Saiba o que é o Círculo de Fogo do Pacífico e qual a relação com os terremotos

A Colômbia registrou um terremoto nesta segunda-feira (10).

Escrito por Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
10 de Agosto de 2026 - 21:05

região do Círculo de Fogo do Pacífico é uma área no mapa que concentra a maior quantidade de terremotos do mundo. Por esse motivo, países como Japão, Chile e México, que integram essa região, costumam apresentar mais atividade sísmica do que outros. A região ainda reúnce cerca de 75% dos vulcões do mundo.

Dentre os países que integram esse Círculo de Fogo, está a Colômbia, que registrou um terremoto de magnitude 7,4 nesta segunda-feira (10). Apesar de o tremor ter ocorrido a uma profundidade de cerca de 100 quilômetros, não foi emitido um alerta de tsunami.

O Círculo de Fogo do Pacífico é uma região que concentra diversos países.
Legenda: O Círculo de Fogo do Pacífico é uma região que concentra diversos países.
Foto: Divulgação/Wikimedia Commons.

Os terremotos acontecem porque, quanto mais perto o país estiver das chamadas bordas de placas tectônicas, maiores são as chances de apresentar os tremores.

Ao Diário do Nordeste, o geógrafo e doutor em geografia Samuel Miranda explicou por que a região concentra tantos terremotos, detalhando os países que integram o Círculo de Fogo, assim como os riscos de tsunami nesses lugares. 

O que é o Círculo de Fogo do Pacífico?

O Círculo de Fogo do Pacífico, também conhecido ou Anel de Fogo, é uma zona de aproximadamente 40 mil quilômetros de extensão que contorna o Oceano Pacífico. A zona tem formato de ferradura e se estende por: 

  • Costa oeste das Américas do Sul, Central e do Norte; 
  • Alasca, nos Estados Unidos;
  • Costa leste da Ásia, passando por Rússia, Japão e Filipinas;
  • Oceania, alcançando a Nova Zelândia.

"Ele recebe esse nome porque abriga aproximadamente 75% dos vulcões ativos e latentes do mundo. São mais de 450 vulcões ativos espalhados por essa rota. Além disso, é a região onde ocorrem cerca de 90% dos terremotos do planeta. É, literalmente, uma borda terrestre que vive acesa geologicamente".
Samuel Miranda
Geógrafo

Por que essa região concentra tantos terremotos?

Para entender os terremotos, é preciso compreender as placas tectônicas. Segundo Samuel, a crosta terrestre não é uma casca inteira, mas está fragmentada em vários pedaços. Essas grandes rochas, conhecidas como placas, flutuam sobre o manto da Terra, camada pastosa logo abaixo. 

O Círculo de Fogo contorna a grande Placa do Pacífico, tendo ainda outros menores na mesma região. Nos limites entre as placas, elas podem acabar se chocando de frente, ou deslizando lateralmente umas em relação às outras.

"Ocorre um processo que chamamos de subducção, quando duas placas se chocam de frente e a placa oceânica (que é mais densa e pesada) mergulha por baixo da placa continental. Esse mergulho gera um atrito e uma pressão colossais. As rochas vão acumulando essa energia por décadas ou séculos até que, em um determinado momento, elas não resistem e se rompem. A liberação repentina dessa energia acumulada é o que sentimos na superfície como um terremoto", detalha Samuel.

Os países no Círculo de Fogo do Pacífico costumam registrar terremotos.
Legenda: Os países no Círculo de Fogo do Pacífico costumam registrar terremotos.
Foto: JOAQUIN SARMIENTO / AFP.

Quais países fazem parte do Círculo de Fogo?

Dentre os países que fazem parte do Círculo de Fogo, estão:

  • Chile;
  • Peru;
  • Equador;
  • Colômbia;
  • Panamá;
  • Costa Rica;
  • Nicarágua;
  • Honduras;
  • El Salvador;
  • Guatemala;
  • México;
  • Estados Unidos (incluindo o Alasca);
  • Canadá;
  • Rússia (região da Sibéria e península de Kamchatka);
  • Japão;
  • Taiwan;
  • Filipinas;
  • Indonésia;
  • Malásia;
  • Timor-Leste;
  • Papua-Nova Guiné;
  • Ilhas Salomão;
  • Vanuatu;
  • Tonga;
  • Nova Zelândia;
  • Samoa.

Atividades sísmimas não são uniformes em todos os países

Em cada país ou região, são registrados diferentes níveis de atividade sísmica. Conforme o especialista, esse impacto não é uniforme porque a forma como as placas interagem varia de um trecho para outro.

  • Zonas de Colisão Direta (Subducção Rápida): Países como o Chile e o Japão estão situados onde as placas se chocam de frente de maneira muito rápida e profunda. Isso gera os terremotos mais potentes da história (chamados de megaterremotos), além de cadeias de vulcões muito ativas (como os Andes e o Monte Fuji).
  • Limites Laterais (Transformantes): Na costa oeste dos Estados Unidos (Califórnia), as placas não estão colidindo de frente, mas sim deslizando lateralmente uma pela outra (a famosa Falha de San Andreas). Ali ocorrem muitos terremotos destrutivos, mas a dinâmica não gera vulcanismo ativo, pois nenhuma placa está afundando para derreter e virar magma.

