‘Copa das bets’ eleva risco de vício e exige cuidados com a saúde mental de jovens

Presença de casas de apostas é quatro vezes maior do que no último Mundial, ligando alerta de especialistas.

Escrito por Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
05 de Julho de 2026 - 07:00
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Legenda: O setor de apostas é o segundo maior anunciante da competição Brasil.
Foto: AnnaStills/Shutterstock.

A Copa do Mundo 2026 trouxe novidades, como o maior número de seleções e mais uma fase eliminatória, mas também estreou outra novidade: a presença massiva de anúncios de apostas online. A mistura do clima de euforia com a “Copa das bets” acende o alerta de autoridades e de especialistas em saúde mental sobre a normalização do jogo de azar e como isso mascara gatilhos e riscos da prática.

As propagandas de bets estão nos gramados, nos intervalos e na boca de narradores, comentaristas e jogadores durante o maior mundial da história. Um levantamento feito pela plataforma de marketing digital Macfor indica que, dos 40 anunciantes da competição, oito são casas de apostas, número quatro vezes superior ao registrado na última edição do mundial da FIFA.

Quanto maior a exposição a propagandas de jogos de azar, maior é o estímulo para apostar, o que eleva o risco para o desenvolvimento de ludopatia, também conhecida como transtorno do jogo — condição caracterizada pelo vício em jogos de azar. É o que destaca ao Diário do Nordeste a psiquiatra e professora de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luísa Weber Bisol. 

A publicidade onipresente em diversas plataformas de mídia e a acessibilidade às apostas na modalidade on-line parecem ter um papel no agravamento de danos relacionados aos jogos de azar.” 
Luísa Weber Bisol
Psiquiatra

A especialista destaca que a preocupação é ainda maior com pessoas jovens, que, por ainda estarem em estágio formativo, são mais vulneráveis a comportamentos danosos de jogos, já que naturalmente são mais propensas ao envolvimento em atividades de risco, além de serem o principal alvo de propagandas em mídias sociais.

Diante da grande audiência do evento, a publicidade dessas plataformas na Copa do Mundo tende a atrair mais usuários para as casas de apostas digitais. Como consequência, a médica alerta que esse cenário pode elevar o número de apostadores patológicos.

Essa projeção já se reflete na realidade: a quantidade de brasileiros que joga em bets triplicou desde o início da competição, conforme indica um levantamento da fintech Klavi, com base em informações de Open Finance (sistema de integração de dados do Banco Central), em uma amostra de 1,2 milhão de indivíduos. 

Outro fator que também subiu foi o montante aplicado em apostas online. Na última quinta-feira (2), o valor médio depositado por usuário, por exemplo, foi de R$ 209, enquanto a média era R$ 188 nos dias anteriores ao mundial. O pico de remessas aconteceu em 14 de junho, primeiro domingo de jogos, quando o índice atingiu R$ 523.

Sistema de recompensas estimula uso contínuo

Evitar gatilhos que instiguem o ato de apostar é mais difícil durante o torneio, já que, no Brasil, o futebol faz parte da cultura e costuma estar presente em diversos ambientes, aponta a psicóloga especialista em dependência química, Beatriz Austregésilo.  

Nesses casos, uma boa alternativa é escolher locais em que as apostas não sejam estimuladas, evitando estar com pessoas que apostam ou que falam constantemente sobre o assunto.”
Beatriz Austregésilo
Psicóloga

Apostar dinheiro em palpites sobre qual será o resultado de jogos da Copa não é algo novo. Um exemplo disso são os “bolões”, torneios em que amigos, familiares ou colegas apostam valores nos placares das partidas. 

Porém, embora também seja possível desenvolver comportamentos nocivos com a modalidade, as bets são mais sedutoras. Elas oferecem recompensas rápidas, estão a um clique de distância e estimulam o uso contínuo, por meio de bônus, apostas gratuitas, promoções e notificações constantes.

