Por cafés, por praças, por museus. É possível fazer vários roteiros em Fortaleza, inclusive um menos convencional: por esculturas gigantes de santos católicos. Sete monumentos dessa natureza integram a paisagem da Capital, e um oitavo está a caminho – dedicado à Nossa Senhora da Conceição, no Conjunto Ceará. Mas desbravá-los vai além do componente religioso.
A opinião é de Emanuel Freitas, professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisador de religiões. Segundo ele, à medida que devoções a santos se espalharam pelo mundo, a presença dessas entidades também se impõe como componente físico – o que justifica, por exemplo, uma escultura de Nossa Senhora de Fátima não apenas em Fátima, Portugal, onde o culto à santa originalmente começou, mas também em Fortaleza.
“Foi a forma que a Igreja, unida ao poder público local, encontrou de permanecer como marca da identidade religiosa daquele lugar. Sendo marca da identidade religiosa, há também aí uma marca cultural”, situa. “De repente, você une um monumento a outro, e constitui uma certa rota, certo caminho de devoção”.
Do Montese ao Mucuripe, passando pelo Vila Velha e o Panamericano, a capital do Ceará não deixa a desejar nesse quesito.
Na percepção do estudioso, cada vez mais essas imagens gigantes se transformam em insígnias de determinados espaços – como não associar a estátua de Santa Edwiges à Avenida Leste-Oeste? –, o que faz com que elas se mesclem à paisagem urbana “sem grandes problematizações”, inclusive por quem não professa a fé católica.
Por outro lado, o professor destaca: “Em tempos de diminuição demográfica do catolicismo, parece haver um investimento numa visibilidade maior de monumentos assim, tentando resgatar a ideia do catolicismo como cultura brasileira. A religião católica já é visível pelos templos, festividades e, com o tempo, também por essas esculturas gigantes. Elas inserem as cidades inclusive na esfera econômica, a partir do turismo religioso”.
Como começou a tradição dos santos gigantes em Fortaleza?
O costume de erguer grandes obras em concreto para homenagear santos católicos dialoga sobretudo com o turismo de matriz espiritual iniciado na virada do milênio.
“Houve muito investimento no programa de municipalização – e depois regionalização – do turismo entre os governos de Fernando Henrique Cardoso e no primeiro governo do presidente Lula, favorecendo incentivos ao fortalecimento dos equipamentos locais como centro de atração de visitantes”, contextualiza Christian Dennys Monteiro, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Professor na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP).
O pontapé em solo cearense, de acordo com ele, foi a imagem de São Francisco de Assis, inaugurada em 2005, inspirada na “competição” com o tamanho da escultura de Padre Cícero, de 1969, no Horto de Juazeiro do Norte. Enquanto a primeira tem 30 metros de altura, a segunda possui 27 metros.
“Em seguida, vieram as imagens de Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora da Saúde, Santa Edwiges e Nossa Senhora de Fátima, em Fortaleza, e várias outras no interior do Estado”, enumera.
Para Christian, baseado na dissertação de Marcos Rocha – estudante orientado pelo professor no mestrado em 2018 – o centro de inspiração para essa prática dialoga com o totemismo sacroprofano. O termo está relacionado à unificação da projeção, no espaço geográfico externo, dos valores simbólicos da pós-modernidade.
“Em cada estátua há um misto de arranha-céu da era urbano-industrial e uma volta ao esplendor do passado idealizado. O que ainda ajuda a fechar o peso simbólico é o fato de essas estátuas servirem de cenário perfeito para as selfies dos cliques fotográficos e vídeos voltados à projeção do fiel na rede social”, completa o pesquisador.
Fortaleza tem uma Pastoral do Turismo
Não à toa, a Arquidiocese de Fortaleza oficializou, em maio deste ano, a criação da Pastoral do Turismo (Pastur). Lançada durante o Seminário de Turismo Religioso, com apoio de órgãos públicos do turismo, da rede hoteleira e do arcebispo, Dom Gregório Paixão, a iniciativa entra em sintonia com a procura cada vez maior de turistas pela capital cearense.
“O Estado do Ceará, e, principalmente Fortaleza, é uma das principais rotas turísticas do País. A Pastoral do Turismo vem para mostrar que a Igreja não está alheia a essa realidade”, justifica padre Jean Douglas Miranda de Sousa, assessor das Pastur.
“Pelo contrário: vem servir e dar suporte espiritual a todo o público, desde profissionais, empresas, órgãos ou agentes públicos que desempenham algum papel nessa área e, principalmente, ao turista que chega em nossa cidade em busca de lazer sem perder a espiritualidade ou vínculo com o sagrado, por meio dos templos, festas ou celebrações eucarísticas”, prossegue.
