A 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada nesta semana pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, chegou com uma notícia que merece ser celebrada: o Brasil registrou a menor taxa de mortes violentas desde 2012, antecipando em dois anos a meta de homicídios estabelecida para 2027. São dados importantes. Eles mostram que políticas públicas produzem resultados e que salvar vidas pode e deve seguir sendo prioridade nacional.
Mas existe uma pergunta que nenhum relatório ainda consegue responder: Como a violência transforma a vida de quem continua vivo?
Enquanto o número geral de homicídios diminui, outros indicadores acendem sinais de alerta: a violência doméstica segue crescendo, a letalidade decorrente de intervenções policiais aumentou 5%, as denúncias de racismo e injúria racial avançaram em mais de 15 estados, e pessoas negras seguem sendo a maioria das vítimas da violência letal, 78,5% do total, segundo o próprio Anuário.
Quando falamos da população LGBTQIAPN+, o cenário apresenta outro tipo de alerta: convivemos ainda com uma profunda subnotificação, que impede compreender a real dimensão dessas violências. Esses dados nos convidam a uma reflexão importante: nem toda redução estatística representa, necessariamente, uma redução das desigualdades.
Uma sociedade pode registrar menos homicídios e, ao mesmo tempo, continuar produzindo experiências muito diferentes de proteção, liberdade e exposição à violência. Os números nunca falam sozinhos. Eles mostram tendências, mas também revelam quais experiências continuam exigindo nossa atenção.
Costumamos medir a violência pelos danos que ela produz. Pouco refletimos sobre os potenciais que ela interrompe. Cada pessoa que deixa de estudar por medo do trajeto. Cada mulher que recusa uma oportunidade de trabalho porque não se sente segura para voltar para casa. Cada jovem que aprende a limitar sua própria existência para evitar abordagens, constrangimentos ou discriminações. Tudo isso também representa um custo social.
Há experiências que nenhum boletim de ocorrência registra. Os dados registram mortes; dificilmente registram as vidas que precisaram ser limitadas para sobreviver.
Os números são indispensáveis. Eles ajudam a identificar onde estão os maiores desafios. Mas são as pessoas que nos permitem compreender por que enfrentá-los continua sendo tão urgente. Uma denúncia registrada não traduz o impacto emocional de quem precisou denunciar. Um homicídio contabilizado não revela quantas oportunidades foram interrompidas. Uma taxa percentual não mostra quantas famílias reorganizaram suas vidas em torno do medo.
Os dados são o começo da conversa, nunca o seu ponto final. Celebrar avanços é importante, e este ano há avanços reais a celebrar. Mas isso não pode nos impedir de enxergar quem continua ficando para trás.
Reduzir homicídios é uma conquista que precisa ser reconhecida. Cada vida preservada importa. Mas uma sociedade não se torna automaticamente mais segura apenas porque seus indicadores melhoram. Ela se torna mais segura quando mais pessoas conseguem viver com liberdade, e liberdade não significa apenas estar vivo, significa circular sem medo, acessar oportunidades e acreditar que seus direitos serão igualmente protegidos.
Talvez seja essa a reflexão que os dados deste ano evidenciam: olhar para além das médias e perguntar não apenas quantas vidas conseguimos preservar, mas que condições estamos construindo para que todas elas possam ser plenamente vividas.