“As apostas online estão literalmente na palma da nossa mão, disponíveis a qualquer momento pelo celular. Isso tem um impacto significativo no cérebro, porque a possibilidade de receber uma recompensa imediata, ou mesmo a expectativa dela, ativa os sistemas de recompensa e motivação, aumentando a probabilidade de repetição desse comportamento”, alerta a psicóloga. 

O princípio é semelhante ao encontrado em dependências químicas, em que substâncias que afetam o cérebro mais rapidamente têm maior probabilidade de causar vício. “Embora os mecanismos não sejam idênticos, ambos envolvem a ativação dos circuitos de recompensa”, esclarece Beatriz. 

Outro agravante das bets é a variedade de modalidades oferecidas, possibilitando que usuários façam “microapostas”, que não se limitam a apenas indicar o placar, mas também quantidade de cartões, faltas, tempo de acréscimo etc. “Tal abundância pode reconfigurar o processo de tomada de decisões: em vez de decidir qual aposta, a questão passa a ser quantas apostas”, aponta Luísa Weber Bisol.

A combinação entre o clima de euforia característico da Copa e a exposição constante a anúncios de apostas também estimula os espectadores a jogarem, já que associa a prática à experiência de torcer. “Essa percepção ignora os possíveis danos envolvidos e faz com que a aposta seja vista como uma forma de engajamento emocional com o evento, e não como um jogo de azar”, analisa a psicóloga. 

Muitos torcedores acreditam que, por conhecerem bem os times, os jogadores e as estatísticas, têm maior controle sobre o resultado das apostas ou maiores chances de ganhar. Essa sensação de confiança pode fazer com que as apostas sejam percebidas menos como um jogo de azar e mais como uma decisão baseada em habilidade, o que favorece o aumento da frequência das apostas e pode dificultar o reconhecimento dos riscos envolvidos.”
Beatriz Austregésilo
Psicóloga

Como se proteger de gatilhos e identificar sinais de alerta 

Para a psicóloga, a principal maneira de se proteger é reduzir gatilhos durante o Mundial da FIFA, seja não o acompanhando ou limitando o acesso ao celular durante as partidas. “O objetivo é diminuir os gatilhos ambientais e facilitar que a pessoa aproveite o evento esportivo sem associá-lo ao comportamento de apostar”. 

A especialista em dependência química ainda acrescenta outras dicas de prevenção de danos

  • Desinstale aplicativos de apostas;
  • Deixe de seguir perfis e canais que promovam bets nas redes sociais; 
  • Evite ambientes ou grupos em que as apostas sejam constantemente estimuladas;
  • Limite o acesso ao dinheiro ou conte com a ajuda de alguém de confiança para administrar os recursos financeiros durante esse período.

Se a precaução falhar, é preciso ficar atento aos sinais de perda de controle. A psiquiatra Luísa Bisol explica que a dependência em jogos de azar se manifesta por meio de alguns sintomas, tais como: 

  • Falta de controle sobre o comportamento de apostas;
  • Priorização do jogo em detrimento de outros interesses ou atividades na vida cotidiana;
  • Manutenção ou agravamento do comportamento, apesar de suas consequências negativas ou prejuízo funcional associado.

“O comportamento de apostas é realizado em ambiente impróprio, como no trabalho, e envolve recursos financeiros de grande monta para a pessoa. O indivíduo passa a se esconder ou mentir para utilizar tais plataformas”, exemplifica a médica psiquiatra. 

No Brasil, é possível que qualquer pessoa bloqueie o próprio acesso à plataforma de bets. Para isso, basta cadastrar o CPF na Plataforma Centralizada de Autoexclusão. A ferramenta do Ministério da Fazenda suspende automaticamente o acesso a todas as casas de apostas regularizadas por no mínimo um mês. Desde que foi criada, em dezembro de 2025, mais de 574 mil pessoas solicitaram o serviço, conforme a Pasta.

O primeiro passo ao perceber comportamentos nocivos ao apostar é buscar ajuda profissional e apoio com familiares e amigos, recomenda Beatriz. “O tratamento não precisa começar apenas quando o problema se agrava; quanto mais cedo a pessoa procura ajuda, maiores são as chances de recuperação”, ressalta. 

