Tu retornarás ao pó e à luz de onde viestes
Quaresma é um tempo de moderação, privações e de introspecção e reflexão
No Carnaval, temos a chance de celebrar a vida e dar asas à imaginação, transformando-nos em personagens dos nossos sonhos durante esses três dias de festa. Como toda festa é uma pausa na rotina, ela nos permite escapar das obrigações diárias e viver momentos de criatividade e liberdade.
Durante essas celebrações, as normas sociais se flexibilizam e as pessoas se expressam de formas que normalmente não fariam, como dançar, cantar ou até usar fantasias extravagantes, homens se vestindo de mulheres, pobres se fantasiando de milionários. Essa quebra da normalidade cria um ambiente propício para fortalecer laços interpessoais e sociais. As festividades nos lembram que a vida também precisa de lazer e celebração, não somente de dever e trabalho.
O Carnaval, com seus excessos de comida, bebida e máscaras, contrasta com a Quaresma, que se segue, é um tempo de moderação, privações e de introspecção e reflexão. A Quaresma, que dura 40 dias até a Páscoa, é um momento de olhar para dentro, revisar a vida e se preparar para cultivar valores eternos. A Quaresma é uma transição entre esses dois momentos inseparáveis na vida humana. A festa do carnaval e a reflexão espiritual.
A Quaresma é um período de 40 dias que antecede a Páscoa, celebrado por muitas tradições cristãs. Enquanto o Carnaval foca nas coisas do mundo material, no consumo, na diversão, no conforto e na aparência, a Quaresma enfatiza a essência dos valores espirituais, que transcendem a matéria e nos ligam com valores universais como o amor ao próximo, o respeito à diversidade. É importante integrar esses aspectos, pois viver somente um deles nos desconecta do verdadeiro sentido da vida. Um perece, com o tempo o outro se fortalece e se eterniza para além da matéria.
Não se trata de privilegiar um em detrimento do outro, mas articular e integrar estes dois aspectos que constituem a vida do indivíduo e da sociedade. Para os cristãos, Cristo é a representação humana unida ao divino. Ele viveu a experiência humana com corpo físico, sentimentos e necessidades, mas também tinha uma essência espiritual que o conecta ao Criador do universo. O corpo físico morreu na cruz, mas o corpo espiritual, imaterial, permaneceu vivo e deu sentido ao sacrifício vivido por esse corpo físico mutilado.
A sua ressurreição traz um novo significado, lembrando-nos de que as perdas e os sofrimentos podem se transformar em aprendizado e renascer das cinzas. Neste sentido, o sacrifício, a renúncia passam a ter sentido e fazem parte ativa da ressurreição. Corpo físico (pó) e corpo espiritual (luz) são duas realidades inseparáveis da condição humana.
O Carnaval é a festa da celebração material, repleta de alegria, onde se extravasa a emoção, enquanto a Quaresma é um período de reflexão e abstinência, preparando-nos para o “carnaval da alma” no domingo de Páscoa. Após nos fantasiarmos de personagens multicoloridos, de tomarmos nossas fantasias por realidade, a Quarta-feira de Cinzas nos faz apelo à realidade e mostra o outro lado da moeda, a cor cinza.
O sacerdote nos recorda que somos pó e um dia voltaremos a ele, mas nos incentiva a cultivar o que é eterno, a luz que nos guia. As cinzas são o que restou do que já foi fogo e luz, hoje se tornam um símbolo de esperança e renovação. As cinzas despertam a luz que ilumina nossa vida. A quarta-feira de Cinzas marca o início da Quaresma, um tempo que possui um profundo simbolismo. As cinzas, feitas da queima dos ramos abençoados no ano anterior, representam a fragilidade da vida.
Ao receber as cinzas, os fiéis se lembram da passagem bíblica, onde Deus diz a Adão: “Com o suor de teu rosto, comerás o teu pão, até que tornes a terra, porque dela foste tomado; porque és pó e em pó te tornarás”. (Gênesis 3:19) Esta afirmação, que surge no contexto da quaresma, enfatiza a fragilidade humana e efêmera do ser humano. Ao reconhecer nossa origem e nosso destino, somos levados a considerar a importância de viver de maneira significativa, valorizando as relações e as experiências que realmente importam.
