‘Descobri o papel de defensor público na Bíblia’, diz 1ª mulher cearense no cargo máximo na DPU

Natural de Mucambo, a 282 km de Fortaleza, Tarcijany Linhares relembra origens e ressalta a força feminina.

Escrito por Clarice Nascimento clarice.nascimento@svm.com.br
25 de Julho de 2026 - 07:00
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Legenda: Tarcijany Linhares está a frente da instituição nacional que desempenha funções de proteção e promoção de direitos humanos no país.
Foto: Kid Jr.

Desde junho de 2026, uma cearense nascida em Mucambo, a 282 km de Fortaleza, ocupa a chefia da Defensoria Pública da União (DPU), em Brasília. A defensora pública-geral federal (DPGF) Tarcijany Linhares, de 42 anos, é a primeira mulher eleita pelos colegas de carreira ao cargo e comandará a DPU pelos próximos dois anos. 

Na função mais alta da instituição, a advogada é responsável pela administração geral e coordenação da atuação de defensoras e defensores públicos federais em todo o país. Ela também representa a DPU perante o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF), o governo federal e organismos internacionais. 

Em entrevista ao Diário do Nordeste na sede da DPU em Fortaleza, Tarcijany ressaltou a importância de suas origens para o exercício da função de defensora pública. “Quando eu atendo um assistido, quando ele vem até a Defensoria procurar o nosso serviço, eu conheço a realidade e a trajetória dele porque eu nasci numa cidade que me ensinou a ter compaixão, solidariedade e conhecer as dores das pessoas”, afirma.

"Eu descobri o papel de defensor público na Bíblia. Eu nem sabia que existia essa função de visitar presídio, de colocar alimento na na mesa das pessoas. Então, quando eu tomei conhecimento desse versículo e comecei a praticar na vida e comunidade, ali descobri que eu era uma defensora pública".

Ela também defendeu o papel da Defensoria Pública para o atendimento e defesa dos mais necessitados. “Eu costumo falar que a Defensoria não é um gasto público, mas um investimento. Hoje, a maior violação de direitos humanos é a falta de informação. Sem conhecimento, as pessoas não conseguem acessar os seus direitos”, diz. 

Criada em 1994 pela Lei Complementar nº 80, a DPU é a instituição nacional que desempenha funções de proteção e promoção de direitos humanos no país, com atuação no recebimento e acompanhamento de denúncias de violações no âmbito individual e coletivo.

Infância em Mucambo

Com orgulho e carinho, Tarcijany lembra de Mucambo, cidade onde nasceu e viveu durante a juventude. O município cearense fica localizado na Serra da Ibiapaba, na Região Metropolitana de Sobral, e possui 14 mil habitantes.

“Minha infância foi muito feliz. Brincava na rua e no interior ele tem essa particularidade, né? As pessoas se conhecem. Então você conhece as histórias, as trajetórias, a vida de cada um ali”, recorda. 

Foi na escola pública que ela encontrou a vocação para o Direito. “Eu estudava no Centro Educacional Manoel Rodrigues e costumava me destacar na sala de aula porque gostava de defender meus colegas. Ou seja, já tinha uma certa inclinação para o Direito”, diz. 

Ela só saiu de Mucambo quando teve que entrar no Ensino Superior, em meados dos anos 2000. Naquela época, a região possuía apenas uma universidade pública que tinha o curso de Direito, a Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral. 

“O vestibular era anual e eu não consegui passar naquele momento, então, eu busquei o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e passei para a Unifor (Universidade de Fortaleza)”, diz.

Tarcijany Linhares é a segunda mulher a assumir o cargo de defensora pública-geral da União.
Legenda: Tarcijany Linhares é a segunda mulher a assumir o cargo de defensora pública-geral da União.
Foto: Kid Jr.

Quando veio para a capital, aos 20 anos, ela conta que morava em uma kitnet no Centro emprestada por uma pessoa de Mucambo, chamada Dona Selma. “Tudo era diferente para mim porque antes eu saía da minha casa e andava dois quarteirões para ir para a escola, e agora tinha que enfrentar o ônibus. De manhã eu estava no estágio, à tarde no outro estágio, e à noite fazendo a minha universidade”, recorda. 

Enfrentar essas realidades foram maneiras de construir personalidade e princípios. Além disso, a vocação jurídica se consolidou por meio da fé. Tarcijany realizava trabalhos sociais em uma comunidade evangélica de Fortaleza e encontrou em um versículo bíblico o exercício do defensor público. 

“Nosso papel é semelhante ao que Jesus fazia há dois mil anos atrás. Ele visitava os presos, colocava comida na mesa daquele que passava fome. Quando um assistido tem um Bolsa Família cortado e a defensoria consegue restabelecer o benefício, nós estamos colocando comida na mesa dele”, relata. 

Linhares destaca que a religiosidade e a família são os principais pilares da vida pessoal e profissional. “Se não fosse minha fé, eu acho que não conseguiria dar conta de tantas funções, de ser mãe, esposa, dona de casa e chefe de uma instituição tão importante. Se hoje sou da Defensoria Pública Federal e cheguei ao cargo máximo na administração, com certeza foi por conta do incentivo dos meus filhos e do meu esposo”, afirma. 

