Os detalhes que eu gosto de ver
Leia a coluna desta quarta-feira (26)
O passe perfeito é tão importante quanto o gol. O autor do passe deveria dividir as honras com quem faz o gol. Um não existe sem o outro. Na vitória do Fortaleza sobre o Criciúma, dois passes merecem ser citados com louvor: o de Luiz Fernando para o gol de Pedro Henrique e o de Sasha para o gol de Paulo Baya.
Otero, o venezuelano do Criciúma, é malabarista com a bola nos pés. Houve um momento em que esnobou quase toda a defesa do Leão. E ninguém ousou tomar-lhe a bola. Quem também deixou a marca de seu talento foi Mailton, lateral do Fortaleza. Aplicou um banho de cuia perfeito. Não lembro quem foi a vítima.
Quão pobre seria o futebol, se não tivesse a virtuose de atletas que dão autênticos espetáculos de arte contemporânea. Sem tinta e sem pincel, parecem ter às mãos lápis de cor da Johann Faber, fábrica que, na década de 1950, ilustrava as caixinhas com fotos dos estádios de futebol.
Vejo jogadores errando passes de dois ou três metros. Vejo jogadores acertando passes de 70 metros ou mais. Arte que ficou marcada por craques como Gérson, Canhotinha de Ouro, ou Didi, o mestre da Folha Seca.
Lançamento
Um jogador injustiçado pela crônica perseguidora foi Dunga. Criaram até a "Era Dunga", como referência pejorativa ao tempo em que ele atuou na Seleção Brasileira. Maldade pura. No YouTube há vídeos que mostram passes longos, perfeitos, dados por Dunga. Mas os críticos desonestos preferem ignorar.
Indicação
No jogo em que o Brasil ganhou (2 x 0) do Uruguai, no Maracanã, gols de Romário, garantindo a vaga para a Copa do Mundo de 1994, há um lançamento longo, perfeito, dado por Dunga, fato que levou o narrador Galvão Bueno a chamar a atenção de todos. Está no YouTube. Basta conferir.
Indicação II
Também há no YouTube vídeos das vitórias brasileiras na Copa do Mundo de 1994. Em vários momentos, Dunga aparece fazendo lançamentos longos e perfeitos. Não era apenas o homem do combate e do desarme. Mas a crônica maldosa só sabia criticar. Hoje, com a Seleção Brasileira que está aí, que falta faz um jogador como Dunga.
Lampejos
A Série B nacional é reconhecida como de qualidade técnica inferior. Tudo bem. É fato. É lógico que não possui o padrão da Série A. Mas há lampejos em que a arte aparece límpida, cristalina, eivada de qualidade que, excepcionalmente, nem mesmo a Série A tem. São lances escassos, mas existem.
Privilégios
Os artistas da bola não estão apenas nos Maracanãs ou Pacaembus da vida. Não estão apenas nas grandes praças esportivas. Não raro, nos campinhos de várzea, os gênios precoces, longe da mídia, fazem brotar os lances que, anos depois, desfilarão pelos gramados do mundo. Privilégios de poucos.