Damasceno, o príncipe

Leia a Coluna desta quarta-feira (19)

Escrito por
Tom Barros tom.barros@svm.com.br
Legenda: Damasceno no Ceará de 1958: ele é o terceiro em pé, da esquerda para a direita

O futebol mecânico pode ser eficiente, mas não encanta. Os europeus, que eram ferrolhos de igreja, aprenderam, com carinho, a lidar com a bola. Colocaram dobradiças na cintura e passaram a fazer arte como antigamente apenas o futebol brasileiro fazia. 

Ando zangado com o atual futebol cearense. Apenas por dever de ofício vejo os jogos. É cruel. Futebol é para ser visto, não por obrigação, mas por satisfação interior. Ver o encanto das jogadas e não a cavalaria de choque. Sinto falta de jogadores da estirpe de Damasceno, o príncipe. 

As novas gerações certamente perguntarão: quem foi Damasceno? Resposta simples: um bailarino que, nas décadas de 1950 e 1960, flutuava em campo. Na posição de zagueiro ou volante, foi a antevisão de um alemão que deslumbrou o mundo: Franz Beckenbauer, líbero que liderou a Alemanha no título mundial de 1974. 

Deixem-me exagerar. É a empolgação de quem viu Damasceno jogar. Brilhou no Ceará, Ferroviário, Seleção Cearense e Náutico-PE. Ganhou títulos e notoriedade. Há anos saiu de cena rumo à saudade. Lamento vocês não o terem visto jogar. 

 

Príncipe 

 

Quem ganha a nobreza de “Príncipe” não recebe por acaso um título assim. Damasceno, por inspiração do narrador Ivan Lima e pelo apoio popular, entrou para a família real dos grandes ídolos. Assim também a torcida alemã batizou de “Kaiser” o notável Beckenbauer. Kaiser significa imperador.   

 

Sem televisão 

 

Damasceno não teve a televisão para mostrar ao mundo o seu enorme talento. Ficou restrito aos perplexos olhares dos que compareceram ao PV e aos outros estádios por onde ele desfilou a sua arte. Não há vídeos para provar o que digo. Não teve a sorte de nascer nos tempos das grandes coberturas televisivas.   

 

Com televisão 

Beckenbauer teve a seu favor os holofotes do mundo. Imagens fantásticas de suas participações nas Copas do Mundo de 1966, 1970 e 1974. Até hoje é considerado o melhor líbero (ou volante) do mundo. Não o estou comparando a Damasceno. Não sou louco. Apenas a lembrança e a relação vieram pelos títulos da realeza. 

 

Lembranças 

 

Ambos fizeram parte de uma suposta “família real”, ungida pelo reconhecimento público. Damasceno, por seus próprios méritos, entrou para a realeza, sendo chamado de “Príncipe”. Teria alcançado notoriedade nacional e internacional, se tivesse jogado a partir da década de 1970. 

 

Conclusão 

 

João Erivaldo Queiroz Damasceno, o Príncipe, nasceu em 1935. Em 1951, ingressou no Ceará, a convite do técnico Jombrega. Foi bicampeão cearense pelo Ceará em 1957 e 1958. Atuou no Náutico, de Recife, de 1960 a 1963. Encerrou a carreira no Ferroviário em 1967, aos 36 anos de idade. Foi treinador de vários clubes locais. 

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