Ainda em fase de implantação, a pastoral pretende ir além. Entre os objetivos, estão desenvolver ações de capacitação na área da religiosidade – sobre História, templos e espiritualidade – nos locais de visitação, tanto para agentes turísticos quanto pastorais.
“Imagens gigantes de santos foram construídas para homenagear e marcar locais que já são visitados, de peregrinação e devoção. Elas têm o intuito de autenticar ainda mais esses lugares, do que serem elas os motivos de visitação”, explica padre Jean Douglas.
Ainda assim, quando questionado se existe planejamento para trabalhar o turismo religioso a partir desses monumentos colossais, a resposta é clara: “A priori não, pois as imagens são referenciais de locais já visitados, e não o inverso. Por exemplo, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, construída na praça em frente ao Santuário que leva o nome dela, foi construída para homenageá-la, pois o Santuário já é uma rota de grande movimentação de devotos”.
Nossa Senhora domina esculturas em Fortaleza
Aqui cabe um adendo: especificamente no caso do de Fortaleza, há concentração quase absoluta de imagens gigantes de Nossa Senhora, em contraste com maior pluralidade de santos no interior do Estado.
A percepção, do professor Emanuel Freitas, vai ao encontro de um dado presente no Censo Demográfico Religiões 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): o Ceará é o segundo Estado mais católico do Brasil, o que ajuda a compreender determinados movimentos no território.
“Essa presença católica nas ruas, nas praças e a partir da construção de mais monumentos assim, garante a retomada da legitimação do catolicismo no espaço público. Recorda à população, a todo momento, que, afinal, somos uma sociedade cristã católica, e propaga a ideia de que o catolicismo é a ‘religião do brasileiro’”, examina.
“A imagem, a escultura, são marcas do catolicismo. Por isso mesmo, a partir da Reforma Protestante, uma das primeiras dimensões que Lutero vai desenvolver é a ideia da iconoclastia – como se esses santos católicos fossem semelhantes a deuses do Antigo Testamento, que não eram do agrado de Deus. De todo modo, a tradição católica da confecção de imagens para representar tanto a Virgem Maria como o próprio Jesus Cristo, e os santos sempre estiveram nos templos”.
Emanuel cita, como exemplos, as grandes catedrais do Brasil, sobretudo barrocas e antigas, nas quais há imagens de santos em tamanho semelhante à estatura de pessoas, mas no interior dos templos. Pouco a pouco, essas mesmas obras deslocaram-se para o exterior das igrejas, especificamente para a frente delas, a fim de demarcar a dimensão da presença do sagrado.
“Obviamente, à medida que o tempo foi passando, esses locais foram se transformando em lugares de peregrinação. No caso brasileiro, talvez o monumento mais simbólico seja o Cristo Redentor. Apesar de não estar em um lugar de devoção, serve para marcar uma identidade do Rio de Janeiro e do próprio País, entregue aos braços de Cristo; no caso do Ceará, não: foi-se juntando uma imagem a outra, e percebendo, na junção do poder público e do poder eclesiástico, a possibilidade de explorar certa rota”.
Prova disso é a Rota do Turismo Religioso do Ceará em 12 cidades do Estado, com três pontos na Capital, conforme lei do Governo estadual sancionada em 31 de maio de 2022.
Embora com a menção a “qualquer religião”, todos os caminhos da rota estabelecidos até agora são católicos, algo ponderado por Emanuel Freitas. Do ponto de vista da Igreja, ele percebe como interessante o fato de a instituição ter condições de se visibilizar ainda mais. Em outro espectro, trabalhos como as esculturas gigantes expõem, conforme salienta, “série de problemáticas”.
“No mais das vezes, elas foram construídas com dinheiro público ou com iniciativa pública e privada. Ainda assim, mesmo que não seja, acabam criando despesas para o poder público porque precisam de manutenção. Além disso, começa uma espécie de corrida pela monumentalização da fé por parte de outros credos para tentar garantir a ocupação do espaço público com os próprios monumentos. Cada um tem um para chamar de seu”, reflete.
A seguir, você confere as esculturas gigantes de santos católicos em Fortaleza localizados em diferentes bairros da cidade, listadas a partir da mais alta.
Nossa Senhora da Assunção
Com 15 metros de altura, foi a primeira estátua católica a ser erguida em Fortaleza e segue como a maior. Representa a imagem da padroeira da Capital; está localizada na Avenida Dom Aloísio Lorscheider, no bairro Vila Velha; e é fruto das mãos do artista plástico Francisco José Alencar Diniz, o Franciné Diniz – o mesmo da imagem de São Francisco, em Canindé.
