Respeito à mística 'daquelas camisas'
Leia a coluna de Tom Barros
Um dos mais brilhantes jornalistas que conheci foi Blanchard Girão. Um talento na arte de escrever. Um gigante da comunicação. Um homem simples e humilde de coração. Um político de conduta ilibada, que tremeria de vergonha neste mundo sujo de hoje. Blanchard Girão, um apaixonado pelo futebol. Pelo Fortaleza.
Dele o famoso artigo sobre a “mística daquelas camisas”. Resumindo: ele entendia que havia algo transcendental no manto tricolor. E, assim, mesmo nas maiores adversidades, a força divina e misteriosa da camisa do Fortaleza era capaz de transformar em retumbantes vitórias o que parecia uma derrota inevitável.
A camisa do Fortaleza, que inspirou Blanchard, foi a tradicional com listras horizontais brancas, azuis e vermelhas, tendo um escudo do time à altura do coração. A camisa da fé, da força interior, da força mental, do sagrado, da devoção, uma espécie de inexplicável ligação entre o visível e o invisível.
De repente, vejo o time do Fortaleza usando uma camisa toda azul. É a modernidade. Respeito os novos tempos, mas discordo. Nada a ver com a camisa que inspirou o saudoso Blanchard Girão. Em tudo deve haver limite.
Modernidade
Hoje em dia, os times perderam o respeito que deveriam ter às tradições de seus uniformes. Vi o Santos todo de azul. Vi o Vasco descaracterizado, sem a listra transversal. Vi o Sport usando uniforme todo amarelo. Nada a ver. Vi outros absurdos. Verdadeiros disparates.
Saudosista
Sei que as tendências de hoje contrastam com o que eu, como saudosista, cultivo na memória afetiva. O Santos de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, com o uniforme todo branco, conquistou o mundo. O Santos, de azul, é o Santos da invencionice.
Dinheiro
Dizem alguns especialistas que estas invencionices têm um só objetivo: faturar. Vender camisas. Inovar para encher o cofre. Pouco importa se vai agredir o tradicional uniforme. Que se lixem os tradicionalistas e saudosistas. É assim que a banda toca. Tudo bem. Mas deixem-me pelo menos o direito de protestar.
Bahia
Fiquei surpreso ao ver o Bahia usando um uniforme com lista transversal. Nada a ver com o tradicional uniforme que marcou as grandes conquistas do famoso time baiano. Aconteceu no jogo em que o Remo goleou o Bahia por 4 a 1. Não digo que tenha sido um castigo. Foi uma coincidência.
Saudade imensa
O jornalista Blanchard Girão nasceu em Acaraú no dia 22 de outubro de 1929. Era formado em Direito pela UFC e em Letras Neolatinas. Foi deputado estadual. Trabalhou nas mais importantes empresas de comunicação do Ceará. Morreu no dia 26 de março de 2007. Blanchard foi um exemplo de dignidade para todos nós.