Quanto os cearenses devem no cartão de crédito?
O Governo Federal anunciou, no final de setembro, o Desenrola 3.0, que é uma nova rodada do programa de renegociação de dívidas.
Criado por medida provisória, o programa mira até R$ 150 bilhões em dívidas de até R$ 10 mil, com atraso entre dois e quatro anos e meio e pode alcançar 15 milhões de pessoas.
Entre as dívidas que podem entrar no programa está a do cartão de crédito, e foi aí que surgiu a minha curiosidade. Afinal, qual o valor total da fatura do cartão de crédito dos cearenses?
A FATURA DOS CEARENSES
Os dados do Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central mostram que o saldo do cartão de crédito das pessoas físicas no Ceará alcançou R$ 24,4 bilhões em julho de 2026.
É como se cada cearense, incluindo crianças e idosos, tivesse uma fatura de R$ 2.622.
Vale explicar que esse valor vai além da fatura do mês. Ele soma as compras à vista ainda não pagas, as parcelas a vencer das compras parceladas, os parcelamentos com juros e o rotativo, crédito acionado quando o cliente paga menos que o total da fatura.
Já as dívidas do Desenrola 3.0, com mais de dois anos de atraso, em geral foram lançadas como prejuízo pelos bancos e não entram nesse saldo.
RANKING DO NORDESTE
O Ceará tem a terceira maior fatura do Nordeste, posição que mantém desde 2019. Veja o ranking.
1. Bahia, R$ 41,0 bilhões
2. Pernambuco, R$ 28,3 bilhões
3. Ceará, R$ 24,4 bilhões
4. Paraíba, R$ 12,2 bilhões
5. Maranhão, R$ 11,9 bilhões
6. Rio Grande do Norte, R$ 10,8 bilhões
7. Alagoas, R$ 9,4 bilhões
8. Sergipe, R$ 7,5 bilhões
9. Piauí, R$ 6,8 bilhões
Juntos, os nove estados somam R$ 152,2 bilhões, ou 20,5% do total nacional. O Ceará responde por 16,0% do valor nordestino.
Quando o valor é dividido pela população, porém, o Ceará cai para a sétima posição, com R$ 2.622 por habitante, abaixo das médias do Nordeste (R$ 2.653) e do Brasil (R$ 3.471).
Sergipe (R$ 3.234) e Rio Grande do Norte (R$ 3.128) lideram nesse critério.
A FATURA QUASE TRIPLICOU
Em dezembro de 2019, antes da pandemia, a fatura dos cearenses somava R$ 8,4 bilhões. Em julho de 2026, chegou a R$ 24,4 bilhões, alta de 190%.
Descontada a inflação do período, de 43,9% pelo IPCA, o crescimento real foi de 101%. Ou seja, a fatura dobrou de tamanho em termos reais.
EVOLUÇÃO DA FATURA DO CARTÃO DE CRÉDITO
Saldo das pessoas físicas, em R$ bilhões
|
Período |
Ceará |
Nordeste |
Brasil |
|
Dez/2019 |
8,4 |
55,6 |
282,4 |
|
Dez/2020 |
9,0 |
58,1 |
291,9 |
|
Dez/2021 |
12,9 |
82,3 |
398,8 |
|
Dez/2022 |
16,8 |
106,0 |
500,3 |
|
Dez/2023 |
18,3 |
115,2 |
551,4 |
|
Dez/2024 |
20,1 |
129,7 |
624,6 |
|
Dez/2025 |
24,0 |
153,7 |
738,8 |
|
Jul/2026 |
24,4 |
152,2 |
743,5 |
Fonte: Banco Central do Brasil (SCR.data). Valores nominais.
O QUE TEM DENTRO DA FATURA
A boa notícia é que 74,1% da fatura dos cearenses corresponde a compras à vista e parceladas “sem juros” no lojista.
Os parcelamentos com juros e os saques somam 13,3%, e o rotativo, junto com as faturas em atraso que não foram parceladas, responde por 12,5%, cerca de R$ 3,1 bilhões.
Veja também
INADIMPLÊNCIA
A inadimplência do cartão, medida pela parcela do saldo com atraso acima de 90 dias, chegou a 9,9% no Ceará, o equivalente a R$ 2,4 bilhões. Em 2019, era de 7,2%.
O índice cearense é o segundo menor do Nordeste, maior apenas que o da Paraíba (9,5%), e fica abaixo da média regional (10,4%), mas acima da brasileira (9,2%). Alagoas tem o maior percentual da região, 11,3%.
Por fim, a fatura dos cearenses dobrou em termos reais em menos de sete anos, e cada real que escorrega para o rotativo custa caro.
O cartão de crédito é um excelente servo, mas um péssimo patrão.
Antes de comprar, pense. Antes de parcelar, olhe o orçamento, compare os juros e, se a dívida apertar, negocie cedo.
Grande abraço,
Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.