“Além disso, grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos, podem ser um recurso muito valioso. Por serem gratuitos e reunirem pessoas que enfrentam desafios semelhantes, esses grupos oferecem acolhimento, troca de experiências e fortalecimento da rede de apoio, o que pode fazer diferença nos momentos de maior vulnerabilidade”, acrescenta a especialista. 

Depressão, TDAH e dependência química aumentam risco

A ludopatia aciona no cérebro regiões semelhantes às ativadas pela dependência química em substâncias psicoativas, como álcool, drogas e medicamentos, detalha Luísa. E, assim como dependentes químicos, pacientes com transtorno do jogo também podem experienciar os fenômenos da tolerância e da abstinência. 

Enquanto a tolerância ocorre quando o corpo exige uma frequência ou dose maior da prática ou substância para gerar o mesmo efeito, a abstinência acontece quando o hábito/uso para, causando sintomas físicos e psicológicos, como tremores, insônia, ansiedade, irritabilidade e desejos intensos (fissura).  

Além de ser mais frequente entre jovens, a médica explica que o transtorno do jogo também é mais propenso a ser desenvolvido por indivíduos que já possuem outras condições psiquiátricas, tais como:

  • Dependência química;
  • Depressão;
  • Bipolaridade;
  • Transtornos do controle de impulsos, como transtorno opositor desafiante (TOD) e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH);
  • Transtorno de ansiedade;
  • Condições neurológicas, como a doença de Parkinson. 

Homens representam 63% dos apostadores desde o início da Copa, segundo a Klavi.
Legenda: Homens representam 63% dos apostadores desde o início da Copa, segundo a Klavi.
Foto: Tsyhun/Shutterstock.

O perigo da exposição excessiva aos anúncios de bets 

As publicidades de apostas online estão presentes em todas as transmissões oficiais dos jogos no Brasil. Segundo o levantamento da Macfor, nesta Copa o setor de apostas é o segundo maior anunciante no país, ficando atrás apenas da categoria de alimentos e bebidas. 

A estratégia de exibição, contudo, varia conforme a plataforma. Enquanto na televisão aberta a publicidade acontece em um bloco separado do conteúdo editorial, na internet há anúncios separados e integrados à programação esportiva, inclusive no decorrer das partidas. 

Durante o torneio, comentaristas já chegaram a analisar "odds" — índice que indica as possibilidades de acerto em uma determinada aposta online —, em blocos patrocinados por bets antes e durante os jogos. 

A estratégia de usar figuras públicas, como jogadores e narradores, em campanhas que incentivam o público a jogar é algo comum entre casas de apostas. No entanto, a associação de nomes conhecidos ao ato de apostar contribui para a normalização da prática e a vincula à experiência de assistir aos jogos, explica Beatriz.

Quando comentaristas, narradores e outras figuras de credibilidade associam as apostas à experiência de assistir aos jogos, esse comportamento tende a ser percebido como algo natural e socialmente aceito. Esse processo de normalização reduz a percepção de risco, especialmente entre pessoas mais vulneráveis, como jovens e indivíduos com predisposição ao transtorno do jogo.” 
Beatriz Austregésilo
Psicóloga

Devido a possíveis irregularidades na divulgação de apostas durante a cobertura da competição, o canal CazéTV se tornou alvo de uma investigação da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). O Diário do Nordeste procurou o canal para comentar sobre o caso, mas não recebeu retorno até a noite de sexta-feira (3).

O que diz a lei sobre propagandas de bets?

Segundo a Lei Federal nº 14.790/2023, propagandas de bets devem obrigatoriamente indicar que a prática é permitida apenas para maiores de 18 anos, além de advertir sobre o risco de dependência e de perda financeira.

A legislação ainda proíbe que os anúncios prometam ganhos fáceis ou sugiram que apostar é um investimento, solução para problemas financeiros ou fonte de renda extra, assim como veta campanhas em escolas e universidades direcionadas a menores de idade. 

O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) ainda determina que, para assegurar a transparência, todas as peças, inclusive conteúdos de influenciadores e embaixadores, devem ser claramente identificadas como publicidade.

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