A atuação das facções criminosas nas eleições municipais de 2024 no Ceará começou a ser alvo de investigações antes mesmo da campanha eleitoral começar. Agora, quase dois anos depois do pleito, essa interferência das organizações segue gerando apreensões, prisões e afastamento de agentes públicos do cargo — como a Operação Omertá, em Sobral, que levou à prisão de três vereadores da cidade no início da semana.
Os relatórios das investigações, e também as denúncias realizadas a partir destas apurações, permitem traçar um diagnóstico de como as facções criminosas têm atuado para interferir no processo eleitoral no Ceará, e, além disso, expandir essa interferência para mais municípios cearenses a cada novo pleito.
Uma das práticas mais comuns são as tentativas de extorsão de candidatos, o que têm sido tratada pelas autoridades policiais como um novo braço econômico das facções. Para isso, os criminosos costumam exigir "pedágios" para que estes candidatos possam realizar campanha nos territórios dominados por determinada facção.
Nestes casos, é comum que não haja uma preferência explícita por um dos lados da disputa eleitoral, com a tentativa de extorsão sendo cometida contra diferentes candidaturas — em Sobral, por exemplo, foi registrada cobrança de "pedágios" de até R$ 60 mil para quem estava concorrendo à Câmara Municipal.
Existem, entretanto, outros casos em que as organizações criminosas escolhem um candidato, seja ao Executivo ou ao Legislativo. Isso pode gerar desde ameaças a eleitores para que votem na candidatura 'apadrinhada' até intimidações contra adversários políticos, com registros de ameaças para impedir candidatos até de entrar em determinadas regiões da cidade, como ocorreu em Sobral e Santa Quitéria.
O caso de Santa Quitéria chegou inclusive a ser citado como "mais emblemático, grave e ultrajante" já analisado pela Justiça Eleitoral durante o julgamento no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE- CE), que levou à cassação do prefeito eleito, Braguinha (PSB). Ele não foi o único prefeito investigado sob suspeita de ligação com facções. Casos semelhantes também ocorreram em Potiretama e Canindé.
Existem ainda casos de financiamento de campanhas eleitorais, com o registro de "contrapartida" por parte dos candidatos eleitos, como a nomeação de integrantes da facção em estruturas do Poder Público ou a "proteção institucional" da facção criminosa pelos agentes públicos. É o que indica, por exemplo, a investigação em Morada Nova, em que seis vereadores foram presos por suspeita de envolvimento com as organizações criminosas.
As câmaras municipais cearenses têm sido, desde 2024, bastante afetadas pelas investigações de suspeitas de ligação entre parlamentares e facções. Segundo levantamento do PontoPoder, são pelo menos seis casas legislativas que tiveram parlamentares presos, afastados ou cassados por estarem sendo investigados tanto na seara criminal como na eleitoral.
'Pedágio' de R$ 60 mil
As prisões mais recentes, realizadas na última terça-feira (11), são parte de investigação de um grupo criminoso que cobrava "pedágios" de candidatos em Sobral durante a campanha eleitoral de 2024. Os valores variavam, começando em R$ 30 mil para estreantes e chegando a R$ 60 mil no caso dos candidatos que que tentavam a reeleição como vereadores.
A Operação Omertá cumpriu 14 mandados de prisão preventiva, 25 de busca e apreensão, e 5 medidas de afastamento cautelar de cargos públicos.
Foram presos Carlos do Calisto (PSB), Mário Vicktor (União Brasil) e Junim do Povo (Podemos). Os três também foram afastados do mandato na Câmara Municipal de Sobral e tiveram a prisão . Além deles, um quarto parlamentar, Marlon Sobreira (PP), também foi alvo de mandado de busca e apreensão, embora não tenha sido detido.
O promotor Igor Pinheiro, coordenador do Grupo Auxiliar Eleitoral (Gael) do Ministério Público do Ceará (MPCE), não quis informar qual facção criminosa era responsável pelo esquema. Também não informou a participação de vereadores eleitos na dinâmica criminosa.
“Não cabe a gente falar sobre esses elementos tão técnicos do direito. O que me parece ser fundamental a partir dessa operação é o recado claro e objetivo: quem for candidato ou trabalhar com campanha eleitoral não deve se submeter a esse tipo de extorsão. É para isso que existem polícia, Ministério Público e Justiça”, disse ele.
