Seminário de Gestores: diretor da Quaest aponta tendências e desafio de driblar 'crise de confiança'
Segundo o especialista, a ideologia política determina em quais fontes de informação o cidadão confia.
Em meio à atual “crise de confiança” nas instituições, a tomada de decisão na administração brasileira tem enfrentado desafios com o peso que o viés político, e não o uso de evidências, tem ganhado na avaliação popular sobre políticas públicas. Foi o que discutiu Fernando Meireles, diretor da Quaest Pesquisas, nesta terça-feira (16), no último dia do XIV Seminário dos Gestores Públicos - Prefeitos.
Se a minha missão é produzir dados para informar o debate público e as pessoas não querem ouvir os dados que eu tenho para trazer, a gente tem um problema. Os governos, os políticos, o secretário municipal de educação, a secretária municipal de saúde têm um problema.
O palestrante citou o estudo “Brasil no Espelho”, da Quaest, que investigou valores, atitudes, crenças e identidade da população. A conclusão é de que "não existe o brasileiro ou brasileira, mas sim tribos, várias caixas", em que a ideologia política determina em quais fontes de informação o cidadão confia.
Para driblar esse cenário e reforçar a credibilidade de suas ações, segundo ele, gestores devem combinar métodos mais tradicionais de avaliação de políticas públicas a processos de revisão sistemática de evidências.
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“Em vez de eu confiar num único estudo, eu vou atrás de todos os estudos, os textos, os testemunhos, os grupos focais e as entrevistas que eu encontrar. Eu ouço o máximo possível de vozes da sociedade e reúno essa evidência com um protocolo”, sugeriu.
Com a contribuição de universitários, pesquisadores, gestores públicos, políticos, partidos, ONGs e estudos patrocinados, é possível construir uma “caixa de ferramentas de políticas públicas” com uma visão global do objeto e menos vulnerável a vieses ideológicos.
Evidências recentes
Como exemplo do uso estratégico de evidências na implementação de políticas públicas, o palestrante lembrou dos esforços pela proibição do uso de celulares em escolas no Rio de Janeiro.
A medida, inicialmente polarizada, tornou-se consensual após a difusão de informações sobre a melhoria no desempenho escolar e no comportamento dos alunos.
“Sintetizando evidências, com diferentes pessoas estudando isso, escolas particulares divulgando o resultado das provas dos seus alunos; rapidamente se criou um consenso em torno dessa política. A evidência ganhou espaço no debate”, complementou.
Fernando Meireles também citou um estudo que indica que a confiança da população em uma política pública aumenta em mais de 60% quando sinalizado que ela foi resultado do trabalho de especialistas e de iniciativas bipartidárias ou de forças-tarefa que reúnem diferentes visões.
Desafio para municípios menores
Apesar da importância de um esforço amplo de coleta de evidências, o cientista reconhece que municípios pequenos, de até 50 mil habitantes, podem ter dificuldade em financiar essa metodologia.
Uma alternativa seria acessar centros que produzem sínteses de evidências para implementar políticas mais simples e recorrer a redes locais de colaboração.
“É um grande passo que cada questão municipal consiga entender as experiências do seu estado, os municípios vizinhos que são bons exemplos. Os grupos partidários, os grupos regionais são os principais canais de informação para saber quem são as vitrines, quem trouxe ideias novas para o debate”, concluiu.
Com promoção do Diário do Nordeste e da Associação dos Municípios do Estado do Ceará (APRECE), e com realização da Prática Eventos, o seminário ocorre no Centro de Eventos do Ceará nesta terça-feira (16).