Três homens e uma mulher acusados de espancar e matar um morador de rua no Parque Pajeú, no Centro de Fortaleza, irão a júri popular. O crime foi cometido em agosto do ano passado e teria sido motivado por supostos assaltos praticados pela vítima na região, o que, segundo o inquérito policial, "contrariava" ordem do Comando Vermelho (CV).
A vítima era Antônio Rodrigues Venâncio da Silva, conhecido como 'Messejana'. Ele sofreu uma série de socos, chutes e pauladas e foi socorrido ao Instituto Dr. José Frota (IJF), mas não resistiu ao traumatismo cranioencefálico e morreu na cama do hospital.
Já os acusados do homicídio são Francisco Lucas Florêncio da Silva, o 'Índio', Cícero Barbosa, Francisco Tiago da Silva Batista e Fatiana de Castro Evangelista, a 'Neguinha', apontada como mandante da execução. Todos os quatro estão presos, mas não se sabe ainda quando sentarão no banco dos réus. A data do Tribunal do Júri ainda será agendada.
Crime começou com confusão por motivo fútil
O crime aconteceu na manhã de 12 de agosto de 2025, na praça do Parque Pajeú, também conhecida como "Praça da CDL" por ser em frente à Câmara dos Dirigentes Lojistas.
Segundo documentos do processo aos quais a reportagem obteve acesso, tudo começou com um conflito envolvendo 'Messejana' e um casal de moradores de rua conhecidos como 'Neguinho' e 'Tia'. Antônio teria se irritado com a dupla por motivos fúteis envolvendo um óculos e uma barraca de lona e desferido um soco no peito do outro homem.
Depois disso, a mulher do agredido teria procurado Fatiana, a 'Neguinha', considerada a líder do Comando Vermelho na Praça Coração de Jesus, para intervir na confusão.
'Tribunal do Crime'
Fatiana teria ido ao local da briga acompanhada de 'Índio', Cícero e seu companheiro, Francisco Tiago. No início, em uma dinâmica típica de "tribunal do crime", ela teria utilizado o próprio celular para gravar os depoimentos de 'Messejana' e 'Tia' sobre a confusão, e decidido condenar o morador de rua, autorizando que os demais presentes o agredissem para puni-lo.
Conforme registros de câmeras de segurança, tudo aconteceu em poucos minutos. 'Messejana' correu, mas 'Índio' seguiu em seu encalço e foi quem primeiro o golpeou na cabeça com um pedaço de madeira. Depois, Francisco Tiago o puxou pelo braço e o arrastou de volta para a praça, momento em que Cícero chegou e desferiu diversos chutes e socos na vítima.
Embora tenha sido socorrido por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado ao IJF, 'Messejana' não resistiu. O laudo cadavérico produzido pela Perícia Forense (Pefoce) apontou ao menos cinco lesões graves na cabeça dele, o que revelou a brutalidade das agressões.
O primeiro preso pelo crime foi 'Índio'. Ele foi encontrado em um bar do Centro da Capital na noite daquele mesmo dia e confirmou que deu socos e chutes na vítima, alegando que 'Messejana' estava praticando assaltos na região, o que desrespeitava ordens impostas pelo Comando Vermelho. Já Cícero teve o mandado de prisão preventiva cumprido em 9 de outubro.
Sem endereço certo, 'Neguinha' e Francisco Tiago demoraram a ser localizados, e só foram capturados em novembro. Testemunhas relataram à Polícia que a mulher teria sido afastada pelo próprio CV do "comando" da região e não era mais vista pelo Centro. Contudo, nesse meio tempo, ela chegou a ser detida por tráfico de drogas, mas acabou sendo solta na audiência de custódia porque o mandado de prisão preventiva em aberto referente ao homicídio de 'Messejana' não apareceu nos sistemas do Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP).
Exceto por 'Índio', que, inicialmente, confirmou as agressões, nenhum outro réu assume a culpa pela morte do morador de rua. 'Neguinha' diz que estava trabalhando em um transporte público no momento do espancamento, Tiago alega que desconhecia a vítima e Cícero diz que conhece os envolvidos apenas "de vista".
Tribunal do Júri decidirá o futuro do grupo
No dia 20 deste mês de julho, entendendo haver indícios suficientes de autoria e materialidade, a Justiça pronunciou os réus para submetê-los a julgamento popular. Oito dias depois, a defesa de um dos acusados protocolou uma petição questionando omissões em depoimentos e a validade das imagens das câmeras de segurança utilizadas no processo.
O Ministério Público, responsável pela acusação, foi intimado a juntar aos autos a análise dos aparelhos celulares apreendidos. O processo segue tramitando.
O Diário do Nordeste procurou a defesa dos acusados para repercutir a decisão judicial e localizou apenas a de Francisco Lucas, o 'Índio', que adiantou que não irá se manifestar neste momento. Já a representação dos demais réus não foi encontrada. O espaço segue aberto para futuras manifestações.