Qual a relação entre o Círculo de Fogo e terremotos como os registrados no México?

Neste ano, o México registrou dois grandes terremotos, sendo sentido principalmente na região sul do país.

Ao Diário do Nordeste, Samuel explicou que o México está localizado no coração do Círculo de Fogo, uma das regiões geologicamente mais complexas e ativas da Terra. "O país fica espremido sobre a interação de nada menos que cinco placas tectônicas: a Norte-Americana, a de Cocos, a do Pacífico, a de Rivera e a do Caribe", afirmou.

Conforme Samuel, os terremotos mais violentos e destrutivos do México ocorrem por conta da subducção da Placa de Cocos, localizada no fundo do oceano, sob a Placa Norte-Americana, onde fica o continente.

"À medida que a Placa de Cocos força sua entrada por baixo do território mexicano, ela deforma a crosta e gera falhas geológicas imensas, tornando os sismos de grande magnitude uma realidade histórica e constante para a população local".
Samuel Miranda
Doutor em geografia

E a Venezuela, faz parte do Círculo de Fogo do Pacífico?

Não. No entanto, apesar de a Venezuela não fazer parte do Círculo de Fogo do Pacífico, ela registra terremotos frequentes por estar situada na zona de fronteira entre a Placa do Caribe e a Placa Sul-Americana

"A movimentação relativa entre essas duas placas gera grandes sistemas de falhas geológicas ativas no norte do país (como as falhas de Boconó, San Sebastián e El Pilar). O deslocamento dessas falhas terrestres é o que provoca a atividade sísmica venezuelana", detalhou Samuel.

Terremotos e vulcões estão sempre relacionados?

Os terremotos e vulcões costumam ser eventos relacionados, mas podem ocorrer de modo totalmente independente.

  • Terremotos sem vulcões: existem terremotos que ocorrem pelo simples deslocamento de falhas geológicas sem ter o envolvimento de vulcão, como os registrados na Califórnia ou no Haiti;
  • Vulcões e terremotos: o nascimento ou a ativação de um vulcão sempre gera tremores de terra. Isso porque à medida que o magma sobe em direção à superfície, ele precisa "abrir caminho" quebrando as rochas subterrâneas, o que gera pequenos terremotos locais (chamados de microssismos vulcânicos).

Os terremotos e vulcões costumam ser eventos relacionados, mas podem ocorrer de modo independente.
Legenda: Os terremotos e vulcões costumam ser eventos relacionados, mas podem ocorrer de modo independente.
Foto: Shutterstock/Lukas Gojda.

O Círculo de Fogo pode provocar tsunamis?

Sim. O Círculo de Fogo do Pacífico é o maior gerador de tsunamis do mundo. Isso porque, quando um terremoto de grande magnitude ocorre no fundo do mar, o deslocamento das placas tectônicas pode movimentar as águas, funcionando como um pistão que empurra ou puxa a coluna de água que está acima. 

Assim, essa perturbação cria ondas que viajam pelo oceano profundo em velocidades extremamente altas, superando 800 km/h.

"Quando essas ondas se aproximam das praias e encontram águas mais rasas, elas diminuem de velocidade e ganham altura, invadindo o continente com enorme força destrutiva. O tsunami que atingiu o Japão em 2011 é um exemplo clássico desse processo", afirma Samuel.

O Brasil pode ser afetado pelo Círculo de Fogo?

O Brasil não pode ser afetado de forma direta e destrutiva, como acontece no Japão, Chile ou México. Isso porque o Brasil possui uma das posições geográficas mais estáveis do mundo, já que está localizado bem no centro da Placa Sul-Americana, estando a milhares de quilômetros de distância de qualquer borda. 

Dentre os reflexos sutis que podem acontecer, estão:

  • Sismos profundos: quando ocorre um terremoto muito forte e profundo na Cordilheira dos Andes, as ondas sísmicas podem viajar pela placa e fazer com que prédios altos balancem levemente em cidades brasileiras, como São Paulo ou Brasília, mas sem força para causar desabamentos ou danos estruturais; 
  • Tsunamis: o risco de um tsunami originado no Pacífico atingir a costa brasileira é geologicamente nulo, pois todo o continente americano funciona como um escudo físico intransponível.

O Círculo de Fogo pode desaparecer?

Sim, mas apenas em uma escala de tempo geológica muito distante, de centenas de milhões de anos.

"Estima-se que, daqui a aproximadamente 200 a 250 milhões de anos, as Américas e a Ásia vão se colidir, fechando completamente o Oceano Pacífico", afirma. Com isso, o Círculo de Fogo dará lugar a uma gigantesca nova cadeia de montanhas interior.

*Samuel Miranda é geógrafo e professor da Unifanor Wyden. O profissional também é doutor em geografia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece).