Juros altos, carrinho cheio: por que o consumo brasileiro ainda resiste

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Os juros são apenas uma das forças que determinam quanto as pessoas compram.
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

A taxa básica de juros permanece em um nível elevado, o crédito está caro e muitas famílias já comprometem parte considerável da renda com prestações. Mesmo assim, o consumo brasileiro continua demonstrando resistência.

À primeira vista, parece uma contradição. Na prática, esse comportamento revela que os juros são apenas uma das forças que determinam quanto as pessoas compram.

Segundo o IBGE, o consumo das famílias cresceu 1% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com os três meses anteriores, e avançou 1,7% em relação ao mesmo período de 2025.

O principal combustível desse movimento está no mercado de trabalho. A taxa de desemprego foi de 5,8% no trimestre encerrado em abril, a menor já registrada para esse período, enquanto o rendimento médio real dos trabalhadores chegou a R$ 3.732.

Quando mais pessoas estão empregadas e a renda cresce acima da inflação, as famílias ganham confiança para manter despesas, contratar serviços e assumir compromissos. Reajustes de rendimentos e programas de transferência também ajudam a sustentar o consumo de alimentos, vestuário, transporte e outros itens cotidianos.

Os juros não atingem todos da mesma maneira

Quando os juros sobem, fica mais caro fazer compras parceladas, usar o cartão de crédito ou contratar financiamentos. Com isso, muitas pessoas e empresas reduzem seus gastos e adiam compras que não são urgentes.

Essa diminuição do consumo ajuda a reduzir a pressão sobre os preços, contribuindo para o controle da inflação. Em outras palavras, a alta dos juros é uma ferramenta usada pelo banco central para desacelerar a economia quando os preços estão subindo muito rápido, buscando manter o poder de compra da população e a estabilidade econômica.

A Selic elevada costuma reduzir a atividade econômica, mas esse efeito não é imediato nem uniforme. Ela pesa principalmente sobre compras financiadas, como imóveis, veículos e bens duráveis, além de encarecer empréstimos e o capital de giro das empresas.

Já boa parte dos gastos com alimentação, saúde, telefonia, internet, restaurantes e serviços pessoais continua existindo mesmo quando o crédito fica mais caro.

Há, contudo, sinais de perda de fôlego. O comércio varejista recuou 1,5% em abril em relação a março, embora ainda tenha acumulado crescimento de 2% no ano. A inflação também continua pressionando o orçamento, especialmente por meio dos alimentos.

Portanto, consumo resistente não significa que todas as famílias estejam em situação confortável. O risco aparece quando a renda não acompanha as despesas e o crédito passa a completar o orçamento.

Dados do Banco Central mostram que o endividamento das famílias chegou a 49,8% da renda acumulada em 12 meses. No crédito livre, em que os bancos definem taxas e condições, os juros médios para pessoas físicas alcançaram 63% ao ano, e a inadimplência chegou a 7,2%.

Para o pequeno empreendedor, o cenário exige cautela semelhante. Um aumento nas vendas pode esconder margens menores, custos financeiros elevados e falta de dinheiro em caixa. Faturamento não é sinônimo de lucro, assim como limite disponível não representa renda.

É necessário acompanhar margem, prazo de recebimento, estoque e custo da antecipação de cartões antes de ampliar despesas.

Às famílias, recomenda-se evitar novas prestações enquanto dívidas caras estiverem abertas, comparar o custo efetivo total dos empréstimos e formar uma reserva, mesmo que pequena. O desafio desta semana é listar todas as compras parceladas, somar as prestações mensais e identificar quanto da renda futura já está comprometido.

O consumo pode continuar forte na economia, mas o orçamento individual precisa permanecer sustentável.

Pensem nisso! Até a próxima. Ana Alves- @anima.consul

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