Jovens têm dificuldade em identificar situações de violência psicológica e sexual, diz estudo

Pesquisa envolveu estudantes de uma escola pública de Ensino Médio em Fortaleza.

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
26 de Agosto de 2026 - 06:00
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Legenda: Uma das surpresas do estudo foi o pouco reconhecimento dos adolescentes frente a atos sexuais violentos.
Foto: Ovidiu Negrea/Shutterstock.

Entre adultos, a pauta é evidente. Entre adolescentes, o assunto ainda é obscuro: pouco se comenta sobre situações de violência nas relações afetivas desenvolvidas por eles. Um estudo realizado pelo curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) joga luz sobre o tema e traz série de dados pertinentes.

Um dos principais é que cenários de violência psicológica e sexual são difíceis de serem detectados por jovens – seja enquanto vítimas ou responsáveis pelos atos. Muitas vezes, conforme a pesquisa, há complicação em nomear ou tipificar acontecimentos dessa natureza, o que abre espaço para profundas reflexões.

Não apenas os adolescentes são perpetradores ou vítimas em situações de violência, como muitas vezes nem sequer conseguem identificar determinadas atitudes como graves”, descreve o estudo, cuja coleta de dados ocorreu em 2022 a partir de impressões de 80 estudantes, de 14 a 18 anos, de uma escola pública de Ensino Médio em Fortaleza.

“Enquanto os comportamentos de violência psicológica foram identificados em quantidade reduzida pelos pesquisados quando em comparação a outros tipos de violência, abuso sexual e estupro foram os menos detectados por adolescentes do gênero masculino”, continua.

Psicóloga à frente da pesquisa, Gabriela Lira dividiu o trabalho com a professora Daniely Tatmatsu – coordenadora do Laboratório de Análise Experimental do Comportamento - Ceará (Lacce) – e elenca surpresas e confirmações da pesquisa.

Para ela, foi esperado constatar que violências de cunho psicológico são menos reconhecidas, em detrimento das de cunho físico. Por outro lado, espantou o pouco reconhecimento dos adolescentes frente a atos sexuais violentos.

Violência psicológica se dá principalmente porque não há efeitos “visíveis” da violência de imediato.
Legenda: Violência psicológica se dá principalmente porque não há efeitos “visíveis” da violência de imediato.
Foto: Inna Kandybka/Shutterstock.

“Todos os adolescentes também tinham dificuldade em reconhecer a violência quando o gênero de quem a estava cometendo era o feminino. Isso também foi surpreendente pra gente, ver o quanto mulheres são retiradas desse lugar de responsabilização. Acredito que devido à cultura, em que é mais frequente e provável que homens sejam violentadores; mas não deixa de surpreender”, compartilha a psicóloga.

Por que é difícil adolescentes reconhecerem violências?

Essa complicação pode ser compreendida por diferentes matizes. Segundo Gabriela Lira, no caso da violência psicológica, ela se dá principalmente porque, ao contrário de lesões físicas, não há efeitos “visíveis” da violência de imediato. “A literatura aponta que esse tende a ser um tipo mais naturalizado e, portanto, difícil de reconhecer”, percebe.

Por sua vez, quando o assunto é violência sexual, a estudiosa acredita que a existência de regras e práticas culturais – “como a cultura do estupro”, conforme cita – ajuda a distorcer a ideia de consentimento livre e esclarecido. 

“O comportamento sexual só pode ser visto como consentido se houver escolha livre e deliberada dos envolvidos em se manter naquela situação. Caso contrário, estamos falando de uma relação sexual não-consentida, e portanto, uma violência”, diferencia.

Violência no Namoro é configurado como fenômeno, e tem reflexo sobretudo na relação entre jovens.
Legenda: Violência no Namoro é configurado como fenômeno, e tem reflexo sobretudo na relação entre jovens.
Foto: Jeanne Sager Photography/Shutterstock.

Não à toa, considerando o recorte de gênero, os dados mais alarmantes recaem sobre o gênero masculino. Adolescentes dessa categoria participantes da pesquisa tiveram mais dificuldade de nomear qual violência estava acontecendo nos diferentes exemplos de situações apresentados pela equipe.

Essa realidade, na visão de Gabriela, configura-se como problema. “É provável que esses meninos tenham cometido ou já tenham ouvido falar de comportamentos violentos em relacionamentos entre pares, e não consigam reconhecer aquilo como errado, como algo a não ser cometido. Isso é naturalizado entre eles”, explica.

“É um perigo que eles continuem mantendo esse padrão de relacionamento até a vida adulta, principalmente considerando que estão aprendendo a se relacionar nesse momento: na adolescência”.

O ‘fenômeno’ Violência no Namoro

A reunião de todas essas variáveis está ligada à Violência no Namoro, algo descrito por Gabriela Lira como fenômeno. Diz respeito a um padrão de comportamento repetido ao longo do tempo, no qual um dos elementos exerce o poder por meio da violência com o intuito de controlar, dominar e submeter a parceria amorosa.

Hoje, a gente fala muito da violência contra a mulher, frequentemente em relações conjugais ou em relações entre dois adultos. Mas fiquei com essa curiosidade: o que se tem produzido sobre esse fenômeno, que depois descobri ser ‘Violência no Namoro’”?, indagou-se a pesquisadora no início do Trabalho de Conclusão de Curso que culminou no estudo. 

A partir daí, a solução foi ir a campo para apurar na fonte. Foi quando aconteceu o contato com a escola pública de Ensino Médio localizada na Capital, e posterior fase de coleta de dados. Esta durou de duas a três semanas, e envolveu aplicação de questionários e testes, sobretudo a partir de pequenas histórias envolvendo um casal heterossexual. Os responsáveis pelos adolescentes assinaram termo consentindo a participação de todos.

“Íamos mesclando, randomizando todas essas histórias, e pedíamos que os alunos as lessem com muito cuidado e assinalassem se concordavam se havia violência naquela cena, qual tipo de violência estava sendo cometida, e quem havia cometido – se o personagem do gênero feminino, do gênero masculino ou ambos do casal”.
Gabriela Lira
Psicóloga e autora do estudo

O levantamento deu tão certo que originou um projeto de extensão. Intitulado “Previna – Prevenindo a Violência no Namoro”, tem como mote fazer com que estudantes de Psicologia, membros do laboratório, se dirijam a escolas públicas para formar grupos psicoeducativos e conscientizar jovens da rede pública de ensino sobre o tema.

Rodas de conversa e oficinas são algumas das ações desenvolvidas pelos estudantes do Previna. Eles são divididos em pequenos grupos de vivências e, para a abordagem da violência no namoro, é utilizada a linguagem do teatro.

Pesquisadora acredita que estudo pode colaborar para rede de apoio dos adolescentes estar mais atenta.
Legenda: Pesquisadora acredita que estudo pode colaborar para rede de apoio dos adolescentes estar mais atenta.
Foto: KieferPix/Shutterstock.

Em dois anos de existência, o grupo já promoveu atividades na Escola de Ensino Médio Adauto Bezerra e no Liceu do Ceará. “Com essas intervenções, buscamos dar ferramentas para esses adolescentes buscarem relacionamentos igualitários e saudáveis, em que não exista qualquer tipo de opressão ou violência”, situa Gabriela.

“Os dados foram coletados em 2022, hoje temos plataformas de propagação de informação muito mais maléficas do que naquele ano. É algo a ser observado, como informações nessas redes influenciam a forma como meninos se relacionam com meninas”, conclui.

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