergência leva você de volta para o cartão.
Segundo, as contas de janeiro. IPTU, IPVA, matrícula e material escolar não são surpresa. Chegam todo ano. Separe esse valor antes de qualquer compra de Natal.
Terceiro, a reserva de emergência. Se ainda não tem uma, o 13º é a melhor chance de começar. Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária, o feijão com arroz de sempre, resolvem.
Quarto, a festa. Presentes, ceia e passeio também importam. Mas com valor definido, pagos com o que sobrou dos potes anteriores, e não com o dinheiro que ainda vai entrar.
Se fizesse esse exercício com papel e caneta, a Dona Francisca poderia descobrir, por exemplo, que a primeira parcela dá para quitar a fatura atrasada e ainda guardar um pouco para imprevistos. E que a segunda cobre o material escolar dos filhos, com um valor fixo reservado para o Natal.
O 13º não é dinheiro extra. É parte do salário que você ganhou trabalhando o ano inteiro.
Quem decide o destino dele antes de receber não está sendo pão-duro. Está construindo patrimônio do jeito que funciona: devagar, com disciplina e sem atalho.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.