Os desenganos do Clássico-Rei

Leia a Coluna desta sexta-feira (10)

Escrito por
Tom Barros tom.barros@svm.com.br
Legenda: O Clássico-Rei foi assistido por um público de apenas 13 mil pessoas no Castelão
Foto: KID JUNIOR / SVM

Olhei desolado para as arquibancadas do Castelão. Não havia público para um clássico da importância de um Ceará x Fortaleza. O saudoso comentarista, Sérgio Pinheiro, chamava de nossa melhor mercadoria exatamente o Clássico-Rei. Como então um público tão minguado anteontem à noite? 

Fortaleza x Ceará é algo sagrado, que não pode sofrer o desgaste da banalidade. Não pode ser tratado como um jogo qualquer, sem compromisso com a tradição e com o passado. É uma disputa secular, movida pelo ideal de homens que, com amor e sacrifício, edificaram a história dos dois clubes. 

Não pode haver Clássico-Rei sem casa cheia. Não pode haver Clássico-Rei sem motivação. Não pode haver Clássico-Rei, se relegado à indiferença. Vira jogo comum. O público de anteontem à noite no Castelão seria, quando muito, de jogo médio, de mínima importância. 

A banalização aniquila qualquer espetáculo. No caso do futebol, perde a aura, o encanto, na medida em que acontece apenas por acontecer. Clássico, sem multidão, é vazio. Deixa de ser clássico. Assemelha-se a Fake News. 

 

Postura 

 

Indiferente à indiferença da torcida, o Ceará fez a parte que lhe cabia: ganhou. Mas a qualidade do futebol ainda tem de melhorar muito para encarar tanto a Copa do Nordeste, quanto à Série B nacional. Aliás, situação semelhante à do Fortaleza, ou seja, a qualidade do Leão tem que melhorar muito também. 

 

Ausência 

 

Não senti apenas a ausência da torcida, que compareceu em pequena escala para ver Ceará 2 x 0 Fortaleza. Há também a carência de ídolos. Os ídolos fascinam pelo que produzem. Mexem com as torcidas. Há quem compareça apenas para ver os ídolos em ação. No futebol cearense, ídolo está em fase de extinção. 

 

Carência 

 

Desde 1956, tive a felicidade de ver em ação e acompanhar bem de perto os maiores ídolos do futebol cearense. A atual carência de ídolos também empobrece a beleza que o Clássico-Rei poderia ter, caso houvesse sucessores à altura dos inesquecíveis Gildo, Croinha e Pacoti.  

 

Não dá 

 

Pela definição, como classificar de Clássico-Rei um jogo com um público minguado e sem ídolos em campo. Clássico envolve uma série de fatores que engrandecem a competição. Em clássico não se usa uniforme reserva. Em clássico não se poupa jogadores. Se essas coisas acontecem, estão banalizando o clássico. 

 

Conclusão 

 

Em 1956, no PV, vi o primeiro Clássico-Rei da minha vida. Nunca esqueci. A empolgação. A multidão. Filas do lado de fora do estádio. A cidade parada, ouvindo pelo rádio. Anteontem, no Castelão, faltou a empolgação. Faltou a multidão. Um deserto fora do estádio. Foi um jogo Ceará x Fortaleza. Clássico-Rei? Não. 

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