“A Ivaneide não pode falar, mas eu posso”. Ivaneide Barbosa Fernandes Silva tinha 24 anos quando foi morta sem motivos, na cidade de Milhã, interior do Ceará. O filho da vítima, Bruno Fernandes, hoje com 30 anos, tinha apenas dois quando a mãe morreu. Atualmente Ouvidor Geral Adjunto de Milhã, o profissional luta por justiça e celebra a submissão do réu a júri popular.
“Minha mãe foi assassinada em 9 de julho de 1998, o acusado foi preso no dia seguinte. Porém, 15 dias após a prisão, o réu fugiu da cadeia pública de Solonópole. Como ele fugiu, ele foi citado por edital”, contou o filho ao Diário do Nordeste.
Bruno explicou ainda que o processo ficou suspenso até 2018, com isso, a prescrição também. O processo foi reaberto e em 2023 o acusado foi preso na cidade de Costa Marques, Rondônia. Ficou cinco meses preso e aguarda o julgamento em liberdade.
O Ouvidor acredita que esse foi o primeiro caso de homicídio contra mulher na cidade, já que Milhã foi oficialmente fundada e emancipada em 5 de fevereiro de 1985. Não há registros históricos do crime, mas populares e amigos da família lembram da data.
“Eu tinha 12 anos na época, foi uma das maiores e mais tristes tragédias na nossa cidade, não acreditamos no que tinha acontecido. Uma mulher alegre cheia de vida, trabalhadora, cheia de alegria, só queria trabalhar e dar o melhor pros filhos dela, uma tristeza profunda”, disse uma internauta em uma das publicações de Bruno.
HOMICÍDIO QUALIFICADO
Consta na denúncia de homicídio qualificado, apresentada pelo Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), a narração da delatória afirmando que o crime aconteceu “sem nenhuma discussão e motivo aparente, de forma covarde, sorrateira, a traição”.
Por volta das 21h30h, do dia 9 de julho de 1998, o denunciado encontrava-se num bar com alguns colegas, ocasião em que resolveu ir para casa. Porém, encontrando-se embriagado.
“E com instinto assassino, adquiriu uma faca peixeira de 08 polegadas, no estabelecimento comercial do Sr. Vanderlan, e ao passar em frente ao bar denominado 'Iolanda', onde trabalhava a indefesa vítima, encontra-a na porta da saída”, diz trecho da denúncia.
O denunciado então a esfaqueou, desferindo-lhe dois golpes mortais descritos no laudo de exame cadavérico, sem que a vítima pudesse esboçar qualquer gesto de defesa.
O acusado confessou o crime, e os depoimentos do vendedor da arma e da ex-companheira do réu corroboram os indícios da autoria, conforme decisão da 1ª Vara da Comarca de Solonópole.
COMO O CASO FOI DESPERTO
Bruno e seus outros três irmãos acreditavam que o processo já havia prescrevido, ainda assim, utilizou suas redes sociais para compartilhar a história da mãe. Neste ano, o caso da jovem Ana Kevila Nogueira Batista, de 17 anos, fez o Ouvidor dar um passo a mais.
“Mexeu comigo. Eu fiquei incomodado, foi um caso que tocou muito, fiquei muito triste e eu me abalou muito [...] Como sou ouvidor geral, sempre respondia ao Ministério Público alguma solicitação. Aí veio à minha mente uma ideia: ‘Eu vou enviar um ofício ao MP solicitando informações sobre esse acontecido com a minha mãe’”.
Com esse pensamento, Bruno enviou um ofício ao MP, pedindo esclarecimento sobre o acontecido. A entidade respondeu informando que o crime não havia prescrito, que existia uma ação penal e que, inclusive, o réu tinha sido pronunciado, porém tinha recorrido.
O suspeito recorreu à comarca de Sobral, no primeiro grau, mas o juiz negou o recurso. Então, o homem recorreu ao Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE). Foi quando Bruno entrou no caso.
“Fui ao fórum de Sobral como vítima indireta, mas vítima, porque eu sou filho dela. Solicitei acesso aos autos do processo para que eu pudesse entender [...] após ler todo o processo, eu procurei a minha advogada [...] ela já deu entrada na solicitação da habilitação tanto dela como minha como assistente de acusação no processo, porque até a presente data quem levava o processo era o Ministério Público”, informou o Ouvidor.
A pronúncia saiu na 1ª Vara de Solonópole. A defesa do réu não concordou e recorreu ao TJCE. No dia 30 de junho de 2026 o Tribunal de Justiça negou o recurso por unanimidade, com um resultado de 3 a 0.
MEMÓRIAS ROUBADAS
“É o peito apertado. É a mão suando. É lembrar dos meus 2 anos de idade e não ter uma foto mental da minha mãe viva”, diz Bruno ao ser questionado sobre qual é o sentimento ao ver o réu indo a júri popular..
São 28 anos carregando uma ausência. 28 anos indo em aniversário dos outros e pensando na festa que minha mãe nunca me fez. 28 anos no Dia das Mães com flor no cemitério. Alívio? Tem. Mas vem junto com a dor de saber que precisei virar homem, estudar processo, procurar advogado, para ter o que todo mundo devia ter: justiça.
A expectativa do filho é “sentar naquele plenário e ser a voz dela. A Ivaneide não pode falar, mas eu posso. Vou estar lá como filho, não como peça do processo”.
Eu quero olhar nos olhos de cada jurado. São pais, são mães, são filhos. Gente de Milhã, gente que conhece a dor de perder alguém. Quero que eles ouçam que ela foi morta com uma faca peixeira, que o réu confessou, que fugiu por 25 anos e deixou o menino de 2 anos crescer sem mãe.
Bruno disse ainda que espera por Justiça e que a história da mãe “não seja só um número no fórum”.
No dia do júri, quando eu levantar pra falar como Assistente, vou falar por mim, pelos meus irmãos, pela minha avó, pelo meu pai que nos criou sem mãe. E vou falar por ela. Depois de 28 anos, eu só queria poder deitar a cabeça no travesseiro e sentir que fiz minha parte. Que lutei por ela até o fim. É isso que eu espero. É paz. É poder seguir a vida sabendo que não me calei.