Viajando com o basquete pelo Brasil

Cesta de basquete no pôr do sol
Legenda: Na minha vivência de mais de 50 anos no meio esportivo, no basquete, conheci e formei muitos jogadores e me sinto muito gratificado em poder contribuir com o sucesso e desenvolvimento de atletas
Foto: Pexels

Viver do esporte não é fácil, mas é o que eu gosto de fazer. Além do meu trabalho dentro das quatro linhas, também sou palestrante. Semana passada estive em Sorriso para dar uma palestra - sim, esta expressão facial tão bonita também dá nome a uma cidade no Mato Grosso, que foi colonizada por imigrantes do sul do país. A cidade tem só 40 anos e é a região que mais produz soja no mundo. Fui muito bem recebido pelo prefeito e sua equipe, passei um dia conhecendo a cidade, que é muito limpa e urbanisticamente bem planejada. 

A estada lá foi intensa, muitas emoções, e me senti muito respeitado. Conhecer diferentes partes do Brasil através do meu trabalho é muito prazeroso, além de conhecer muitos dos 27 estados do nosso país, que mais parecem países em si, conheço pessoas com diferentes histórias, sotaques, culturas e sabores que acrescentam muito para o meu conhecimento e estudo sociológico, através da observação dos indivíduos, de onde vêm, onde moram, suas raízes e seus costumes.

Nas minhas palestras, falo sobre a minha experiência de vida dentro do esporte, do basquete principalmente, sobre relações humanas, performance, aperfeiçoamento profissional e pessoal, e sobre o desenvolvimento espiritual. Faço apresentações para empresas públicas, privadas e instituições de ensino. 

Na palestra de Sorriso, falei sobre iniciação esportiva, que idealmente deve ser iniciada ainda criança, por volta dos 5 anos, quanto mais cedo melhor para o desenvolvimento psicomotor e social. Falei sobre formação de base de jogadores de basquete e do desenvolvimento deles até chegar à categoria profissional, e sobre os fatores mais importantes nesta caminhada.

Na minha vivência de mais de 50 anos no meio esportivo, no basquete, conheci e formei muitos jogadores e me sinto muito gratificado em poder contribuir com o sucesso e desenvolvimento de atletas que mudaram a sua história de vida.

Como exemplo de inclusão social através do basquete, posso falar sobre o meu ex-jogador Leandro Souza de Lima, conhecido pelo apelido Discreto, que jogou comigo na Liga Urbana de Basquete (LUB), que foi a primeira equipe de streetball (basquete de rua) no Brasil. Esse esporte foi mais do que só basquete, foi um movimento raiz de cunho social, que uniu a arte do grafite e o molejo do hip hop sincronizado com o jogo de basquete nas quadras de rua, a competição da modalidade aqui Brasil começou em 2004.

O jogador Leandro é carioca, nascido e criado na Rocinha - maior favela da América Latina - como não conseguia sobreviver como jogador de basquete, conciliava a vida de atleta com o trabalho num hotel, que ficava num bairro de classe média ao lado de onde ele morava. 

Mas Discreto nunca deixou de correr atrás do seu sonho, que era ser jogador profissional de basquete. E este dia chegou para ele, foi o primeiro atleta brasileiro a se tornar profissional da modalidade de Basquete 3x3. Hoje ele mora em Palma de Maiorca, na Espanha, e é um cidadão do mundo, jogou em times da Suíça, do Japão e da Índia. O Basquete 3x3 hoje é um esporte olímpico que, por sinal, estreou nos Jogos de Tóquio 2020.

A cada ano, enfrento uma batalha para seguir pela estrada até as quadras e ter um time competitivo no cenário do basquete brasileiro para disputar o NBB (competição nacional promovida pela Liga Nacional de Basquete), que vai para a sua 14ª edição na temporada 2021/22. 

É um desafio que me faz exercitar a força interna e a paciência para, com serenidade, ter motivação e seguir com sinergia. A dedicação ao meu lado espiritual eleva a minha essência humanista. E vou na contramão dos que tentam vencer a qualquer preço, que vemos acontecer em diversas áreas de trabalho. O meu amor pelo basquete me faz buscar a evolução pessoal e profissional constantemente, trabalhar como técnico de basquete me traz muitas alegrias, apesar das dificuldades extra quadra.

Vivo o agora, o presente, pois vejo o futuro no hoje que plantamos. E construo uma equipe que seja engajada e comprometida com a parte técnica, psicológica e voltada para o bem estar de todos os membros da equipe. E para esta sintonia acontecer, foco nos meus objetivos pré-determinados e, assim, na linha do tempo das minhas metas, me sinto confiante.

É preciso ter coragem para seguir em frente e ultrapassar percalços e lacunas, que devem ser construídas não só por palavras, mas sim por atitudes e honestidade. Com galhardia, busco a vitória do dia a dia, por isso, “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte...”, como na composição de “Divino e Maravilhoso” de Gilberto Gil e Caetano Veloso, que são sábios não só nas palavras, mas nas atitudes.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.