“Pessoas de bem, honestas, que querem fazer sua campanha eleitoral – que é um direito legítimo de todos –, devem, uma vez constrangidas ou extorquidas, procurar as autoridades para que nós possamos agir, e não entrar nesse discurso muito fácil e comodista de dizer ‘eu não faço parte de uma facção, mas eu paguei para poder fazer minha campanha’”.
Ainda segundo as autoridades, há indícios de que as organizações já começaram a tentar interferir na campanha eleitoral de 2026 na cidade, com eventos políticos que não foram realizados por conta de ameaças.
Segundo boletins de ocorrência registrados, os criminosos ameaçaram participantes e até proprietários do local de atos, afirmando que se houvesse o ato iriam 'tacar fogo', 'meter bala' e matar pessoas.
Ameaças à ex-governadora em Sobral
A intimidação de facções criminosas para tentar impedir a campanha eleitoral em Sobral vinha sendo monitorada por autoridades policiais e pela Justiça Eleitoral desde o período da campanha. A cidade estava em lista divulgada pelo TRE Ceará, em que eram elencados municípios em que o risco de interferência de organizações criminosas demandava mais atenção.
Uma das que sofreu ameaças foi a ex-governadora do Ceará, Izolda Cela (PSB). Em 2024, ela era candidata a prefeita de Sobral. Segundo registros, houve um "salve" da facção Comando Vermelho proibindo a campanha eleitoral da candidata em determinadas regiões do município. Existiria inclusive a lista de bairros em que ela e os apoiadores não poderiam entrar e em que eleitores não poderiam vestir camisas ou colocar adesivos da então candidata.
No total, oito pessoas chegaram a ser presas por suspeita de participação na ameaça contra Izolda, mas apenas Kevin Henrique Lopes Cavalcante foi levado a julgamento e condenado a mais de 8 anos de prisão pelo crime. Ele foi o responsável por publicar, em perfil nas redes sociais, a foto de arma com a legenda "bala na Izolda".
Durante a audiência de instrução do caso, os depoimentos colhidos trouxeram detalhes sobre o modus operandi dos criminosos durante o processo eleitoral.
Foram citados, por exemplo, que diversos atos de campanha de Izolda ocorreram sob ameaças por não haver "autorização" da facção. Mensagens, recebidas por militantes, diziam que se a mobilização acontecesse, "pessoas iam ser baleadas" e que "ia ter morte".
Também houve registros de rojões sendo lançados contra militantes da campanha de Izolda em momentos de dispersão dos atos de campanha. Na época, já havia indicativos dos "pedágios" exigidos pelos criminosos, e que seguem sob investigação das autoridades policiais.
Tiros e ameaças em Caucaia
Assim como Sobral, Caucaia foi um dos seis municípios mapeados pela Justiça Eleitoral que precisavam de maior atenção pelo risco de interferência de organizações criminosas nas eleições de 2024. A campanha eleitoral de Caucaia foi marcada por tentativas de extorsão de candidatos, ameaças a eleitores e interrupções de atos de campanha.
Uma facção criminosa estava cobrando "pedágios" entre R$ 50 mil a R$ 100 mil das campanhas dos candidatos para “permitir” que eles atuassem em determinadas regiões. As intimidações em questão eram feitas por mensagens pelo WhatsApp e, também, presencialmente, para pessoas que organizaram os atos políticos, segundo as autoridades policiais.
Também houve registro de tentativas de intimidação a candidatos à Prefeitura de Caucaia. Um evento político da deputada estadual Emília Pessoa (PSDB), então candidata a prefeita, foi interrompido em razão de disparos de armas de fogo.
Testemunhas informaram que criminosos, utilizando capacetes e balaclavas, chegaram ao lugar e dispararam para o alto e contra o chão, na parte externa da propriedade. Ninguém ficou ferido.
O atual prefeito Naumi Amorim (PSD) também relatou situação semelhante. Durante uma caminhada com apoiadores, foram ouvidos tiros. Os participantes do ato de campanha dispersaram assim que perceberam a situação. Ninguém ficou ferido.
Ainda em setembro de 2024, mais de 40 pessoas foram presas e outras 98 foram denunciadas pelo envolvimento em ações criminosas que buscavam intervir nas eleições da cidade. A informação foi divulgada pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS-CE).
