Alienação política

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Redação producaodiario@svm.com.br

Com a proximidade da realização de eleições para os mais importantes cargos executivos e legislativos do País, volta à discussão o crônico gênero de comprometimento de inúmeros cidadãos em relação ao exercício de votar, posto em xeque por pesquisas que revelam preocupante falta de consciência no eleitorado. Numa demonstração de alienação política, em torno de 65% dos eleitores do País não se lembram em quem votaram, no pleito passado, para lhes representar no Poder Legislativo.

Analistas debruçados sobre essa anomalia política, classificada como amnésia eleitoral, denunciam nela a carência de espírito democrático, responsável direta pelo falta de acompanhamento dos votantes em relação ao desempenho dos candidatos que eles próprios escolheram. Em grande parte dos casos, segundo constatam estudos a respeito do tema, o processo de esquecimento decorre de votos conseguidos por motivos aleatórios, de caráter estritamente circunstancial e por motivos quase totalmente alheios aos imprescindíveis critérios para a escolha adequada de um representante político do povo.

No citado círculo vicioso, os compromissos de voto são assumidos em troca da concessão dos mais diversos, e por vezes exóticos, tipos de favores. Entre eles, a concessão de empregos, bolsas de estudo, financiamento de times esportivos amadores, doação de dinheiro em espécie e presentes pessoais. A distribuição de óculos e dentaduras, vista por alguns como fato folclórico do passado, infelizmente ainda faz parte da realidade em certos remanescentes de antigos currais eleitorais, como esses redutos de alienação eram denominados pejorativamente por eleitores independentes.

Mais grave ainda se afigura essa realidade quando se observa que tal câmbio de interesses eleitoreiros ocorre, indistintamente e nas mesmas proporções, em faixas contrastantes de baixo e de alto poder aquisitivo, mudando apenas certas condições de troca, tanto nos Estados mais pobres quanto naqueles de maior nível socioeconômico e de mais elevados níveis de instrução.

A troca do voto por benesses de toda espécie e o subsequente esquecimento dos políticos favorecidos com a barganha estão presentes desde os mais recônditos grotões nordestinos às mais desenvolvidas áreas do rico Sudeste. Note-se que o voto permutado nessas circunstâncias nunca leva em conta o partido ao qual o candidato possa pertencer, não obedecendo, portanto, aos critérios de uma apropriada avaliação qualitativa.

Pode-se concluir que tão danoso desvirtuamento do sentido de cidadania e do conceito de estado democrático contribui, de modo sensível, para o baixo nível de atuação daqueles que deveriam, por pressuposto, se esmerar em cumprir os básicos padrões de ética e honestidade no cenário político. A cada dia, registram-se constrangedores comportamentos de representantes notoriamente despreparados para o cumprimento da função pública que lhes foi delegada.

Sempre deve ser enfatizado que o direito ao voto, embasado na consciência cívica de exercê-lo com a devida isenção, é um atributo ligado ao futuro do País, sob os mais variados aspectos, e imprescindível à consolidação da credibilidade, usualmente tão posta à prova, dos que exercem mandatos outorgados por soberana decisão popular, requisito fundamental dos regimes democráticos. Torna-se patente que o baixo índice de politização de boa parte dos eleitores constitui um problema comprometedor das instituições democráticas.