Facção de Sobral cobrava até R$ 60 mil em ‘pedágio’ para liberar campanhas de rua em 2024

Suspeitos de envolvimento no esquema criminoso foram presos nesta terça-feira (11), no âmbito da Operação Omertá.

Escrito por Ingrid Campos ingrid.campos@svm.com.br
11 de Agosto de 2026 - 13:12
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Legenda: Foram expedidos 25 mandados de busca e apreensão e 14 de prisão contra os suspeitos pela 3ª Zona Eleitoral de Fortaleza.
Foto: Divulgação/MPCE.

Integrantes de uma organização criminosa teriam cobrado “pedágios” de até R$ 60 mil, em Sobral, na Região Norte do Ceará, para candidatos acessarem determinados territórios do município em campanha de rua, durante as eleições de 2024. A informação foi esclarecida pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) em coletiva de imprensa sobre a Operação Omertá, que prendeu três vereadores da cidade e outras quatro pessoas nesta terça-feira (11). 

O valor variava conforme o capital político dos candidatos interessados. Para os detentores de mandatos, o montante a ser pago, à época, era de R$ 60 mil. Já para os postulantes estreantes em disputa eleitoral, a cobrança ficava pela metade, em torno de R$ 30 mil. 

O que se sabe da operação em Sobral

Foram expedidos 25 mandados de busca e apreensão e 14 de prisão contra os suspeitos pela 3ª Zona Eleitoral de Fortaleza. Destes, sete haviam sido cumpridos até o momento da coletiva de imprensa. A Ficco não esclareceu se os demais suspeitos são considerados foragidos e se também são agentes políticos. 

O colunista Inácio Aguiar, do PontoPoder, confirmou a detenção de três parlamentares de Sobral: Carlos do Calisto (PSB), Mário Vicktor (União Brasil) e Junim do Povo (Podemos). Eles também foram afastados judicialmente dos seus mandatos por 180 dias, abrindo espaço para suplentes. 

O processo é sigiloso e, por isso, não há mais informações, por ora, sobre como se dava a participação dos vereadores na dinâmica criminosa. Questionada, a Ficco preferiu não comentar publicamente esses detalhes.

“Não cabe a gente falar sobre esses elementos tão técnicos do direito. O que me parece ser fundamental a partir dessa operação é o recado claro e objetivo: quem for candidato ou trabalhar com campanha eleitoral não deve se submeter a esse tipo de extorsão. É para isso que existem polícia, Ministério Público e Justiça”, disse o promotor Igor Pinheiro, coordenador do Grupo Auxiliar Eleitoral (Gael) do Ministério Público do Ceará (MPCE).

“Pessoas de bem, honestas, que querem fazer sua campanha eleitoral – que é um direito legítimo de todos –, devem, uma vez constrangidas ou extorquidas, procurar as autoridades para que nós possamos agir, e não entrar nesse discurso muito fácil e comodista de dizer ‘eu não faço parte de uma facção, mas eu paguei para poder fazer minha campanha’”, complementou.

Os mandados, autorizados pela Justiça Eleitoral, foram pedidos de forma conjunta pelo MPCE, por meio do Grupo Auxiliar Eleitoral (Gael) e da 3ª Promotoria Eleitoral de Fortaleza, e pela Ficco – uma força-tarefa brasileira que reúne Polícia Federal (PF), Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Penal.

O Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco Norte) do MP e a Delegacia de Combate às Ações Criminosas Organizadas (Draco Norte) da Polícia Civil também deram apoio à operação, que apreendeu aparelhos celulares, dinheiro em espécie e documentos.  

Até o momento, o PontoPoder não localizou a defesa dos vereadores Carlos do Calisto, Mário Vicktor e Junim do Povo. O espaço está aberto para pronunciamentos.

Influência criminosa nas eleições

O promotor Igor Pinheiro não divulgou qual facção é investigada por acreditar, segundo ele, que isso dá “legitimidade aos criminosos”, limitando-se a descrevê-la como um grupo “dominante” na cidade. 

Aliado aos “pedágios”, a facção criminosa também fazia ameaças a eleitores. Esses são alguns dos achados da investigação que começou em 2024 e ganhou novos desdobramentos neste ano, com episódios inéditos de interferência na política, ainda na pré-campanha. 

“Nós temos eventos políticos marcados em 2026 que não foram realizados por ação da organização criminosa de ir até o local, ameaçar os participantes e os proprietários do local, dizendo que, se efetivamente tivesse a reunião, iriam ‘tacar fogo’, ‘meter bala’ e matar as pessoas – tudo isso registrado em boletim de ocorrência e com as devidas investigações em curso”, relatou o promotor, sem dar mais detalhes sobre o caso.

Outros desdobramentos

Além da troca de assentos, a Câmara de Sobral deve efetivar o afastamento, pelo mesmo período, de um assessor jurídico suspeito de envolvimento com o esquema criminoso, também determinado pela Justiça. O PontoPoder buscou a casa legislativa para esclarecimentos a respeito desses procedimentos e aguarda retorno.

Os investigados estão proibidos de manter comunicação direta e indireta entre si e com testemunhas já ouvidas no processo.

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