Santa Quitéria
O prefeito eleito de Santa Quitéria, Braguinha (PSB), e o vice Gardel Padeiro (PP), foram cassados dos cargos por interferência da facção criminosa Comando Vermelho na eleição da cidade em 2024. Os dois não chegaram sequer a assumir os cargos, com Braguinha tenso sido preso no dia da posse, em janeiro de 2025. A prisão chegou a ser convertida em domiciliar e foi revogada no final do ano passado.
Na confirmação da cassação no TRE Ceará, foi detalhado como ocorreu essa atuação da organização criminosa durante a campanha eleitoral. Quebra de veículos, atentado a residências, agressões físicas e até expulsão da cidade estavam no rol das ameaças feitas por supostos integrantes da facção.
A campanha do candidato da oposição, Tomás Figueiredo (MDB), sofreu intimidações diretas. Eleitores e cabos eleitorais dele foram ameaçados e foram feitas ameaças por meio de pichações e ligações telefônicas, com a intenção de esvaziar os atos de campanha da candidatura oposicionista.
As intimidações não ficaram restritas aos apoiadores de Figueiredo, sendo feitas também a comerciantes, que não poderiam abrir os estabelecimentos nos dias e locais dos atos do candidato opositor.
O Comando Vermelho teria inclusive ordenado a viagem de Daniel Claudino, conhecido como "DA30", para "tumultuar a campanha de Tomás Figueiredo". Para isso, ele receberia mais de R$ 300 mil. No celular de Daniel Claudino foram encontrados áudios com orientações para as pichações, que além de detalhar as ameaças a potenciais eleitores de Tomás Figueiredo também reforçava a necessidade de ocultar o nome de Braguinha. Também havia o nome das pessoas que deveriam ser expulsas caso não mudassem o voto.
A Justiça Eleitoral também foi alvo dos criminosos. O Cartório Eleitoral da cidade sofreu com ameaças de atentado e os servidores, de assassinatos. A intimidação dizia que o local "seria atacado e os servidores seriam assassinados" caso a Justiça Eleitoral não "parasse com as decisões contra os 'irmãos' do Comando Vermelho".
Os desembargadores eleitorais do TRE Ceará avaliaram que existia "um forte elo, sobretudo do prefeito (Braguinha), no que tange aos crimes praticados, já que tudo foi feito na intenção de lhe beneficiar". A ligação com o Comando Vermelho foi fortalecida quando um veículo foi encontrado no Rio de Janeiro, na casa de Paulinho Maluco, que seria um dos líderes do Comando Vermelho.
Em julho de 2024, dois funcionários comissionados da Prefeitura de Santa Quitéria foram até Fortaleza para comprar um carro. O carro, avaliado em R$ 1,5 milhão em dinheiro, saiu de Santa Quitéria e foi levado até a comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro.
"Diante desse cenário abominável, de criminalidade, é evidente que o ambiente eleitoral ficou excessivamente nocivo naquele município, o que permite concluir que o pleito encontra-se viciado e totalmente divorciado do verdadeiro sistema democrático", disse o relator da ação, desembargador eleitoral Luciano Nunes Maia Freire.
Prefeitos sob suspeita
Nas cidades de Potiretama e Canindé, os prefeitos eleitos também foram investigados por suspeita de ligação a organizações criminosas. No caso de Potiretama, Luan Dantas (PP) foi preso em abril de 2025 acusado de ter encomendado com um membro do Primeiro Comando da Capital (PCC) um incêndio criminoso contra a propriedade de um desafeto.
A defesa dele nega as acusações. "Os fundamentos da prisão são fruto de denúncias, sem lastro probatório algum, formuladas por opositores políticos. Sua inocência não será maculada por essa perseguição política", disse a defesa na época da prisão.
Em novembro, a Câmara Municipal de Potiretama votou pela cassação do então gestor municipal. Antes disso, ele havia pedido licenças sucessivas para preservar o cargo durante o cárcere. A chapa inteira, incluindo a vice-prefeita Solange Campelo (PT), que assumiu a gestão interinamente, acabaria sendo cassada pelo TRE Ceará.
Já em Canindé, as investigações identificaram que uma mulher que chefiava o comitê eleitoral do então candidato Jardel Sousa, eleito prefeito em 2024, era uma traficante de drogas que atuava na região, com ligação com uma organização criminosa.
