Manter-se saudável em um mundo enlouquecido: reflexões e lições do Setembro Amarelo

Escrito por
Adalberto Barreto producaodiario@svm.com.br
Legenda: Setembro Amarelo é o mês dedicado à prevenção do suicídio, como um convite à reflexão coletiva sobre o valor da vida e o peso de nossas dores incompreendidas e silenciadas
Foto: Jeanedeoliveira22/Shutterstock

Vivemos tempos em que a velocidade dos acontecimentos, a avalanche de informações e a cobrança por resultados conduzem a um estado de inquietação e tensão crescente. O mundo, por múltiplos motivos, parece enlouquecido: crises globais, incertezas políticas, relações conflitivas e expectativas inalcançáveis transformam a existência em um campo de batalha insuportável. Em meio a esse cenário, surge o Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio, como um convite à reflexão coletiva sobre o valor da vida e o peso de nossas dores incompreendidas e silenciadas.

A sociedade moderna, apesar de avanços tecnológicos e conquistas sociais, alimenta uma sensação de vazio e desamparo. A busca incessante por produtividade, reconhecimento e pertencimento pode sufocar o indivíduo, tornando-o refém da competição e do medo do fracasso. Redes sociais, por exemplo, propagam imagens de sucesso que raramente refletem a realidade, estimulando um ciclo de insatisfação e frustração. O trabalho, muitas vezes, ultrapassa os limites do equilíbrio saudável. Jornadas extenuantes, cobranças excessivas e a falta de perspectiva de sentido corroem a saúde mental. Além disso, as relações interpessoais, marcadas por distanciamento e superficialidade, deixam pouco espaço para a escuta verdadeira e o acolhimento.

Em um contexto em que o medo se dissemina, a ansiedade deixa de ser um fenômeno individual para se tornar uma resposta coletiva. Os fatores externos, como brigas entre facções e a crescente sensação de vulnerabilidade, são elementos que alimentam estados de ansiedade coletiva. O cenário contemporâneo torna-se um terreno fértil para o agravamento de sofrimento psíquico.

A campanha do Setembro Amarelo, iniciada em 2015, tornou-se símbolo de resistência ao silêncio sobre o suicídio. Ela traz luz a um tema historicamente estigmatizado, promovendo a escuta, o diálogo e a solidariedade. O suicídio é um fenômeno complexo, resultado de múltiplos fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Não se trata de fraqueza individual, mas de um sofrimento que, muitas vezes, não encontra espaço para ser nomeado e acolhido como pedido de socorro.

A escolha do amarelo como cor do movimento não é aleatória. O amarelo, na simbologia universal, representa o alerta, a luz que se acende no trânsito para reduzir a velocidade e ceder espaço para o outro passar. Na cultura oriental, as cores representam diferentes aspectos da nossa energia e bem-estar. O chacra de cor amarela é conhecido como o Chacra do Plexo Solar (Manipura). Ele é associado à energia pessoal, poder, autoconfiança e controle. O amarelo simboliza a luz do sol, a clareza e a vitalidade. Quando este chacra está equilibrado, ele promove uma sensação de bem-estar, autoestima e capacidade de tomar decisões.

No contexto desta campanha, a cor amarela representa tanto um alerta para nossas condutas, quanto para se libertar de mágoas e ressentimentos guardados. É a cor da bile, líquido amarelo-esverdeado produzido pelo fígado e armazenado na vesícula biliar, essencial para a digestão de gorduras. No domínio das relações afetivas, o aumento de sua produção é desencadeado por sentimentos de incompreensão. Em ambos, os sintomas são os mesmos: dor e desconforto abdominal, azia e sensação de queimação no peito ocasionado pelo refluxo.

O laço amarelo, fixado no peito, é um convite ao acolhimento da dor, fechar ciclos e à esperança de novos recomeços. Simbolicamente, o amarelo ocupa um lugar peculiar no espectro das cores. Nos semáforos, é o sinal de atenção e de diminuir a velocidade; na psicossomática, é a cor da bile, lembrando o valor do perdão como forma de se curar de velhas mágoas e ressentimentos guardados. Nos remete às indigestões afetivas, daquilo que não conseguimos digerir, de mágoas geradoras de ansiedade. No contexto do Setembro Amarelo, essa cor expande seu significado: representa as mágoas ocultas, as dores não ditas, os ressentimentos que se acumulam e, se não forem elaborados, digeridos e decodificados, podem transbordar em sintomas psíquicos como a depressão. Nos convida a cuidar de nossas emoções e relacionamentos que precisam ser trabalhados para evitar consequências mais graves para a saúde mental.

Ao usar o laço amarelo, as pessoas sinalizam não somente apoio à causa, mas também respeito ao sofrimento alheio. É um gesto de abertura para reconhecer que todos, em algum momento, carregam cicatrizes invisíveis, que precisam ser nomeadas para poderem ser refletidas, gerarem consciência e permitir a sua superação. A depressão é um dos principais fatores de risco para o suicídio. Muito além de uma doença, pode ser entendida como um sintoma do mal-estar psíquico contemporâneo. Freud, ainda no início do século XX, já apontava que os sintomas psíquicos comunicam algo do sujeito, são uma mensagem cifrada do que não pode ser dito em palavras. Aquilo que não exprimimos por nossa boca se imprime no corpo. Muito de nossos sintomas psicossomáticos são palavras não ditas, palavras retidas, somatizadas. Poder dar voz a essa dor da alma é o início de um processo de superação e cura.