A inauguração ocorreu em 13 de agosto de 2007. No documento da Câmara Municipal de Fortaleza, consta: “a execução da obra ficará a cargo da Secretaria Executiva Regional I, cujas despesas serão custeadas por verbas oriundas de convênios, doações e complementadas, se necessário, com recursos do erário municipal”. Conforme moradores do local, a manutenção na obra é feita anualmente.
Nossa Senhora de Fátima
De longe, a mais famosa da Capital. Com 14 metros, foi erguida por Franciné Diniz e idealizada pelo vereador Walter Cavalcante, que elaborou um projeto de lei para a construção da obra. Na época, a Câmara Municipal aprovou, por unanimidade, o projeto e a emenda que garantiu os recursos para a construção. Anos depois, a obra se tornaria um dos epicentros da fé católica fortalezense.
De acordo com padre Ivan de Souza, pároco do Santuário de Nossa Senhora de Fátima – localizado na Avenida 13 de maio – a Igreja sempre solicita ajustes no monumento à Prefeitura de Fortaleza e ao Governo do Estado. Neste momento, a paróquia está inclusive com ofício pronto para a Regional IV a fim de prover reparos na coroa da imagem. Maio e outubro são os meses costumeiros de conserto na obra.
Nossa Senhora Aparecida
Está no Montese, em plena Avenida Professor Gomes de Matos, outra das maiores estátuas católicas da Capital – a imagem em si da santa, embora não tão grande, é sustentada por uma estrutura de 14 metros. Inaugurada em outubro de 2009, mesmo mês de celebração da padroeira, o monumento em homenagem a Nossa Senhora Aparecida foi idealizado pelo padre Severino Guedes, nome importante do catolicismo no Montese.
Diferentemente da maioria das esculturas gigantes aqui apresentadas, esta tem manutenção realizada pela própria paróquia – sobretudo próximo à festa em homenagem à santa, em 12 de outubro – e foi erguida para ficar visível não apenas para os endereços mais próximos da Matriz, mas igualmente para ruas um pouco mais distantes.
São Pio X
A única escultura com representação masculina de santo católico em Fortaleza fica no bairro Panamericano, na Travessa Acre. É a de Pio X – primeiro papa, na história contemporânea, proveniente da classe camponesa, com formação exclusivamente pastoral. A estátua tem 11,5 metros, e é de fibra com armação de ferro e pintura automotiva.
Feita por um artista plástico de Juazeiro do Norte, tem manutenção realizada pela Prefeitura.
Santa Edwiges
Em homenagem ao dia de Santa Edwiges, comemorado em 15 de outubro, foi inaugurada, no bairro Moura Brasil, uma imagem da santa com 11 metros de altura. O momento aconteceu em 2008, e até hoje marca a paisagem da Avenida Presidente Castelo Branco (Leste-Oeste). Feito a de Nossa Senhora de Fátima e da Assunção, esta também foi erguida por Franciné Diniz.
O Santuário de Santa Edwiges conta com projeto paisagístico desenvolvido pela Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização (Emlurb) – não sem motivo, a manutenção da imagem é feita pela Prefeitura.
Nossa Senhora de Nazaré
Também no bairro Montese, está a estátua gigante de Nossa Senhora de Nazaré. Esta tem história de idas e vindas. Em 2024, a primeira versão dela – instalada na praça Padre Elvis Marcelino – caiu após o monumento apresentar rachaduras na base. Conforme paroquianos, a queda foi estimulada por uma forte rajada de vento.
A substituição aconteceu, mas entregou uma imagem menor – a anterior, de 14 metros, deu lugar a uma de aproximadamente oito metros. Mais reforçada com concreto, a fim de evitar queda, a nova versão segue o mesmo objetivo da primeira: homenagear a igreja e a população, bem como selar o local como sede do Círio de Fortaleza, tradicional festa dedicada à padroeira, no terceiro domingo de outubro.
Nossa Senhora da Saúde
Junto ao monumento de Nossa Senhora Aparecida, também não é administrado pela Prefeitura. Neste caso, é mantido por um grupo de comerciantes e pelo vereador do bairro, John Monteiro, responsáveis pela construção da obra.
A reportagem buscou a paróquia para ter conhecimento sobre o tamanho da estátua, mas não obteve retorno. Sabe, contudo, que a obra passa por reparos anuais na pintura. A estrutura tem maior firmeza por ser de concreto, e os únicos cuidados necessários nela são as trocas das mãos da santa, feitas de gesso.