“Muitas vezes, quando atendemos os assistidos, não há demanda de Defensoria, mas sim uma vontade de ser acolhido. E esse acolhimento, eu aprendi vivendo naquela comunidade com tantas dificuldades. Os princípios que eu carrego hoje, eu aprendi com os meus pais. E os meus pais, eu aprendi naquela cidade, naquela convivência com a comunidade”
Tarcijany Linhares
chefe da Defensoria Pública da União (DPU)

‘A defensoria é uma missão de vida’

Após ter cursado Direito, a trajetória de Tarcijany como defensora pública iniciou em 2011, quando ela passou no concurso para a Defensora Pública do Estado do Pará e foi parar na cidade de Faro, distante 1.594 km da capital Belém. 

“Para chegar até a cidade, tive que ir de avião até Santarém e depois pegar alguns dias de barco. Era uma realidade totalmente diferente da que eu vivia no interior. Eu conhecia a vivência do sertão, mas não sabia da realidade das pessoas ribeirinhas. Isso me fez crescer como defensora”, diz. 

Em 2013, Linhares foi chamada para a DPU, mas seguiu residindo no Pará. “Mudei de instituição, mas continuei realizando o mesmo trabalho que eu já fazia para as ribeirinhas. Até que em 2016 fui para o Piauí”, conta.

Em Teresina, a defensora procurou pelas cidades piauienses que possuíam os menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs). “Com meu notebook, saí atendendo todos esses municípios. Poderia estar muito bem ali no meu gabinete atendendo aquelas pessoas da capital, mas eu tinha responsabilidade e compromisso social”, afirma. 

Foram mais de 30 cidades atendidas até o ano de 2022, quando Tarcijany solicitou a mudança para o escritório de Sobral. Para ela, a defensoria pública é uma “missão de vida”

“O defensor tem que ter compaixão por aquelas pessoas que atende, tem que sentir a dor delas para saber acolhê-las. Muitas pessoas que chegam na Defensoria querem ser ouvidas, entendidas e escutadas. Elas já bateram na porta da Caixa Econômica Federal, já foram no INSS e eles tiveram o ‘não’. Quando chegam na Defensoria, eles têm o ‘sim’. A Defensoria Pública é o ‘sim’ de milhões de brasileiros”
Tarcijany Linhares
chefe da Defensoria Pública da União (DPU)

Ela relembra a história de uma assistida chamada Fabrícia, que vivia no município Boca do Acre, do Estado do Amazonas. A trabalhadora rural era mãe de três crianças e buscava por um salário-maternidade em uma ação itinerante da Defensoria na região. Após ter sido negada, Fabrícia foi acolhida por Tarcijany em um momento de vulnerabilidade

A defensora ressalta a importância de olhar clínico e de uma escuta qualificada para atender à população.
Legenda: A defensora ressalta a importância de olhar clínico e de uma escuta qualificada para atender à população.
Foto: Kid Jr.

“Ela saiu chorando da audiência, eu abracei ela e saímos andando nos corredores. Ela estava inconsolável, dizendo que os filhos não tinham o que comer, que não tinha dinheiro para comprar comida. Quando encontramos as crianças na sala com a professora, ela contou que eles estavam inquietos”, relata. 

Após uma breve investigação, Tarcijany encontrou possíveis indícios de Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma vez que Fabrícia relatou que as crianças eram tão agitadas que não conseguiam dormir bem. Na mesma ação, a trabalhadora conseguiu uma perícia com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e saiu de lá com o Benefício de Prestação Continuada (BPC). 

“Lembro que eu falei: ‘Fabrícia, você sabia que essas crianças têm direito ao benefício?’ e ela não sabia nem o que era. Se eu não tivesse acompanhado a Fabrícia, naquele momento de tanta dor, que até eu me emociono, ela não tinha conseguido”, conta. 

Por isso, a advogada defende a função da Defensoria como uma “missão de vida”. “É a instituição mais linda do sistema de Justiça porque faz aquilo que a inteligência artificial não faz, que é conversar com as pessoas. É a partir da escuta que ele se traduz em um direito a ser acessado. Além de prestar essa assistência, nós promovemos direitos humanos”, afirma. 

Força feminina

Assumir o cargo máximo da DPU também é um símbolo de representatividade para o público feminino, conforme Linhares. “Estou nesse cargo para que outras mulheres que venham depois de mim, olhem e digam: ‘se essa menina que veio lá do interior, do Sertão Central, de uma cidade de 14 mil habitantes, de Mucambo, que teve todas as dificuldades que uma mulher e uma pessoa do interior têm, conseguiu chegar até ali, eu também posso”, afirma. 

“Seus sonhos não são definidos pelo limite geográfico da sua cidade. Lógico que você tem mais dificuldades quando está numa cidade pequena, mas isso não define o que você é. Se você tiver fé, perseverança e sonho, você consegue chegar onde quiser.”

Atualmente, Tarcijany Linhares é a segunda mulher a assumir o cargo de defensora pública-geral da União, mas a primeira a ser eleita. Anne Elisabeth Nunes de Oliveira já esteve nessa posição entre os anos 2000 e 2004. 

A Defensoria Pública da União tem com foco na orientação jurídica de pessoas vulneráveis e na defesa coletiva de grupos marginalizados.
Legenda: A Defensoria Pública da União tem com foco na orientação jurídica de pessoas vulneráveis e na defesa coletiva de grupos marginalizados.
Foto: Kid Jr.

A advogada mora em Brasília, onde fica a sede da DPU, mas frequentemente visita outros estados brasileiros para a realização de reuniões e visitas. “Eu me divido entre a rotina de ser defensora pública-federal e a rotina de ser mãe, dona de casa e esposa”, conta.

Por meio da liderança, ela busca não apenas administrar a instituição, mas humanizá-la, utilizando sua “escuta qualificada” e sensibilidade para garantir que a Defensoria seja um espaço de conforto e respostas aos brasileiros.

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