As rodovias federais do Ceará registraram 561 acidentes no primeiro semestre de 2026. O número representa uma redução de 20,3% quando comparado ao mesmo período do ano passado. Apesar da queda, os dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) apontam que a letalidade nas BRs que cortam o Estado aumentou.
Somente nestes seis primeiros meses, 87 pessoas faleceram nas estradas federais. Contudo, apesar de a quantidade ser inferior à de 2025 — quando houve 91 óbitos —, o índice é mais expressivo quando se analisa a taxa de mortalidade a cada 100 sinistros: enquanto no ano passado havia quase 13 vítimas para cada centena de acidentes, em 2026 há mais de 15 óbitos para a mesma proporção.
O crescimento das mortes acompanha uma tendência observada nas vias do Ceará desde o ano passado, quando houve o maior número de óbitos no trânsito em 8 anos, conforme dados do Ministério da Saúde. Ao todo, 1.936 vidas foram perdidas no período, principalmente em metrópoles.
Apesar da alta, o balanço da PRF, que considera o intervalo de 1º de janeiro a 30 de junho em ambos os anos, aponta que todos os indicadores do Estado — sinistros, sinistros com morte, sinistros graves, feridos e óbitos — apresentaram queda em 2026. No entanto, o resultado é considerado “alarmante” pela corporação, como explica o chefe do Núcleo de Comunicação Social (Nucom) da instituição, Lucas Mourão.
Toda queda é bem-vinda, é óbvio, mas são números ainda muito altos. Então, tem uma redução no primeiro semestre, mas a redução no total de óbitos é só de 4%. Então, caíram muitos acidentes, mas eles ainda continuam matando muita gente. Não foi proporcional.”
Um caso recente que ilustra a fala do gestor foi o grave sinistro ocorrido em Canindé, no mês de julho, quando duas pessoas morreram e quatro ficaram feridas após dois veículos colidirem frontalmente na BR-020.
O que causa as mortes nas BRs cearenses?
Como a malha federal no Ceará é composta majoritariamente por rodovias com médio ou baixo Índice de Perdão, o sistema rodoviário apresenta menos elementos estruturais capazes de atenuar os impactos dos sinistros para os usuários. Criado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), o indicador avalia o quanto as características físicas das estradas podem influenciar na gravidade dos acidentes.
Ainda segundo a ferramenta, apenas 69 dos 2.250 quilômetros das BRs do Estado oferecem infraestrutura suficiente para reduzir as consequências de acidentes de trânsito, sendo a maioria localizada na Região Metropolitana de Fortaleza.
Apesar de a infraestrutura influenciar na quantidade de óbitos no Estado, Lucas Mourão afirma que as falhas humanas são o principal fator que influencia a taxa de mortalidade local.
A relação é reforçada pelo ranking da PRF sobre os principais elementos que causaram ocorrências com mortes nos primeiros seis meses deste ano nas BRs cearensenses, detalhado abaixo:
- Ausência de reação do condutor ou reação tardia ou ineficiente;
- Acessar a via sem observar a presença de outros veículos;
- Ultrapassagem indevida ou transitar na contramão;
- Velocidade incompatível.
Quando a gente analisa os nossos dados, o fator humano tem sido o principal responsável pelos acidentes. Ultrapassagem indevida, ausência de reação, ingestão de álcool e velocidade são as principais causas de sinistros com óbitos.”
A imprudência é refletida nas multas aplicadas no período: mais de 56 mil, conforme o gestor da corporação. “É um número absurdo se levar em consideração apenas as rodovias federais. E dessas, mais de 19 mil foram por excesso de velocidade”, detalha à reportagem.
No total, a PRF fiscalizou 86.628 pessoas e 81.138 veículos, além de realizar 68.076 testes de alcoolemia no primeiro semestre de 2026. As ações, segundo a corporação, foram direcionadas, entre outros aspectos, para condutas de maior risco à segurança viária, como o excesso de velocidade, as ultrapassagens indevidas e a condução de veículos sob efeito de álcool.
Rodovias federais com mais acidentes no Ceará
Dentre as BRs que cortam o Ceará, a 116 lidera em número de acidentes nos primeiros seis meses deste ano, conforme o balanço da corporação. Com pouco mais de 540 quilômetros de extensão, a via cruza o Estado, de Fortaleza ao município de Penaforte, no Cariri, e registrou 253 sinistros no período.
A BR-222 vem logo em seguida. Ligando a Capital à Serra da Ibiapaba, a rodovia acumula 166 ocorrências no intervalo. O top três é encerrado pelas 80 ocorrências da BR-020, a mesma em que ocorreu o grave acidente que vitimou duas pessoas em Canindé, citado anteriormente nesta matéria.
Abaixo, confira as BRs cearenses com maior número de acidentes, segundo a PRF:
- BR-116: 253 sinistros;
- BR-222: 166 sinistros;
- BR-020: 80 sinistros;
- BR-304: 29 sinistros;
- BR-122: 15 sinistros;
- BR-230: 8 sinistros;
- BR-226: 3 sinistros;
- BR-402: 3 sinistros;
- BR-403: 1 sinistro;
- Trechos sem identificação de BR no sistema: 3 sinistros.