Os 40 dias da Quaresma também representam o período em que Jesus esteve no deserto, enfrentando privações enquanto se conectava a valores espirituais. Os cristãos buscam viver essa experiência de recolhimento, autoconhecimento e reflexão, reconhecendo suas falhas e buscando a reconciliação com Deus. É um momento de compromisso e realinhamento com a fé e de ações para o bem-estar da coletividade.
A Campanha da Fraternidade de 2025, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nos convida a agir em prol da humanidade. Neste ano, a Campanha da Fraternidade terá como tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Destaca a importância de uma abordagem holística e integrada das questões ambientais, sociais e espirituais. Essa escolha reflete a necessidade urgente de promover o respeito à diversidade, a fraternidade entre todos os seres humanos, reconhecendo que a crise ambiental é também uma crise espiritual.
O foco na “ecologia integral” está ligado à “ecologia do espírito” e sugere que a proteção do meio ambiente é tão importante quanto cuidar de todos os seres vivos frutos da criação divina. A campanha nos convida a ser cuidadores do planeta e de tudo que nele habita. Ela incita as comunidades a desenvolverem iniciativas que promovam a harmonia entre a mente, a natureza e o espírito. É uma oportunidade para fomentar diálogos e ações que promovam a paz, a justiça e a preservação do nosso lar comum.
Essa dimensão social da salvação, que a Igreja católica propõe a cada ano, visa integrar a espiritualidade às políticas públicas, promovendo um compromisso com a salvação integral de todos. Uma espiritualidade que não transforma a vida e a sociedade é como fermento que não age na massa. Integrar espiritualidade e vida social é essencial para garantir um progresso duradouro.
Ao refletir sobre a conexão entre ecologia e espiritualidade em nossa sociedade, vemos que a transformação social não pode ocorrer sem uma base sólida de valores éticos e morais. Esses valores são fundamentais para formar cidadãos que não somente busquem seu próprio bem e nem se restrinjam ao comércio de produtos, mas também se preocupem com o bem-estar de quem vive no planeta.
A Campanha da Fraternidade nos lembra que a prática da fraternidade e o respeito ao meio ambiente estão interconectados e devem estar presentes em nosso dia a dia. Isso significa que cada um de nós tem um papel a desempenhar na construção de uma sociedade ecologicamente saudável. Quando nos unimos em prol de um objetivo comum, como a educação de qualidade para todos, criamos um ambiente em que todos podem prosperar.
Essa união é uma expressão concreta da fé, que nos chama a agir em favor dos mais vulneráveis, do respeito à natureza e sua biodiversidade, a promover a inclusão. Além disso, a reflexão durante a Quaresma nos incentiva a olhar para dentro de nós mesmos e avaliar nossas ações e comportamentos. Essa introspecção é essencial para o crescimento pessoal e para a construção de uma sociedade mais harmoniosa.
Ao reconhecer nossas falhas e buscar a mudança, contribuímos para um ambiente mais positivo e acolhedor. Assim como o Carnaval nos permite viver intensamente o presente festivo, a Quaresma nos convida a um novo começo. É um ciclo de renascimento, onde podemos abandonar o que não nos serve mais e abraçar o que realmente importa. Quando entendemos que tanto a celebração do carnaval quanto a reflexão da quaresma são partes importantes de nossa jornada, conseguimos encontrar um equilíbrio que enriquece nossas vidas.
Portanto, ao vivermos a experiência do carnaval, que nos brinda com alegria e liberdade, é fundamental lembrar que essa alegria deve ser acompanhada de responsabilidade e cuidado com o próximo e com o meio ambiente. Sou matéria (pó) e espírito (luz) e a nossa existência está ligada tanto à terra quanto ao divino, fonte de toda a luz e vida. A verdadeira festa é aquela que se estende além dos dias de celebração, refletindo-se em nossas ações e atitudes no cotidiano.
As cinzas são o que resta da matéria que se decompôs, e são a matéria-prima para recriar e ressuscitar o que ela tem de divino e sagrado. Ela será sempre o continente material de um conteúdo imaterial. Que possamos, então, renascer das cinzas, levando conosco os ensinamentos aprendidos no período da Quaresma e dos valores que a Campanha da Fraternidade nos propõe. Que as cinzas, que já foram luz, iluminem nosso caminho, guiando-nos para uma vida de amor, solidariedade e compromisso com o meio ambiente e a construção de um mundo melhor para todos. Lembre-se: retornaremos ao pó e à luz de onde viemos!
Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.