O ataque de um pitbull ao próprio tutor, em Fortaleza, voltou a levantar questionamentos sobre o comportamento da raça e a melhor forma de adestrar, cuidar e prevenir situações de risco com esses animais.
Diferentemente do que muitos podem pensar, o American Pit Bull Terrier (APBT) - versão completa do nome da raça pitbull - pode ser um cão bastante dócil e tranquilo para conviver em família, desde que suas necessidades especiais sejam atendidas.
A Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), entidade responsável pela organização e regulamentação da criação de cães no Brasil, pontua, inclusive, que o pitbull é uma boa opção para aqueles em busca de um cão para companhia.
Na busca para entender mais sobre essa raça canina, o Diário do Nordeste preparou um material com orientações sobre convivência segura, legislação e o que é mito ou verdade sobre os pitbulls.
Qual a origem dos pitbulls?
Os primeiros pitbulls surgiram nos Estados Unidos, resultado do cruzamento entre duas linhagens: os antigos buldogues e os terriers, durante o século 19.
O United Kennel Club (UKC) se tornou a responsável por registrar oficialmente a raça, em 1898.
Embora a ideia por trás da criação do animal fosse combinar força, capacidade de mordida e inteligência, o propósito original acabou desvirtuado, segundo o médico veterinário e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Herlon Silva, em entrevista à reportagem.
"Essa raça foi pensada para caça. Mas, posteriormente, foi levada ao combate de tourada e a rinhas com outros animais. Tudo porque apresenta capacidade de atividade física, comportamento e energia maior do que outras", disse.
Com o passar dos anos, o pitbull se tornou uma das principais opções para quem busca um cão disposto a atividades físicas e brincadeiras e que possua um forte instinto predador.
Essa mistura de atributos o transforma em um cão "combatente" e com personalidade forte. Porém, isso não significa que não haja espaço para carinho e respeito por parte dos tutores e de outras pessoas.
"O pitbull é uma raça dócil e não é agressiva por natureza. O comportamento difícil frequentemente reflete o perfil de pessoas irresponsáveis, que adquirem o animal, mas não têm capacidade de criar nenhum tipo de bicho", opinou o veterinário.
Quais cuidados o tutor deve ter?
Para Herlon, também especialista em reprodução animal, é recomendável que os futuros tutores de pitbulls optem pela adoção de filhotes, pois é mais fácil introduzi-los à dinâmica familiar nesta fase da vida.
"Um cão adulto já vai ter a personalidade formada. Há risco de levar para casa um animal que já vivenciou outras situações problemáticas, traumatizantes, que podem resultar em comportamentos agressivos", afirmou.
Devido ao alto nível de energia e ao estresse, os pitbulls devem praticar atividades físicas pelo menos quatro vezes por semana, bem como permanecer longe de espaços pequenos, como apartamentos.
Manter sempre o cachorro confinado dentro de casa, sem sair para brincar e liberar a adrenalina, abre espaço para desvios de comportamento que podem começar de forma simples, como destruição de objetos, e escalonar até situações graves de ataques
Outra dica do veterinário é sempre tentar fazer com que o pitbull esteja em contato com outros cães, inclusive de menor porte, e até com gatos. Caso contrário, "um animal adulto naturalmente tenderá a ver os outros como brinquedos ou presas devido ao seu instinto de caçador".
Além disso, o tutor deve ter consciência do tamanho e porte físico elevados do cão e não conduzi-lo com coleiras apertadas, que possam causar qualquer estresse, especialmente perto de cães menores ou crianças.
Para efeito de comparação, um APBT macho, adulto, tem peso médio entre 15,87 kg e 27,21 kg. Já um Yorkshire Terrier pesa entre 2 kg e 3,2 kg, segundo o padrão oficial da raça.
Espécie estigmatizada
Ainda segundo Herlon Silva, a visão comumente atrelada aos pitbulls é falsa, pois são, por natureza, animais de fácil convivência e gentis com os humanos.
Ele define que a questão da agressividade está diretamente ligada à maneira como eles são tratados e ao ambiente onde vivem.
"Há tutores que não cuidam bem dos seus cachorros e depois estranham quando eles respondem de forma grosseira. Um animal criado de forma inadequada tende a ser um animal mais doente e, portanto, mais estressado", salientou.
O veterinário teme pelo bem-estar dos pitbulls sempre que novos ataques chegam ao conhecimento público, pois considera importante analisar o contexto de cada caso, antes de julgar diretamente a reação do animal.
Por fim, Herlon aconselha tutores a sempre cuidarem bem dos seus pitbulls. Atos como carinho, boa alimentação e atividades físicas constantes ajudam o animal a conhecer o mundo e perder o medo de agir conforme a própria natureza.
Legislação no Ceará
O tema tem sido alvo de diversas leis e projetos de lei em todo o País, inclusive no Ceará. Uma delas é a Lei Estadual nº 13.572, sancionada em 2005.
Nela, ficam proibidos, em todo o Ceará e durante quase todo o dia, "a circulação e o porte, em áreas e vias públicas, de cães da raça pitbull, bem como de raças que resultam do cruzamento do pitbull".
A lei abre exceção para que os cães circulem em espaços públicos como "logradouros, jardins e parques públicos" apenas entre o fim da noite e o início da madrugada, das 23h às 4h.
A legislação também proíbe a permanência de cães da raça nas proximidades de escolas e hospitais, sejam eles públicos ou privados.
O não cumprimento das normas impostas pela lei pode acarretar a apreensão do cão, além de multas que variam de R$ 50 a R$ 800 — que podem ter o valor dobrado em caso de reincidência —, além do ressarcimento dos custos decorrentes da apreensão e da guarda do animal.