“Além disso, também foi amplamente divulgado dentro do distrito fotos com o número do referido candidato e a frase ‘sou GDE 7.4.5 e voto 40’, em alusão à facção criminosa GDE”, mostra um documento anexado ao inquérito que está em curso no Supremo Tribunal Federal (STF).
No período das investigações, o gestor não se manifestou sob as suspeitas.
Prisão de quase metade da Câmara Municipal
O Legislativo também foi afetado pelas investigações sobre a atuação das facções criminosas nas eleições de 2024. Um dos casos mais sérios é o de Morada Nova, em que seis vereadores foram presos sob suspeita de ligação com organizações criminosas. Isso representa quase metade da Câmara Municipal, formada por 15 vereadores.
As prisões ocorreram no primeiro semestre de 2026. Em março, foram presos cinco vereadores, incluindo o então presidente da Casa, Hilmar Sérgio (PT). Além dele, foram detidos, durante a Operação Traditori, os vereadores:
- Gleide Rabelo (PT) - então secretária na Mesa Diretora da Câmara;
- Régis Rumão (PP) - vereador da Câmara Municipal;
- Júnior do Dedé (PSB) - vereador, que estava licenciado e como secretário de Administração do município;
- Cláudio Maroca (PT) - vereador da Câmara Municipal.
Em maio, mais um vereador foi preso: Weder Basílio (PP) foi detido na Operação Consorte, desdobramento da Operação Traditori. Ele era investigado como parte do núcleo político devido a movimentações financeiras expressivas e relações com outros investigados.
A suspeita é de que a organização Guardiões do Estado (GDE) no financiamento ilícito de campanhas eleitorais destes vereadores. A investigação detalha que havia um “amplo e estruturado” esquema de lavagem de dinheiro praticado por integrantes da GDE para o financiamento de campanhas eleitorais em Morada Nova, com recursos oriundos do tráfico de drogas e armas, principalmente.
Por outro lado, o esquema exigia contrapartidas políticas e “proteção institucional", com a nomeação de membros da GDE em cargos públicos.
Um dos exemplos citados é a nomeação de uma mulher apontada como membro do núcleo financeiro operacional da facção ao cargo de assessora de cerimonial na Câmara Municipal. Além dela, uma integrante da GDE, conhecida como “Conselheira da Disciplina Geral do Estado”, chegou a ser nomeada para um cargo em uma prefeitura do interior do Ceará.
Segundo as investigações, o núcleo político seria um das divisões do esquema criminoso, que também tinha um núcleo de comando e um núcleo financeiro operacional.
O núcleo político seria composto por candidatos e agentes públicos que receberam recursos ilícitos para custear suas campanhas eleitorais e, em contrapartida, estabeleceram com a facção “relações de dependência e reciprocidade”.
Outros casos de vereadores
Além dos casos de Sobral e Morada Nova, citados anteriormente, outros municípios também viram a composição do parlamento municipal mudar após vereadores serem alvo de investigações, tanto na seara criminal como judicial.
Em Canindé, o vereador Geovane Gonçalves (SD) foi afastado do cargo sob suspeita de integrar organização criminosa — o processo está em sigilo na Justiça. Ele também foi denunciado, junto com outras 17 pessoas, pelo Ministério Público do Ceará. O afastamento foi por 180 dias e ele já retornou ao cargo.
Na mesma cidade, a vereadora Professora Lorena (PRD) teve o mandato cassado por abuso de poder político e econômico. O processo mostrou que ela teria tido auxílio de uma figura ligada à facção Guardiões do Estado (GDE), apontada como dirigente do comitê eleitoral da parlamentar.
O TRE Ceará confirmou a cassação, mas o processo ainda aguarda análise de embargos de declaração no TRE Ceará, que irá analisar a tese apresentada pela defesa da vereadora, de nulidade do julgamento.
Em Tejuçuoca, o vereador Gerlano Cabeludo (MDB) foi alvo de um mandado de prisão temporária em uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público em fevereiro de 2026. A investigação apurava um homicídio ocorrido na cidade, além da suspeita de envolvimento com organização criminosa.
Já na cidade de Iguatu, um suplente de vereador foi denunciado por ter supostamente oferecido R$ 50 mil a um integrante de uma facção criminosa local para obter apoio e votos nas últimas eleições. Ele acabou sendo cassado e os votos anulados, com uma recontagem para a Câmara Municipal.