A depressão denuncia o esgotamento dos sentidos em uma vida fragmentada, denuncia relações desumanizadas, a ausência de espaços de pertencimento autêntico, a insensibilidade a uma dor invisível e indizível. O corpo e a mente encontram, no adoecer, uma forma limite de expressar o que não é ouvido. Em vez de um fracasso individual, a depressão pode ser compreendida como denúncia das condições de vida, do isolamento, do excesso de exigências e da falta de tempo para o lazer e a troca de afeto. Ao perder a capacidade de ter prazer, se perde a alegria de viver.

O que a depressão nos comunica? Que o vazio existencial só pode ser preenchido pela busca de sentido do viver. Aqui, a espiritualidade sadia é um recurso inestimável e abre um campo de possibilidades. A dificuldade de impor limites às exigências de uma sociedade que exige tudo e dá tão pouco. Uma vida solitária marcada por distanciamento interpessoal denuncia a escassez de vínculos saudáveis. A verdadeira solidão não é quando as pessoas se afastam de mim e sim quando eu me afasto de mim mesmo, de meus valores. A invisibilidade, onde não se sente acolhida e nem validada em sua dor.

A principal lição do Setembro Amarelo é o reconhecimento de que o sofrimento faz parte da experiência humana e precisa ser acolhido sem julgamento. Não é necessário esperar que alguém solicite ajuda com sua boca para oferecer um gesto de cuidado. Esse pedido é feito através de atitudes como: apatia, a reclusão e o afastamento dos afazeres e prazeres do dia a dia. Ao perceber esses sinais de sofrimento psíquico, aproxime-se, ofereça uma escuta sem julgamento, leve-a a um profissional se for necessário. O combate ao suicídio começa na promoção da saúde mental, no fortalecimento de redes de apoio e na valorização da escuta.

Como posso ajudar? Primeiramente, aceitar que não é fácil auxiliar alguém depressivo, nos sentimos esgotados energeticamente. Não é possível dar conta de tudo e por isso buscar ajuda quando necessário. Ouvir sem julgar, permitindo que o outro expresse suas dores e angústias. Evite dar conselhos ou admoestar, que só piora o sentimento de não ser entendida. Procure criar vínculos de afeto e confiança. Investir em relações afetivas verdadeiras, que proporcionem acolhimento e pertença.

E você, depressivo, como pode se ajudar? Aceitar esse estado depressivo como um alerta para repensar a vida que você está levando. Reservar momentos para lazer, descanso e atividades que tragam prazer. Refletir sobre o que faz a vida valer a pena, resgatando projetos e sonhos pessoais. Procure superar tabus e preconceitos sobre saúde mental, solicitar ajuda é um bom sinal de que você precisa cuidar de sua saúde mental. Procure fazer novas amizades e assim ampliar sua rede de apoio. Participar de grupos, comunidades e iniciativas solidárias, fortalecendo o sentimento de pertencimento. Participe de rodas de terapia comunitária oferecidas gratuitamente pelo SUS em todo o território nacional.

Manter-se vivo em um mundo enlouquecido demanda coragem, resistência e esperança. O Setembro Amarelo nos lembra que, apesar das adversidades, é possível iluminar as sombras com gestos de empatia, cuidado e solidariedade. O sofrimento não precisa ser um destino solitário; ele pode ser transformado em ponto de encontro, espaço de reinvenção e de sentido. Ao acolher a dor, escutá-la e dialogar com ela, abrimos caminhos para uma existência mais leve, compartilhada e humana.

Se você ou alguém que conhece está em sofrimento, procure ajuda. Falar é sempre um ato de coragem — e nunca de fraqueza. O simples ato de falar sobre o sofrimento, de romper o silêncio que isola cada indivíduo em sua dor, já constitui um passo fundamental na direção do cuidado e da esperança. O reconhecimento das vulnerabilidades humanas pode ser fonte de força, não de vergonha. É ao admitir as próprias limitações, ao buscar apoio e ao oferecer escuta generosa às dores alheias, que a sociedade pode ensaiar respostas mais compassivas às crises contemporâneas.

Promover saúde mental vai muito além de campanhas institucionais; trata-se de um compromisso cotidiano com o autocuidado e o cuidado do outro, com a criação de espaços de diálogo autêntico, onde as angústias possam ser acolhidas sem julgamentos. Pequenos gestos de empatia, palavras de afeto e a valorização da escuta ativa ajudam a tecer uma rede de proteção e pertencimento. O Setembro Amarelo torna-se símbolo de resistência e convite à construção de uma cultura do cuidado, onde o sofrimento não seja visto como fraqueza, mas como parte inerente da existência humana.