Editorial: O peso da poluição

Os habitantes dos grandes centros urbanos já se acostumaram a ver e sentir, nos horários de tráfego pesado, a fumaça transformar o ar, tornando-o pesado de monóxido de carbono e difícil de respirar. Tais momentos deixam visível um problema grave, que assola a quase totalidade das áreas povoadas do mundo. De acordo com estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 90% da população mundial vivem em áreas onde os níveis de poluição do ar estão acima daqueles estabelecidos como padrões de segurança.

A poluição atmosférica põe em risco não apenas a saúde das pessoas, mas também os habitats naturais do planeta. O efeito é também negativo para economia global, já que os gastos com saúde e bem-estar, para minimizar os malefícios do ar carregado de impurezas, alcançam a marca de US$ 5 trilhões/ano.

Relatório encomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU), e divulgado neste ano, trouxe uma projeção da tragédia humana. O GEO (Global Environment Outlook), que envolveu 250 cientistas de 70 países, durante seis anos de pesquisa, apontou que a poluição do ar mata entre 6 e 7 milhões de pessoas por ano - o número é mais de quatro vezes maior do que o das mortes causadas pela falta de acesso à água potável, que figura entre as maiores crises humanitárias do presente.

Cerca de 25% das mortes prematuras em todo o mundo são atribuídas ao efeito sobre o organismo de substâncias nocivas presentes na atmosfera, produzidas por atividades humanas.

O planeta também sente o peso da poluição atmosférica, principal responsável pelo aquecimento global. O impacto negativo se estende pelas áreas terrestres, marinhas e costeiras; causa perturbações em ecossistemas reguladores, fundamentais para a qualidade de vida global das sociedades humanas e de outras espécie; e para a qualidade das terras cultivadas e dos oceanos.

Para dimensionar o problema, foi elaborado o Relatório de Avaliação Global sobre Biodiversidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O documento recebeu o aval da comunidade internacional e foi lançado durante o plenário da Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).

O Relatório enfatizou a necessidade de se investir em ações coletivas urgentes, de caráter transnacional, para conter os efeitos danosos sobre a natureza e viabilizar novas formas, sustentáveis, de se relacionar com o meio ambiente. Apesar da gravidade, a situação não é irremediável, de acordo com os cientistas, desde que se promova a redução das emissões de CO2 na atmosfera. E a recomendação serviu de base para o Acordo de Paris de 2015, assinado na ocasião por representantes brasileiros. A meta planetária é de limitar o aquecimento global a um acréscimo de 2ºC até o ano de 2100, na comparação com os índices da era pré-industrial.

A postura que se requer das nações é semelhante, ainda que em escala bem mais ampla, daquela que se espera das pessoas, em todas as partes do mundo: que se avance na adoção de práticas sustentáveis. Reduzir a poluição do ar passa, mais do que por soluções tecnológicas, pela transformação de mentalidade.


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